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Golpes baixos

Raquel Lyra e João Campos travam um vale-tudo em meio à disputa pelo apoio de Lula

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Voto a voto. A governadora está crescendo nas pesquisas, mas o prefeito do Recife ainda figura como favorito na disputa – Imagem: Ricardo Stuckert/PR
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Faltando pouco mais de seis meses para o início oficial da campanha eleitoral, a disputa em Pernambuco já se desenha como um vale-tudo entre a governadora Raquel Lyra, candidata à reeleição pelo PSD, e o prefeito do Recife, João Campos, do PSB, favorito nas pesquisas para ocupar o Palácio do Campo das Princesas. Na retomada dos trabalhos legislativos, a primeira pauta votada na Câmara Municipal, na terça-feira 3, foi um pedido de abertura de processo de ­impeachment contra Campos. Um jogo de cena da oposição, que serviu apenas para gerar imagens para as redes sociais. Com ampla maioria na Casa, o prefeito derrotou a proposta com facilidade: 25 votos contrários, 9 favoráveis e uma abstenção.

A oposição acusa João Campos de crime de responsabilidade e improbidade administrativa na nomeação de um procurador para uma vaga reservada a pessoas com deficiência em um concurso público. O caso já foi resolvido no Judiciário e está encerrado. O pedido de ­impeachment é mais um episódio de antecipação da disputa­ eleitoral em Pernambuco, que também incluiu o recente escândalo envolvendo a Polícia Civil, acusada de espionar adversários políticos da governadora.

No fim de janeiro, uma reportagem da TV Record revelou um possível esquema de arapongagem montado pela Polícia Civil para monitorar o secretário de Articulação Política e Social da prefeitura do Recife, Gustavo Queiroz Monteiro, e seu irmão, Eduardo Monteiro, assessor de João Campos. Agentes teriam instalado um rastreador no carro funcional usado pelo secretário, apontado como braço direito do prefeito. Todos os deslocamentos eram vigiados, desde a saída de casa pela manhã até o retorno à noite.

Diante dos acenos de ambos os lados, o presidente cogita dividir-se em dois palanques no estado

De acordo com a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, a polícia passou a monitorar os passos dos irmãos Monteiro após o recebimento de uma denúncia anônima de corrupção na prefeitura. Não foram encontrados indícios de crime, e a investigação teria sido arquivada após dois meses, sem abertura de inquérito formal. O rastreador, reconheceu a pasta, foi instalado sem autorização judicial. Segundo a TV Record, delegados e investigadores chegaram a criar um grupo de ­WhatsApp para compartilhar informações em tempo real sobre a rotina dos servidores.

Raquel Lyra nega ter usado a Polícia Civil para espionar adversários. “Não houve orientação para perseguir quem quer que seja. Mas é importante destacar que, sob meu comando, nada nem ninguém deixará de ser investigado se houver indícios suficientes, sempre com respeito às leis, às instituições e à verdade”, afirmou a governadora. Para aliados de João Campos, setores da corporação passaram a atuar como polícia política.

“Essa prática representa um retrocesso civilizatório imenso e sem precedentes. A instrumentalização estatal para fins políticos está sendo normalizada. O uso da máquina do governo para cooptar e ameaçar adversários já ocorre há muito tempo. Agora, a governadora aparelhou a polícia, rompendo todas as vias republicanas e os limites do Estado Democrático de Direito”, acusa o deputado estadual Waldemar Borges, do PSB. “Vamos aguardar as investigações, mas, se for confirmado o aparelhamento da corporação, tomaremos todas as medidas judiciais previstas em lei. É um caso mais grave que o da Abin paralela.”

