Guilherme Boulos: “Grande tema da eleição é derrotar o bolsonarismo”

Em entrevista a CartaCapital, pré-candidato à prefeitura de São Paulo disse que 'até aqui não foi possível' maior unidade na esquerda

 Foto: Reprodução

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Política

O pré-candidato a prefeito de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou que, apesar de respeitar candidaturas de esquerda que também estarão na disputa das urnas na cidade em 2020, “seria muito melhor construir uma unidade no campo de esquerda”, porque a tarefa principal deve ser derrotar a extrema-direita bolsonarista. O comentário ocorreu em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta, nesta segunda-feira 27.

O líder do Movimento de Trabalhadores Sem-Teto (MTST) deve enfrentar, no pleito municipal, figuras da oposição como Márcio França (PSB), Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PCdoB). Frente à incapacidade da esquerda em se unir, Boulos admite que “nem sempre aquilo que gostaríamos é possível”, mas uma frente de esquerda mais sólida nas eleições de 2020 poderia colaborar para deter o avanço do projeto ultraconservador do presidente Jair Bolsonaro.

“Respeito a candidatura do Jilmar Tatto, do Orlando Silva, os partidos têm direito de se colocarem. Mas é evidente que seria muito melhor que a gente pudesse construir uma unidade no campo de esquerda, porque o grande tema que está posto nesta eleição é que ela contribua para a derrota do bolsonarismo. O grande tema é que, nas grandes cidades brasileiras, consiga impor derrotas ao projeto do Bolsonaro e avançar num projeto de esquerda, popular, também a partir dessas eleições. Para isso, seria desejável ter o máximo de unidade possível. Até aqui não foi possível”, comentou.

Ele forma chapa com a deputada federal Luiza Erundina (PSOL), que já declarou a CartaCapital que a candidatura de Boulos “tem chances reais de se eleger”, porque, para ela, “a esquerda não tem candidato”.

Boulos acredita que, entre 2014 e 2016, encerrou-se um ciclo em que era possível a esquerda promover avanços sociais sem confrontar os privilégios da elite econômica, “sem tirar nada dos de cima”. Para ele, as passagens do PT no Palácio do Planalto trouxeram mudanças sociais, mas não se comprometeram com reformas de base, estratégia que se esgotou “de forma traumática”, com um golpe contra Dilma Rousseff (PT) e a coroação de Bolsonaro como presidente da República.

Agora, Boulos defende que as forças de esquerda se dediquem ao combate à desigualdade estrutural. Para isso, a primeira tarefa é retomar os diálogos com as populações da periferia.

Como exemplo de “vínculo solidário, pertencimento e escuta”, o pré-candidato cita o trabalho do MTST em arrecadar mantimentos a sem-tetos durante a pandemia, com o Fundo de Emergência para os Sem-Teto. Segundo ele, através de vaquinhas virtuais, o movimento distribuiu 220 toneladas de alimentos nas periferias e mais de 100 mil máscaras de proteção, além de kits de higiene e livros.

“O fato é: a esquerda – e esse é um dos objetivos também da nossa candidatura aqui em São Paulo – precisa reconstruir o seu diálogo com a periferia. Diálogo que foi perdido, porque se institucionalizou, porque deixou de fazer trabalho de base, pisar no barro, escutar o povo, sentir o pulso do povo. Uma parte da esquerda brasileira entendeu que bastava, de dois em dois anos, subir o morro, atravessar a ponte para convencer as pessoas a votarem. Mas não entendeu o quanto era necessário manter redes de solidariedade e de convívio com o povo”, disse.

 

“Temos de desapropriar imóveis abandonados e botar pobre para morar”

Se eleito como prefeito de São Paulo, Boulos se compromete com a pauta central do movimento que lidera: o direito à moradia. Com o lema “Pobres podem e devem morar no centro”, o pré-candidato diz que a reivindicação de um direito fundamental tornou-se algo revolucionário no Brasil, porém, essa discussão já está mais avançada em cidades norte-americanas e europeias, por exemplo.

“Nós temos que pegar os imóveis abandonados, mais de 40 mil imóveis abandonados no centro expandido de São Paulo, e é o que nós vamos fazer, ganhando a prefeitura, desapropriá-los, requalificar e botar pobre para morar no centro”, afirmou. “Aqui no Brasil, com a lógica da casa grande, dizer isso é quase ser um revolucionário socialista, bolivariano, comedor de criancinhas. Mas é isso que nós vamos dizer e nós vamos fazer.”

Boulos diz se espelhar em um projeto na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, de exigir contrapartida por parte de empresas construtoras de novos empreendimentos de alto padrão. Segundo o jornal americano Wall Street Journal, desde a década de 1980 a cidade americana aposta em modelos de habitação com prédios mistos, para reduzir o déficit habitacional.

“Nova York teve um projeto muito forte de pegar, em Manhattan, prédios de alto padrão, chegar para as construtoras e dizer o seguinte: você quer fazer o seu novo empreendimento imobiliário aqui? A contrapartida é que uma cota à parte de apartamentos vá para a moradia popular, no mesmo prédio. Que a senhora Bia Doria vá encontrar, no elevador, a dona Maria” afirmou. “É apavorante para uma parte de uma elite atrasada que nós temos em São Paulo.”

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