PolĂtica
Julgamento no Supremo pĂ”e em cena âaliança por esposasâ
DecisĂŁo que influenciarĂĄ caso Queiroz Ă© capĂtulo de arranjo silencioso entre Jair Bolsonaro, Dias Toffoli e Gilmar Mendes
O Supremo Tribunal Federal (STF) vai julgar nesta quarta-feira 20 um caso de interesse do senador Flavio Bolsonaro e do ex-PM Fabricio Queiroz. A dupla estĂĄ blindada desde que o presidente do STF, Dias Toffoli, deu uma liminar em julho contra o compartilhamento, por ĂłrgĂŁos do governo, de dados bancĂĄrios e fiscais com procuradores, promotores e policiais.
Nomeado para o cargo por Jair Bolsonaro, o procurador-geral da RepĂșblica, Augusto Aras, enviou aos juĂzes do Supremo um documento em defesa da revogação da liminar. Quando pedia votos no Senado para ser aprovado para o cargo de PGR, comentou com interlocutores que Queiroz Ă© violento, miliciano e era poderoso no gabinete de deputado estadual de Flavio no Rio.
No documento, Aras diz que a ação que deu origem Ă liminar de Toffoli sofreu âexpansĂŁo indevidaâ graças a Flavio. A ação, de 2017, tratava da possibilidade de a Receita Federal repassar a policiais, procuradores e promotores informaçÔes bancĂĄrias que obtinha ao caçar sonegadores. O ex-Coaf foi engolfado pela ação a pedido dos advogados do filho de Jair Bolsonaro.
Esse pedido jogou luz sobre uma aliança nĂŁo-declarada entre Dias Toffoli, Jair Bolsonaro e outro juiz do STF, Gilmar Mendes, graças ao fator âesposasâ.
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A primeira-dama Michelle Bolsonaro despontou no inĂcio do caso FlĂĄvio-Queiroz, fins de 2018, por ter recebido 24 mil reais em depĂłsito de Queiroz, em algum momento entre 2016 e 2017. O depĂłsito consta de um relatĂłrio do ex-Coaf. Esse relatĂłrio faz parte das investigaçÔes criminais contra FlĂĄvio no Rio, suspensas pela liminar de Toffoli.
As esposas de Toffoli, Roberta Rangel, e de Mendes, Guiomar Feitosa, foram alvejadas graças Ă troca de informaçÔes entre Receita Federal e procuradores. Tudo indica que auditores da Receita fizeram chegar a investigadores da Operação Lava Jato anĂĄlises ficais preliminares sobre os dois casais, para enfraquecer os juĂzes. A existĂȘncia das anĂĄlises foi noticiada em fevereiro de 2019.
Embora nĂŁo declarada, a âaliança pelas esposasâ pode ser identificada pela cronologia e a autoria de certos fatos.
Em 15 de julho, o advogado de Flavio, Frederick Wassef, acionou o STF para que a ação sobre o compartilhamento de dados da Receita valesse também para dados do ex-Coaf, a fim de que seu cliente fosse beneficiado. O tribunal estava de férias e o plantonista era Toffoli. Que deu a liminar requerida por Wassef no mesmo dia.
Em abril, Toffoli realizara um ato de desagravo ao Supremo devido Ă s pauladas de bolsonaristas na corte. Em maio, houve uma marcha de bolsonaristas, estimulada pelo presidente, em favor de fechar o tribunal. Desde a liminar protetora de Flavio, e por tabela de Michelle, o presidente nĂŁo ataca mais a corte, nem indiretamente.
Em 3 de setembro, Wassef voltou a acionar o Supremo em busca de blindagem a seu cliente. Alegava que a liminar de Toffoli estava sendo descumprida, o senador continuaria investigado por promotores no Rio. Queria outra liminar. O caso caiu com Gilmar Mendes. Que deu a liminar, em 27 de setembro. No fim daquele dia, Wassef foi a Jair Bolsonaro no PalĂĄcio da Alvorada.
Pouco apĂłs seu advogado recorrer ao STF em setembro, FlĂĄvio agiu contra a criação, no Senado, de uma CPI da Lava Toga, que mira particularmente Dias Toffoli. AtĂ© hoje a CPI nĂŁo foi instalada, apesar de ter o nĂșmero necessĂĄrio de assinaturas. Uma nĂŁo-instalação para a qual contribuiu outro presidente de poder, Davi Alcolumbre (DEM-AP), do Senado.
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