Política

Governo busca evitar que pedido de impeachment de Lula vire ‘símbolo’ da oposição no Congresso

Aliados do presidente indicam a líderes que o Planalto será ‘linha-dura’ com signatários; retaliações podem atingir cargos e emendas

O presidente Lula e o presidente da Câmara, Arthur Lira, em agosto de 2023. Foto: Evaristo Sá/AFP
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A bancada governista na Câmara dos Deputados encaminhou ao Palácio do Planalto, nesta terça-feira 27, uma lista de parlamentares filiados a partidos da base do presidente Lula (PT) que assinaram o pedido de impeachment protocolado na quinta-feira 22 pela deputada Carla Zambelli (PL-SP).

O documento foi enviado após uma reunião entre líderes partidários. Segundo participantes do encontro, aliados de Lula indicaram que o governo promete ser “linha-dura” com os apoiadores da deposição do presidente.

Governistas entendem que quem assinou o impeachment “não está com Lula” e, se tiver cargos no governo, “deve ir para fora”. A retaliação pode atingir postos ocupados por aqueles que tenham sido indicados por signatários do impeachment.

Além disso, segundo relatos, o Planalto pode negar a execução de emendas parlamentares, que são verbas disponibilizadas pelo Executivo a deputados e senadores. Algumas emendas são obrigatórias, mas outras dependem da decisão do governo para serem pagas.

Nas redes sociais, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), escreveu que “formou-se um consenso” na reunião de que “é incompatível o parlamentar ser da base do governo, ter relação com o governo e assinar pedido de impeachment”.

O petista afirmou também que “isso não é razoável” e que a lista de deputados seria encaminhada “para que o governo tome providências”.

Nos bastidores, apoiadores de Lula minimizam a possibilidade de Lula sofrer impeachment a partir do pedido de Zambelli, mas consideram que o andamento da peça não seria bom para o Planalto.

De acordo com avaliações à reportagem, a preocupação do governo é que o impeachment se torne um “símbolo de luta” da oposição e ganhe repercussão na opinião pública.

O pedido do governo na reunião foi para que os líderes partidários dialoguem com as suas bancadas sobre as consequências de assinar o pedido.

Os casos mais graves são os dos partidos PP e União Brasil, com mais de 10 signatários cada.

O PP controla o Ministério do Esporte com André Fufuca, enquanto o União Brasil comanda o Turismo (Celso Sabino) e as Comunicações (Juscelino Filho), além de ter indicado Waldez Góes para o Desenvolvimento Regional.

Republicanos, MDB e PSD também têm signatários, mas em escala inferior.

Líderes partidários demonstram certa descrença sobre conseguir mobilizar uma debandada entre os apoiadores do impeachment, sobretudo entre os parlamentares de estados mais bolsonaristas e que tenham ligação com o eleitorado evangélico.

Um dos participantes da reunião avaliou à reportagem que “o governo não é ingênuo” e que já calcula ter oposicionistas em partidos da base, mesmo porque alguns dos deputados expressam que não estão ao lado de Lula. No entanto, o Planalto entende ter de “demarcar” território para preservar Lula.

Ainda segundo essa avaliação, o cenário expõe uma contradição na tentativa do governo de buscar apoio e ceder cargos a partidos que evidentemente não asseguram unidade em torno do presidente e não conseguem controlar parlamentares que se voltam contra o Planalto.

Líderes parlamentares ressaltam que a tramitação do pedido depende do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), detentor do poder de decidir se o processo será aberto.

Em seu último ano de mandato, Lira tem interesses a defender nas votações do Congresso, quer eleger um sucessor e garantir alguma posição de prestígio após deixar o cargo. Sem rejeitar o pedido, ele pode contar com um instrumento de negociação com o Executivo.

O pedido de impeachment se baseia na declaração de Lula que lembrou indiretamente o Holocausto ao condenar os ataques de Israel em territórios palestinos: “O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus”, disse, em 18 de fevereiro.

O documento foi protocolado com 139 assinaturas. Caso Lira admita a abertura do processo, uma comissão especial será instalada para produzir um parecer, favorável ou contrário. Se aprovado, o pedido ainda precisa do apoio de 342 deputados no plenário para seguir ao Senado.

O partido com mais assinaturas é o PL, líder da oposição bolsonarista.

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