Há risco das forças de segurança comprarem o discurso de Bolsonaro em 2022, diz analista

'Diferentemente de Trump, ele tem o apoio das forças de segurança. Há um risco deles tentarem se manter no poder', alerta Luciana Santana

Foto: Marcos Corrêa/PR

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Política

Em transmissão ao vivo na quinta-feira 29, o presidente Jair Bolsonaro apresentou vídeos antigos, denúncias velhas, reportagens jornalísticas e uma teoria da conspiração com o objetivo claro de tumultuar as eleições presidenciais de 2022. Bolsonaro reconheceu que não tinha as tais provas de fraudes ocorridas em eleições passadas, como havia anunciado com alarde que iria apresentar.

“São fatos apresentados pela própria imprensa, pelo povo, também por indícios fortíssimos ainda em fase de aprofundamento, que nos levam a crer que temos que mudar esse processo eleitoral. Não podem os mesmos que tiraram o outro cara [Lula] da cadeia, o tornaram elegível serem as mesmas pessoas que vão contar os votos. Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas”, disse Bolsonaro.

A cientista política Luciana Santana disse à RFI que, mesmo sem fundamento ou recheado de inverdades, o discurso do presidente carrega em si um risco à democracia.

“Ele tem apelado para criar uma narrativa falaciosa, utilizando fake news, descredibilizando as instituições. E isso ele vai fazer até o último momento em que estiver no cargo. Isso faz com a que gente possa, sim, dizer que há um risco à democracia. As instituições não operam no vazio. Dependem dos atores políticos que estão dentro dela. E Bolsonaro vai usar essas instituições para tentar desestabilizar, criar uma insegurança institucional no país.”

Ela chama atenção também para o apoio que o presidente tem não apenas entre setores das Forças Armadas, mas também de polícias estaduais. “Diferentemente de Donald Trump, nos Estados Unidos, ele tem o apoio das forças de segurança. Se essas forças de segurança vão comprar esse discurso, essa narrativa dele, a gente não tem certeza, a gente não sabe. Mas há um risco, sim, deles comprarem, de tentarem se manter no poder.”

TSE refuta suspeitas

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rebateu vários pontos apresentados por Bolsonaro como a suspeita de que urnas teriam sido manipuladas no interior do Maranhão, na eleição de 2012. Segundo o TSE, a auditoria da Polícia Federal não constatou irregularidades. Técnicos que levantaram a suspeita em um canal de TV, na época, disseram depois, em depoimento, que não tinham como atestar a violação.

Outra linha de ataque de Bolsonaro mirou o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, que foi também quem autorizou a instalação da CPI da Covid-19.

“Por que, senhor Barroso? Nós estamos oferecendo mais uma maneira de dar transparência às eleições. Vossa Excelência é contra? Onde quer chegar esse homem que atualmente é presidente o Tribunal Superior Eleitoral? Quer a inquietação do povo, quer que movimentos surjam no futuro que não condizem com a democracia?”, indagou Bolsonaro.

Luciana Santana, que é professora nas universidades federais de Alagoas e Piauí, associa a construção dessa narrativa falaciosa à queda de popularidade do presidente.

“Claro que isso tem a ver com as eleições de 2022. Ele, de forma preventiva, já tenta construir uma narrativa caso venha a ser derrotado na eleição, o que não é algo improvável. Isso pode acontecer. E as pesquisas têm apontado que ele tem cada vez mais perdido popularidade. Seu governo tem perdido as avaliações positivas”, destaca a professora.

“Paranoia e bizarrices”

O PSDB, que chegou a contestar a vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves em 2014, e depois se arrependeu, disse em nota que Bolsonaro, em vez de apresentar provas, “ofereceu um festival de argumentos constrangedores e patéticos”.

Para o partido, Bolsonaro é “dado a paranoias e teorias da conspiração”, e deixou a sociedade “perplexa com o nível das bizarrices”.

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