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Legado de um ano de Temer engessa próximo presidente

por André Barrocal publicado 12/05/2017 11h40, última modificação 12/05/2017 12h55
Sem certeza sobre 2018, forças econômicas e políticas que apoiam governo patrocinam reformas impopulares para fechar o pacote
Beto Barata / PR
Michel Temer

Temer com seus comensais: o objetivo é destruir o legado da Constituição de 1988

O governo Michel Temer completa um ano nesta sexta-feira 12 com realizações dignas de aplausos por parte dos interesses econômicos que apoiaram o impeachment. As multinacionais petroleiras já podem explorar o pré-sal sem a Petrobras. A terceirização total dos trabalhadores foi liberada. O investimento público em saúde, educação e assistência está congelado por 20 anos

Agora a obsessão de Temer é emplacar as reformas trabalhista e da Previdência. Se triunfar nelas, e considerando seu legado até aqui, deixará o próximo presidente engessado, seja ele qual for. É por isso, diz um parlamentar do PMDB, ex-ministro, que o governo tenta de todo o jeito alterar a CLT e as aposentadorias. 

Segundo este congressista, as forças econômicas e políticas que apoiam Temer não têm mais certeza de vitória na eleição presidencial do ano que vem, ao contrário do que achavam após a derrota do PT no impeachment. “A centro-direita precisa fazer o trabalho já, aprovando essas reformas”, diz. 

Impressão parecida com a de Carlos Siqueira, presidente do PSB, partido que tem um ministro no governo mas é dividido quanto a apoiar Temer. Outro dia ele conversou com um empresário e ouviu uma frase de arrepiar: “O que queremos é desatar o nó de 1988”. Tradução: desmontar o Estado de bem-estar social desenhado na Constituição e que nunca saiu do papel na plenitude.

Sem pretensões de concorrer à reeleição, Temer pode seguir com as reformas impopulares que não correrá risco de ser punido pelos eleitores. Aliás, o mundo real desencoraja ambições continuístas. Desemprego recorde (13,7%, segundo o IBGE). Governo aprovado por só 4% (pesquisa Ipsos). Reformas rejeitadas por 93% (Vox Populi). O presidente é corrupto para 73% (Datafolha).

Se o governismo, com sua má fama e agenda impopular, não será um fardo eleitoral para Temer, o mesmo não podem dizer os grupos políticos ligados ao presidente. É o caso principalmente do PSDB, segundo maior aliado do peemedebista e ninho de vários presidenciáveis, como Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin e João Dória Junior.

Em uma recente conversa reservada, um ministro de Temer comentou que as pessoas estão com raiva do governo e tendem a votar na oposição na eleição de 2018. E o rosto da oposição hoje, afirmou essa autoridade, é o ex-presidente Lula.

Na quarta-feira 10, o petista disse ao juiz Sérgio Moro que será candidato. Não se sabe se a situação judicial dele permitirá. Se for condenado por Moro e não conseguir anular a decisão na segunda instância, ficará impedido de concorrer por causa da Lei da Ficha Limpa. Daí só uma surpresa nos tribunais superiores de Brasília para liberar a candidatura dele.

Em discursos e entrevistas recentes, Lula afirmou querer disputar para derrotar o candidato apoiado pela Rede Globo e pelos bancos, personagens que apoiam as reformas impopulares de Temer. Mas, exceto pelo congelamento por 20 anos de gastos em saúde e educação, não disse nada sobre reverter leis aprovadas no atual governo.

Temer
Ato contra Temer em Curitiba, na quarta-feira 10 (Foto: Roberto Roberto Parizotti)

Para quem é contra mudanças na CLT e nas aposentadorias, a missão é derrotá-las já, não em um eventual novo governo Lula. Mãe de todas as batalhas para Temer, a reforma da Previdência tem votação marcada no plenário da Câmara para o dia 24. Movimentos sociais contrários à proposta, como centrais sindicais, prometem protestar na porta do Congresso. Adiantará?

Difícil. O Congresso é dominado pelas forças econômicas pró-reformas. Dos 594 parlamentares, 42% são empresários, fazendeiros incluídos, quase o dobro do total de assalariados (22%). O País tem mais mulheres (51%) do que homens (49%), mas elas são só 12% dos legisladores. Situação similar à dos negros, 54% na população e 10% dos congressistas.

Eleger-se em 2014 custou fortunas impagáveis para um trabalhador, renda média de 1,7 mil mensais. Um deputado gastou por baixo 2 milhões de reais na campanha e um senador, 5 milhões, informa o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), autor de uma radiografia do Parlamento. Uma grana dada quase sempre por empresas, investimento disfarçado de doação. 

“Montamos uma plutocracia, os grandes financiadores ditam o jogo, o poder econômico capturou o sistema de representação política”, diz o cientista político Bruno Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “O sistema político todo está ‘comprado’ pelo poder econômico, isso está claro na Operação Lava Jato.”

Reis é um dos quatro autores da pesquisa Dinheiro e política: a influência do poder econômico no Congresso Nacional, em fase de conclusão. O País, segundo ele, tem poucas empresas doadoras de campanha, pois a economia é oligopolizada, e muitos candidatos em colégios eleitorais grandes. Como a oferta de financiamento é pequena e a disputa por verba, muita, o parlamentar fica refém do doador. Ou então é rico e paga a campanha do bolso.

Um ambiente bastante receptivo, portanto, às reformas impopulares de Michel Temer.

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