Invasão da embaixada venezuelana soou provocação a China e Rússia

Ato coincide com reunião dos Brics em Brasília. Venezuela é disputa geopolítica inédita ao lado do Brasil

Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro. Foto: Arthur Max/Ministério das Relações Exteriores

Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro. Foto: Arthur Max/Ministério das Relações Exteriores

Política

A invasão da embaixada da Venezuela em Brasília no dia de abertura da reunião de cúpula dos Brics na cidade soou como provocação brasileira aos presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, mesmo que tenha sido uma ação de inimigos do líder venezuelano, Nicolás Maduro, sem conhecimento do governo Bolsonaro. É a visão de certos diplomatas do Itamaraty.

Parceiros de Brasil, Índia e África do Sul nos Brics, China e Rússia são os garantidores da sobrevivência de Maduro no poder diante das tentativas de derrubá-lo lideradas pelos Estados Unidos e apoiadas por Jair Bolsonaro. Era certo que ao menos Putin levantasse o assunto na reunião bilateral que teria com o ex-capitão em Brasília, segundo um diplomata brasileiro.

O Brasil se posicionou de forma tíbia após a invasão da embaixada por partidários do deputado direitista Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela.

Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, apoiou. Segundo ele, se o Brasil reconhece Guaidó como legítimo mandatário, natural a embaixada ser comandada por gente dele. No Twitter, o pai “repudiou” a “interferência de atores externos”.

Um comunicado do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) afirmou que a invasão partiu de “indivíduos inescrupulosos e levianos querem tirar proveito dos acontecimentos para gerar desordem e instabilidade”. Culpava “partidários do senhor Juan Guaidó”, mas depois tirou o nome do deputado.

Outro sinal de tibieza foi a presença do diplomata Mauricio André Olive Correia na embaixada, como negociador. Ele é chefe da Coordenação Geral de Privilégios e Imunidades do Ministério das Relações Exteriores. Foi apontado por simpatizantes de Maduro, brasileiros incluídos, como alguém que ajudou a criar confusão. Não expressou qualquer posição perante a PM do Distrito Federal, que esperava instruções federais para saber se punha os invasores para fora.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. (Foto: Agência Brasil)

Correia segue ordens diretas do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. É assim com qualquer assunto relacionado à Venezuela: tudo centralizado no chanceler.

A Venezuela é motivo de uma disputa geopolítica jamais vista na fronteira brasileira, a opor as três maiores potências militares e econômicas da atualidade, Estados Unidos de um lado, China e Rússia de outro.

Em fevereiro, Washington levou adiante um golpe de ajuda humanitária, apoiado pelo Brasil, com o qual esperava derrubar Maduro. Fracassou. Quem perdeu o cargo posteriormente foi um dos conselheiros de segurança nacional de Donald Trump, John Bolton, maior defensor do golpe.

Em agosto, o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, disse que lá “não vai haver nem golpe de Estado, nem governo de fato, nem transição alguma” pois “há uma Força Armada consciente de suas obrigações morais e constitucionais”. Dois dias depois, assinava na Rússia um acordo de visitas mútuas de navios de guerra.

O apoio bélico russo é uma das razões para luta geopolítica na Venezuela, dona das maiores reservas petrolíferas, e para Maduro sobreviver. Com esse apoio, Putin provoca os EUA nas barbas do Tio Sam do mesmo modo que Washington faz com o Kremlin na Ucrânia, por exemplo.

Das exportações russas de armamentos à América Latina em duas décadas, 76% foram à Venezuela. Há também interesses econômicos do país euroasiático no vizinho do Brasil, simbolizados na estatal Rosneft, uma das maiores empresas russas de energia. Desde 2006, a Rosneft injeta um caminhão de dólares na Venezuela.

Nesse tema, a China é imbatível. Possui 141 bilhões de dólares de empréstimos na América Latina, dos quais 47% (67 bilhões) na Venezuela. Os chineses são o maior credor financeiro da Venezuela e compram quase 60% de sua produção de petróleo. E têm naquele país um grande cliente de armamentos (90% de suas vendas na América Latina).

Eis por que Putin e Jinping não devem ter ficado nada satisfeitos com o caso da embaixada bem em meio aos Brics.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

Compartilhar postagem