Política
Infernão Dias
No trecho da BR-381 entre São Paulo e Belo Horizonte reina o caos e a anarquia
Uma das mais importantes rodovias do País, a BR-381 agora é chamada de “Infernão Dias”. Merece o apelido. No trecho entre São Paulo e Belo Horizonte, os 562 quilômetros formam um território mergulhado em anarquia, onde o motorista faz o que bem entende. O resultado é o caos, caracterizado por múltiplos acidentes diários e congestionamentos exasperantes. Encarregados de disciplinar o trânsito, agentes da Polícia Rodoviária Federal normalmente são vistos apenas nos locais de ocorrências graves. Tem sido assim no mês de maio em curso.
A começar pela noite do dia 5. Por volta das 8 da noite, um caminhão rolou na pista e foi consumido por incêndio, em descida de serra, nas proximidades da mineira Cambuí. O motorista morreu no local e a carga, potencialmente tóxica, ficou espalhada na pista. Seguiram-se ao menos 12 horas de paralisação total da rodovia no sentido SP-BH, para a remoção dos destroços. A fila de veículos parados pode ter alcançado cerca de 60 quilômetros, até as vizinhanças de Bragança Paulista. Ainda na Serra de Cambuí, no mesmo sentido, dois caminhões se chocaram na manhã do dia 7 e um terceiro tombou no dia seguinte. Embora com menor intensidade que no dia 5, esses incidentes provocaram engarrafamentos e transtornos.
Pode-se especular que uma ou várias leis e regulamentos tenham sido violados pelos condutores em cada um dos eventos. São comuns as manobras arriscadas, excesso de velocidade, motoristas exaustos, por isso sonolentos ou drogados, caminhões velhos e malconservados. Os acidentes com veículos menores, os automóveis, caminhonetes, vans, motocicletas, tão ou mais numerosos, acontecem pelas mesmas razões. Parecem menos relevantes só porque causam perturbações em geral pouco duradouras no fluxo do trânsito.
Quantificar a bagunça ainda não é possível com precisão total. Nem todas as ocorrências têm sido capturadas pelas estatísticas, por falta de notificações aos organismos responsáveis. Mesmo assim, qualquer que seja a fonte, os dados relativos a desastres na BR-381 são desanimadores. Há pouco tempo, a Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, calculou que houve média anual de 3,24 acidentes por quilômetro na Fernão Dias, entre 2018 e 2024. Outras duas campeãs nesse quesito ficaram atrás: a BR-101, com média de 2,22, e a BR-116, com 2,05.
O primeiro lugar no pódio leva à pergunta: por qual razão a BR-381 chegou a esse estado tão lastimável? Não é segredo. Trata-se de reflexo tardio do crescimento econômico de Extrema, cidade mineira na fronteira com São Paulo. A partir da década de 1990, administrações municipais sucessivas usaram diversos incentivos para atrair empresas, no contexto da “guerra fiscal”. O sucesso foi retumbante e a economia local ainda vive um boom, conforme demonstra a enorme quantidade de estudos acadêmicos, notícias e comentários na imprensa. Boa parte desse material é laudatório. Costuma exaltar a clarividência de políticos, empresários e especialistas em logística que souberam explorar a localização estratégica de Extrema para as atividades industriais e comerciais. Cortado pela Fernão Dias, o município dista 100 quilômetros da capital paulista. Na primeira fase de crescimento, Extrema apoiou-se no segmento industrial, cuja importância relativa declinou em anos recentes, devido ao avanço espetacular do comércio eletrônico. Estima-se que, na atualidade, um em cada quatro produtos vendidos para o consumidor no Brasil saia de centros de distribuição localizados no município.
A rodovia tornou-se uma das mais letais do País
Assim, o emprego do termo logística, antigo no vocabulário e na prática militar, banalizou-se na região. Nessa versão extremense, a logística é como o personagem Saci, esperto, mas de uma perna só. Como se recorda, na guerra ou na paz, os exércitos mantêm estreitamente ligadas à logística (intendência) as armas da engenharia, encarregada de preparar o terreno para o deslocamento das tropas, do material bélico e dos suprimentos, entre outras funções.
Em Extrema, os interessados esqueceram de convocar a engenharia. A Fernão Dias ficou do mesmo tamanho e não tem como acomodar uma frota de veículos muito maior que aquela do começo do milênio. Pois também foi esquecido um princípio intuitivo da física clássica: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Daí o descompasso atual na estrada. Cenário parecido é observado em toda a malha rodoviária nacional, mas a deterioração assustadora da Fernão Dias requer atenção imediata, prioritária.
Parece evidente que não será possível remover obstáculos estruturais no curtíssimo prazo, mas uma “freada de arrumação” é factível. Basta que se exija o cumprimento da profusão de leis e regulamentos existentes para o trânsito. Como a BR-381 é federal, a União está com a bomba no colo, embora não seja responsável pela situação. Para resolver o imbróglio terá de mobilizar órgãos ligados à questão. O Ministério dos Transportes é um deles.
Radares intimidam os “pés de chumbo”. A Fernão Dias precisa desses equipamentos em grande número, pois são muitos os pontos críticos mapeados ao longo do traçado, a exemplo da serra de Cambuí. Para instalar os radares, o ministério tem o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Cabe ainda ao DNIT a colocação de balanças para que se evitem cargas em excesso nos grandes veículos. Caminhões trafegam com peso acima dos limites todos os dias, danificando a pavimentação. E os usuários, inclusive os próprios caminhoneiros, reclamam dos buracos e das depressões que surgem nas pistas. As concessionárias das vias privatizadas providenciam consertos, em geral cosméticos, gastando pouco, pois nunca perdem de vista a rentabilidade da concessão. É um círculo vicioso.
Portanto, o faroeste está pronto. Só falta chamar o xerife. Que venha o Ministério da Justiça com sua Polícia Rodoviária Federal, desde que resgatada da condição de avis rara. Se ela não bastar, o ministério tem reserva para entrar em campo, a Força Nacional de Segurança Pública. É uma emergência. •
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Infernão Dias’
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