Política
Incertezas rondam Câmara em votação que decide destino de Temer
Nos bastidores, governistas admitem dúvidas sobre as chances do peemedebista. Oposição assiste à movimentação antes de ir para o embate
A votação da licença para a Justiça julgar Michel Temer pelo crime de corrupção está marcada para esta quarta-feira 2 na Câmara, mas a sessão começará às 9h cercada de incerteza. Sem votos para jogar sozinha Temer às feras, a oposição decidiu assistir à movimentação governista antes de ir para o embate. Já os temeristas alardeavam ter votos para vencer, mas nos bastidores admitiam dúvidas.
“Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”, dizia na véspera o deputado Júlio Delgado (PSB-MG).
O motivo das incertezas é que muitos parlamentares chegam ao Dia D presidencial escondendo o jogo. Uma constatação a partir de enquetes feitas com os 513 deputados pelos jornais Estadão, Folha e O Globo. Os números são parecidos nos três levantamentos. De 203 a 213 declararam-se indecisos, ou não quiserem responder ou disseram que não sabiam como votariam.
Já no time que não teve medo de assumir posição, Temer está em desvantagem. Manifestaram-se a favor de sua degola de 190 a 197 deputados, enquanto seus defensores somavam de 105 a 112.
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A numeralha é determinante para que “aconteça tudo, inclusive nada”. A discussão do processo contra Temer será iniciada às 9h, mas só poderá ser encerrada, etapa que precede a realização da votação propriamente dita, se metade dos deputados (257) registrar presença no plenário.
Em reuniões individuais realizadas nesta terça-feira 1o por partidos de oposição, como PT, PSOL, PCdoB e frações do PSB, as bancadas resolveram não registrar presença. “Primeiro vamos medir tamanho do governo”, afirmou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP).
Caso os aliados de Temer consigam, sozinhos, colocar 257 deputados no plenário, aí a oposição voltará a se reunir para decidir o que fazer. Entrar em campo ou continuar olhando de longe? Mesmo que o quórum chegue a 257 deputados, uma votação só será válida caso haja ao menos 342 votos, um terço da Câmara. Nenhum dos lados parecia ter um time desse tamanho.
De qualquer forma, o registro de presença dos deputados permitirá ter alguma ideia das intenções da daquela turma de cerca de 200 deputados que escondeu o jogo nas enquetes dos jornalões. Eles ficaram quietos pois vão trair o presidente? Ou topam salvá-lo e só não revelaram isso para evitar pressões da opinião pública?
Para 81% dos brasileiros, os deputados deveriam autorizar Temer a ser processado por corrupção no Supremo Tribunal Federal (STF) no caso da mala de 500 mil reais. É o que indica uma pesquisa divulgada na segunda-feira 31 pelo Ibope, feita por encomenda da ONG Avaaz, rede de ativistas e mobilizadores nas redes sociais.
A TV Globo, em campanha contra Temer desde o início do escândalo JBS-Friboi, vai transmitir a sessão ao vivo, como fez no impeachment de Dilma Rousseff. Um fator de constrangimento dos deputados, que terão 15 segundos para explicar os motivos de seus votos, caso a votação ocorra.
O rito de votação será parecido com o impeachment de Dilma, mas não totalmente igual, por decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
O “Botafogo” da Odebrecht permitirá que o advogado de Temer fale por 25 minutos em defesa do presidente durante a sessão e que o relator do processo, o tucano Paulo Abi-Ackel (MG), que é contra processar o peemedebista, fale por outros 25. Não haverá nenhum acusador com direito a 25 minutos de discurso.
Em conversa com jornalistas na véspera da sessão que decidirá o futuro de Temer, Maia comentava com jornalistas: “Vai terminar amanhã [a votação], pode apostar”.
Embora tenha sassaricado como quem estivesse de olho na cadeira de Temer, já que é o primeiro da linha sucessória, Maia é aliado do presidente. A tropa de choque temerista mostrava-se otimista quanto à votação, caso do deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), reeleito em 2014 com uma doação de 100 mil reais de Temer.
Dinheiro, aliás, não tem faltado na luta de Temer para fugir da guilhotina. Desde o estouro do escândalo JBS-Friboi, em maio, o Palácio do Planalto abriu o caixa e liberou bilhões em emendas parlamentares, grana para obras incluídas no orçamento por congressistas.
Já para reajustar o Bolsa Família não houve dinheiro, decisão anunciada pelo governo em 30 de junho. Para cumprir a meta fiscal de 139 bilhões de déficit este ano também não há. O governo estuda ampliar o rombo em outros 20 bilhões, já que com o PIB estagnado, a arrecadação federal míngua.
Se sobram dúvidas quanto à votação, entre os tucanos não restam. Um dos maiores partidos do País, ao lado de PT e PMDB, ninho de presidenciáveis, o PSDB sairá rachado do episódio Temer. Sua bancada de 46 deputados deve dividir-se quase ao meio entre os que defendem o presidente e os que querem vê-lo enforcado.
Já no PT e no PMDB, houve fechamento de questão, atitude que no jargão político significa disposição para punir rebeldes.
No caso dos petistas, decidiu-se pela degola de Temer. Embora o governador da Bahia, Rui Costa, tenha dispensado dois secretários estaduais para que reassumam seus mandatos de deputado e votem a favor de Temer. O motivo? Costa não quer Rodrigo Maia no Planalto, para ele não fortalecer politicamente o prefeito de Salvador, ACM Neto, que é do DEM e é inimigo político do PT na Bahia.
No PMDB também houve fechamento de questão, mas a favor de Temer. Embora ali também haja alguns deputados dispostos a correr o risco de expulsão. Um deles, ex-ministro, comentou nos bastidores: “Ser expulso pode até ser bom, não dá mais para ficar no PMDB, quem vai se eleger pelo PMDB no ano que vem?”.
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