…

Jair Bolsonaro e o guarda da esquina

Política

Jair Bolsonaro está de salto alto depois do resultado das pesquisas e resolveu abrir o jogo. Repetiu que vai taxar todos com um Imposto de Renda de 20%, ou seja, baixar ainda mais o imposto dos ricos e, pasmem, aumentar o imposto dos que recebem acima de cinco salários mínimos.

A lógica é continuar a distribuir os custos da crise e do “ajuste” para o andar de baixo, preservando o andar de cima para que compre o patrimônio público com preços rebaixados.

E o pior é que o votante médio ainda acredita que Bolsonaro é antissistema, mesmo depois de dizer que vai preservar o essencial do governo Temer: a reforma trabalhista que rebaixa salários e deprime o mercado interno de consumo de bens e serviços e a PEC do fim do mundo (teto nominal de gasto público), que vai rebaixar ainda mais o gasto na saúde, na educação e demais serviços públicos.

Leia também:
Brasil: quando todos se definem
Coragem contra o candidato da violência

Os gastos na manutenção da “ordem pública” vão aumentar, contudo, retirando ainda mais do restante. Imagina quando os estudantes saírem às ruas para reclamar do corte de investimento público no SUS ou na educação, ou quando “ativistas” pedirem recomposição de perdas salariais para poder comer, para não falar tomar cerveja ou reformar casa. É provável que sejam chamados de “comunistas” ou até mesmo de terroristas.

A repressão faz sentido para preservar o “sistema” de distribuição de perdas e ganhos com a crise, mas muito dela é feita sem sentido. Na terça-feira 16, um guarda municipal de Campinas resolveu interromper ilegalmente uma panfletagem pró-Haddad e dar voz de prisão a uma aluna de Artes Cênicas da USP e um aluno do Instituto de Economia. Ambos estavam em tradicional espaço de panfletagem em Campinas. Nenhuma lei passou a proibir a luta pelo voto ali.

Armou-se a confusão, a torcida amontoada para espiar a peleja. A estudante telefona para a mãe advogada e comenta: “Parece que estamos na ditadura”. Pode parecer ficção, mas as testemunhas ouvem o guarda municipal exclamar: “Sim, a ditadura militar voltou, graças a Deus”.

Como hoje se usa o nome de Deus em vão, não?

Enquanto isto, homens e mulheres de bem cultivam o velho monstro de nossa história achando que ele nunca vai machucá-los. Esquecem que o candidato que alimenta o monstro disse que é bom já ir se acostumando ao fato de que ele não controla o ódio de todos que ele tenta direcionar.

Não vai sobrar apenas para os “ativistas” que o candidato disse que vai findar em sua primeira declaração no segundo turno. Ódio autorizado, vai sobrar não só para gays, mendigos, meninos de rua, negros, os bodes expiatórios mais explícitos, mas também para mulheres, para os meninos mais fracos no colégio, para os gordinhos, ou seja, para todos, para seu parente, seu amigo ou parente de seu amigo.

Imagina se uma intervenção mal planejada nos presídios esquente a guerra fria com o PCC e o Comando Vermelho, e se as armas forem liberadas para todos. Vai sobrar para os passantes colhidos pelas balas perdidas ou para as vítimas de crimes passionais. Como disse Bolsonaro, ele mesmo foi vítima do que sempre pregou.

Infelizmente, o caos pode servir para alimentar ainda mais o terror de Estado. Para aventuras talvez mais ambiciosas. Para um ex-capitão que planejou plantar bombas em quarteis do Exército para exigir aumentos salariais em 1986, o céu é o limite.

Cinco anos antes, em 1981, o general Golbery do Couto e Silva, que idealizou o Serviço Nacional de Informações e viu o aparato repressivo da ditadura sair do controle, lamentou sua ilusão de comando. Depois do atentado fracassado do Riocentro (em que oficiais de baixa patente forjariam um atentado comunista explodindo bombas em um show de rock para abortar a transição para a democracia), reconheceu: “Criei um monstro”.

O monstro sempre sai do controle. Libera infinitos projetos de poder e vingancinhas individuais, ódios incontidos, corrupção e ignorância na ralé da repressão.

Não foi por falta de aviso. Há quase 50 anos, 13 de dezembro de 1968, o ditador Costa e Silva resolveu assinar o Ato Institucional número 5 para refutar os que achavam que vivíamos uma “ditabranda”, e seu vice-presidente Pedro Aleixo exerceria o temerário direito de divergir.

Perguntado se estava duvidando das mãos honrosas do general, árbitro excelente da aplicação do AI-5, o civil teria respondido com brilhantismo: “Das mãos honradas do presidente Costa e Silva, jamais. Desconfio é do guarda da esquina.”

Quanto a mim, desconfio mais de Jair Bolsonaro. Por que soltaria nas esquinas os “comandos de caça aos comunistas” em pleno século XXI, quando os comunistas não existem mais a não ser no nome?

Vamos combinar que talvez ainda haja tempo para não pagar para ver. 

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem