Política

Garotinho, o franco-atirador que pode levar o Rio ao segundo turno

Recall eleitoral, vaivém judicial e 9% nas pesquisas tornam o ex-governador a principal variável fora do controle de Eduardo Paes

Garotinho, o franco-atirador que pode levar o Rio ao segundo turno
Garotinho, o franco-atirador que pode levar o Rio ao segundo turno
Anthony Garotinho. Foto: Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Após duas décadas de encontros e desencontros com a Justiça — entre eles uma condenação por improbidade administrativa —, Anthony Garotinho poderia parecer carta fora do baralho. Mas o ex-governador ainda conserva peso eleitoral suficiente para alterar o rumo da disputa pelo governo do Rio de Janeiro.

Candidato pela quarta vez ao Palácio Guanabara, agora pelo Republicanos, Garotinho corre o risco de ter o registro cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) ainda esta semana. Se permanecer na disputa, porém, pode frustrar os planos do favorito Eduardo Paes, do PSD, de liquidar a eleição já no primeiro turno.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira 21 mostra o ex-prefeito do Rio, apoiado por Lula e pelo PT, na liderança da corrida pelo governo estadual, com 41% das intenções de voto. Em segundo lugar aparece Douglas Ruas, do PL, candidato apoiado por Flávio Bolsonaro, com 19%. Como os outros cinco nomes testados não ultrapassam os 2%, esse desenho abriria caminho para uma vitória de Paes já em outubro.

A entrada de Garotinho na pesquisa, no entanto, acendeu o sinal de alerta na aliança comandada pelo PSD. Em sua primeira aparição no levantamento, o ex-governador marcou 9%. Entre seus aliados, há a expectativa de que possa chegar aos 15% — patamar que, a depender da distribuição dos demais votos, tornaria muito mais provável a realização de um segundo turno.

Não seria exatamente uma novidade para um político que deixou o governo do Rio, em 2002, com alta popularidade e se lançou à Presidência da República embalado por programas de assistência como o Cheque-Cidadão e os Restaurantes Populares. Mais de duas décadas depois, apesar do desgaste provocado por sucessivos processos judiciais, o nome Garotinho continua reconhecível para uma parcela expressiva do eleitorado fluminense.

O incômodo provocado por sua candidatura ficou evidente na própria reação da coligação de Paes. Na semana passada, a aliança ingressou no TRE-RJ com uma Ação de Impugnação ao Registro de Candidatura contra o ex-governador. O argumento é que o trânsito em julgado do processo que resultou em sua condenação por improbidade administrativa — e na consequente suspensão de seus direitos políticos — só ocorreu em julho do ano passado. Por essa interpretação, o prazo de oito anos deveria ser contado a partir daquela data, mantendo Garotinho inelegível até 2033.

O Ministério Público Eleitoral protocolou um segundo pedido de indeferimento, de teor semelhante. A ação se baseia na condenação por fraudes no programa Saúde em Movimento, ocorridas em 2006, quando Garotinho era secretário de Governo na gestão de sua mulher, Rosinha Garotinho. Segundo o processo, 234 milhões de reais teriam sido empregados de forma ilegal.

Garotinho contesta a condenação e atribui o caso a uma “perseguição”. Em declarações públicas, sustenta que não comandava a Secretaria de Saúde nem era ordenador das despesas e classifica como “absurda” a responsabilização que lhe foi imposta. As duas ações contra seu registro também questionam sua filiação ao Republicanos, sob o argumento de que ela não poderia ter ocorrido enquanto o ex-governador estava com os direitos políticos suspensos.

O histórico judicial de Garotinho, porém, vai além desse processo. Em outro caso, no qual chegou a ser preso, foi condenado a 13 anos de prisão por corrupção eleitoral e associação criminosa, entre outros crimes, sob acusação de compra de votos em 2016. Na época, era secretário municipal de Governo de Campos dos Goytacazes, novamente durante uma administração chefiada por Rosinha. Essa condenação, no entanto, foi anulada em março pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal.

