Política

Guerras alheias

Documentário reflete sobre o que é menos prejudicial ao planeta: bombardeio de populações rurais com herbicida ou deixar crescer o cultivo da coca

Estreou nesta semana na HBO Brasil o documentário Guerras Alheias, dirigido por Carlos Moreno. Quando os sinos da paz bateram as dez baladas do dia 13 de junho, um dedo de cachaça do Empório e Apiário Santo Antônio, na Rodovia Fernão Dias, me ajudou a festejar o dia do santo casamenteiro e as mais de 30 entrevistas do filme me fariam conciliar pulverizações aéreas com o herbicida glifosato e combate ao consumo mundial de cocaína.

Guerras Alheias propõe refletirmos o que menos prejudicial ao planeta, o bombardeio de populações rurais com herbicida ou deixar crescer o cultivo da coca para trágico consumo. Concluí fácil e penso que o mesmo acontecerá com os leitores quando assistirem ao documentário.

 

No início dos anos 1970, o então presidente dos EUA, Richard Nixon, lançou o programa “Guerra às Drogas”. Visava diminuir o consumo interno. Daí à intervenção na produção externa da América Latina, sobretudo Colômbia, foi um pulo.

Coube aos governos norte-americanos que sucederam a Nixon manter o esforço e ampliar interferências nos países de alta produção, inclusive com um interesse adicional: presença militar e recursos financeiros para combater os movimentos de guerrilhas que se espalhavam na região.

O auge invasivo ocorreu em 1994 quando os presidentes Bill Clinton e o recém-eleito Ernesto Samper assinaram o Plano Colômbia. Previa-se destinar US$ 7,5 bilhões em investimentos sociais, técnicos e militares na erradicação do cultivo ilícito da Erythroxylum coca, inclusive através da fumigação aérea com glifosato.

Entre os praticantes do ilícito estavam poblaciones rurais e indígenas orientadas, financiadas e treinadas pelos carteis do narcotráfico até a obtenção da pasta, para quem vendiam suas produções.

Quem os ilegais?

Dessa forma, o agronegócio patrocinava a economia e os desdobramentos sociais desses grupamentos agrícolas colombianos e, mais tarde, distribuídos ao consumo mundial nas formas de pasta e pó fazia a fortuna da cadeia do narcotráfico para infortúnio de dramas e tragédias sociais.

Ao mesmo tempo em que as fumigações reduziam as áreas cultivadas com a coca eram crescentes as repercussões na saúde dos camponeses. As imagens no documentário são fortes ao expor doenças de pele, olhos, deformidades congênitas, abortos.

Sim, porque não imaginemos o veneno tóxico, a partir do céu, a qualquer altitude, caindo exatamente sobre os arbustos do vegetal e poupando os demais seres vivos lícitos, indígenas por exemplo, de doenças e mortes.

Depois de assistir ao documentário, o primeiro pensamento foi o quanto não é possível controlar burrice e ganância política e corporativa, quando a decorrência é “apenas” a extinção de pobres inofensivos. Só mesmo em guerra alheia. Pensem nos volumes de glifosato que a norte-americana vendeu para os governos de EUA e Colômbia.

Em 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o herbicida glifosato como potencialmente cancerígeno. O fato atingiu em cheio a marca da molécula produzida pela norte-americana Monsanto e fez o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, suspender a fumigação aérea do herbicida, permitindo apenas aplicações diretas no solo, manuais ou mecânicas.

Esperneio geral, o que é fartamente mostrado no documentário.

Para os defensores das aplicações aéreas, depois da proibição, o cultivo aumentou entre 15 e 20%. Para os contrários, a diminuição se deveu ao fato de que as demais culturas se tornaram inviáveis em função da queda nos preços de comercialização e aumento nos dos insumos. Voltar à coca seria mais lucrativo.

Segundo o Escritório de Drogas e Crimes da ONU (UNODC, na sigla em inglês), desde a década de 1990 há uma leve queda na produção mundial de cocaína.Contam para isso a introdução de novas drogas mais baratas e a ampliação das formas de combater produção e consumo.

Esses dados não se confirmam para o Brasil, tido como o maior centro distribuidor do planeta e consumidor quatro vezes maior do que a média mundial.

Se a fumigação aérea com glifosato só era permitida, desde 1994, na Colômbia, qual o resultado positivo dessa política de combate às drogas? As doenças e as mortes das poblaciones cultivadoras?

Guerras Alheias deixa isso claro.

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