Arapongas. Monitoramento ilegal viola preceitos fundamentais, alerta o ministro do STF – Imagem: Arquivo STF

Na sexta-feira 30, o ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, determinou que a Polícia Federal investigue o caso. O magistrado ressaltou que a espionagem, se comprovada, compromete preceitos fundamentais, como a inviolabilidade da intimidade, a legalidade e a impessoalidade. Nas redes sociais, João Campos criticou o que chamou de “polícia paralela” e defendeu a entrada da PF no caso. “Parte da Polícia Civil estava sendo utilizada para fins eleitorais e políticos, sem nenhum ato formal, sem BO, sem inquérito, carro oficial da prefeitura sendo rastreado, servidores sendo seguidos, tudo de forma clandestina e criminosa. A Justiça brasileira está agindo e eu tenho certeza que a Polícia Federal vai fazer um trabalho sério e correto para que isso nunca mais se repita”, disparou.

Lyra busca desvincular-se do caso. “Pernambuco não teve acesso integral ao processo e irá se manifestar nos autos, pela sua procuradoria. Falando das nossas polícias especificamente, espero que elas estejam sempre prontas para investigar qualquer ilícito que exista. Temos muita confiança no trabalho das instituições, da Justiça, da polícia e do nosso Estado”, disse a governadora, que levou pessoalmente a mensagem do governo para a abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), onde manteve uma relação conturbada nos três primeiros anos de gestão. Para demonstrar força, participou da solenidade acompanhada da vice-governadora Priscila Krause e de todos os secretários estaduais.

A própria Alepe tem servido de palco para a disputa eleitoral entre João Campos e Raquel Lyra. Parlamentares aliados ao prefeito vêm dificultando a aprovação de projetos de interesse da governadora, entre eles diversos pedidos de empréstimos para a realização de obras públicas, um relevante trunfo eleitoral. Apesar dos entraves impostos pela oposição, o Legislativo autorizou mais de 3 bilhões de reais em crédito para o Executivo.

Gilmar Mendes acionou a PF para investigar denúncia de espionagem contra secretário de João Campos

Em desvantagem nas pesquisas, Lyra concentra investimentos na Região Metropolitana do Recife e em áreas nas quais João Campos demonstra maior força, como o setor cultural. A disputa em torno do carnaval deste ano é um nítido exemplo. Na quarta-feira 4, a Secretaria de Cultura de Pernambuco anunciou a programação oficial da festa no estado, com um investimento de 77,6 milhões de reais, montante 87% superior ao do ano passado. Uma das principais novidades para 2026 é a decisão de antecipar a abertura do carnaval de Pernambuco, marcada para dias antes da tradicional folia organizada pela prefeitura do Recife, que começa dia 12.

Nos dias 6, 7 e 8, o governo estadual promove uma edição especial do Festival Pernambuco Meu País, no Recife Antigo, com a participação de artistas que também integram a programação da prefeitura, como o cantor João Gomes e a banda Nação Zumbi. Na prática, o evento antecipa atrações do calendário municipal e tende a ofuscar o protagonismo do prefeito João Campos, que tradicionalmente fica com os louros do carnaval recifense. Durante os dias de Momo, a governadora pretende concentrar esforços em Olinda, o maior e mais tradicional polo carnavalesco do estado, administrado por Mirella Almeida, aliada de Lyra. Apenas para a Marim dos Caetés, como a cidade também é conhecida, a governadora destinou 7 milhões de reais.

A disputa entre Campos e Lyra também passa pelo apoio do presidente Lula, que deve participar do desfile do Galo da Madrugada no sábado de carnaval. No PT pernambucano, há divisões: uma ala defende a aliança com o prefeito do Recife, enquanto outra se aproxima da governadora. A bancada estadual do partido, inclusive, integra a base governista na Alepe.­ Nos bastidores, já se cogita a possibilidade de Lula ter dois palanques no estado.

Embora as pesquisas ainda indiquem vantagem para João Campos, a diferença vem diminuindo nos levantamentos mais recentes. Em sondagem do instituto Paraná Pesquisas, divulgada em dezembro passado, o prefeito aparece com 53,1% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% da governadora. Na simulação de segundo turno, Campos venceria por 55,1% a 33,8%. Em agosto, a distância entre os dois candidatos, segundo o mesmo instituto, superava os 30 pontos porcentuais. •

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Golpes baixos’

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