A indefinição jurídica cobra um preço eleitoral. “A incerteza se vai poder ou não ser candidato de fato reduz a intenção de voto em Garotinho, porque o eleitor não tem segurança de que ele vai estar mesmo elegível até o fim”, afirma à CartaCapital a cientista política Mayra Goulart, professora da UFRJ. Ela lembra que, na última vez em que tentou disputar o governo estadual, em 2018, Garotinho acabou barrado pela Justiça Eleitoral.

Caso seu nome permaneça na urna eletrônica, avalia Goulart, as chances de uma segunda rodada de votação aumentam consideravelmente. “Se não for impedido pelo TRE, Garotinho pode precipitar um segundo turno, evitando uma vitória de Paes no primeiro. Esse é um cenário possível no momento, pois Garotinho é um terceiro candidato competitivo, o que não acontece com os demais adversários de Paes e Ruas.”

Embora as pesquisas ainda não apontem nessa direção, nem mesmo a hipótese de Garotinho ultrapassar o candidato do PL e conquistar uma vaga no segundo turno pode ser inteiramente descartada. Outra coisa é ameaçar a liderança de Paes. “Garotinho não chega a ter força para ameaçar Paes no sentido de chegar próximo à sua intenção de voto. Tem uma rejeição muito alta”, observa a professora.

Na tentativa de avançar para o segundo turno, Garotinho conta também com uma chapa ao Senado capaz de transitar entre campos políticos opostos. De um lado está o lulista Waguinho, ex-prefeito de Belford Roxo. De outro, o bolsonarista Marcelo Crivella, ex-prefeito do Rio.

A própria confirmação de Garotinho como candidato exigiu uma disputa interna. Ele derrotou o ex-prefeito de Miguel Pereira, André Português, apesar de o adversário contar com o apoio de Crivella e da Igreja Universal do Reino de Deus, instituição historicamente ligada ao Republicanos. Também teve dificuldades para definir o vice. Depois das desistências do coronel da reserva Venâncio Moura, do DC, e da major Elaine Gonçalves, do Democrata, a vaga ficou com André Monteiro, ex-subtenente do Bope, também filiado ao Democrata.

A escolha de um nome oriundo das forças de segurança combina com outra aposta de Garotinho: a retomada do estilo de “metralhadora giratória” que o projetou do rádio para a política. Na campanha, ele afirma que o Rio precisa enfrentar três organizações que, em suas palavras, “sequestraram” o estado: o tráfico de drogas, as milícias e o grupo político instalado no Palácio Guanabara e na Assembleia Legislativa durante o governo de Cláudio Castro.

A ofensiva atinge diretamente Ruas, mas não poupa Paes. Garotinho explorou, por exemplo, vídeos em que o ex-prefeito aparece ao lado do vereador Vagner dos Santos, conhecido como Vaguinho Neguinho, do PRD, em Nova Iguaçu. O parlamentar foi alvo nesta semana de uma operação da Polícia Federal contra uma milícia que atua na Baixada Fluminense. Nas redes sociais, Garotinho acusou Paes de ter “muita cara de pau” ao afirmar que desconhecia as ligações atribuídas ao vereador.

Para o bem e para o mal, o recall de Garotinho entre os eleitores fluminenses continua alto. Em 2002, depois de deixar o governo do Rio, ele terminou a eleição presidencial em terceiro lugar pelo PSB, com quase 18% dos votos, atrás apenas de Lula e de José Serra, do PSDB.

Agora, enquanto aguarda uma decisão da Justiça Eleitoral que pode retirá-lo da disputa, Garotinho tenta reativar a imagem que marcou sua trajetória política e volta a se apresentar como o “governador dos pobres”.

Esse patrimônio político, somado à circunstância de quem entra na corrida com pouco a preservar, dá ao ex-governador uma liberdade de movimentos que os principais adversários não têm. “O principal papel que Garotinho tem desempenhado nessa campanha é o de franco-atirador. Ele pode prejudicar todos os candidatos porque está fazendo acusações indiscriminadamente contra todos”, resume Mayra Goulart.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo