Folclórico, vaidoso e refém das redes sociais: como senadores veem Kajuru, pivô do áudio com Bolsonaro

Gravação com o presidente monopolizou o debate nesta segunda; a CartaCapital, parlamentares dizem não ver tentativa de lucrar com o episódio

Jorge Kajuru e Jair Bolsonaro. Fotos: Jefferson Rudy/Agência Senado e Mauro Pimentel/AFP

Jorge Kajuru e Jair Bolsonaro. Fotos: Jefferson Rudy/Agência Senado e Mauro Pimentel/AFP

Política

Apresentador esportivo, mas com particular afeição por comentários políticos. Senador em primeiro mandato, mais lembrado nas redes sociais do que no Parlamento. Autor de 127 Projetos de Lei e 103 Propostas de Emenda à Constituição em pouco mais de dois anos de legislatura. E responsável pela divulgação de um áudio que monopoliza os debates políticos nesta segunda-feira 12.

Jorge Kajuru (Cidadania-GO), conhecido comunicador com passagens por emissoras como SBT, Band e ESPN, enveredou pela política partidária nos primeiros anos da década passada. Depois de sua tentativa de chegar à Câmara dos Deputados em 2014 naufragar, foi o vereador mais votado de Goiânia em 2016 pelo PRP.

Em 2018, obteve sucesso em sua corrida ao Senado pelo PRP, integrando a chapa do governador eleito de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Logo em janeiro de 2019, após o PRP se fundir com o Patriota, o recém-eleito parlamentar anunciou sua filiação ao PSB.

Sua passagem pelo partido, no entanto, foi relâmpago: em julho daquele ano, ele aceitou um convite da sigla e optou por formalizar sua saída. A divergência era bastante simples: o senador era a favor de facilitar o armamento da população. O PSB, contra. A disputa, após impropérios proferidos publicamente, foi resolvida em uma reunião entre Kajuru e o presidente da sigla, Carlos Siqueira.

 

 

O apresentador tem um modo peculiar de legislar. Costuma promover enquetes em suas redes sociais para decidir como se manifestará em votações no Congresso. Logo em fevereiro de 2019, segundo mês de sua atividade parlamentar, pediu que os seus seguidores decidissem em quem deveria votar para a presidência da Casa. Em outubro daquele ano, fez o mesmo em relação à reforma da Previdência.

“Ele não é um cara do mal, não. É um cara que gosta de aparecer, tem uma vaidade. A coisa dele é com a mídia”, avaliou reservadamente um senador em contato com CartaCapital. “Ele tem várias dificuldades crônicas, que fazem com que tenha altos e baixos. Uma hora ele está totalmente fora do ar e ligado no tratamento dele, por obrigação, e em outra parece que quer aproveitar ao máximo aquele momento em que ele está bem”.

Outro senador, que também prefere não se identificar, classificou Kajuru como “uma pessoa do bem”.

“Ele é visto muitas vezes como um ser folclórico. Ele vai criando a narrativa dele. Acho que é muito refém das redes sociais. Ele segue o humor das redes sociais e às vezes faz coisas doidas”.

Na noite deste domingo 11, Kajuru divulgou nas redes sociais a gravação de uma conversa com o presidente Jair Bolsonaro, às vésperas da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito que investigará a omissão do governo federal no combate à Covid-19.

No diálogo, Bolsonaro pressiona pela apresentação de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal e tenta alterar a linha de atuação da CPI.

“Você tem de fazer do limão uma limonada. Tem de peticionar o Supremo para colocar em pauta o impeachment (de ministros) também”, disse Bolsonaro ao senador. “A CPI hoje é para investigar omissões do governo Bolsonaro, ponto final. Se não mudar o objetivo da CPI, ela vai só vir pra cima de mim. Tem que mudar a amplitude dela”.

 

 

Nesta segunda, em diálogo com militantes na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro reclamou da divulgação do áudio por Kajuru. “O dia em que eu fui gravado numa conversa telefônica, tá certo? Olha a que ponto a que chegamos no Brasil”, disse. “A gravação só com autorização judicial. Agora, gravar o presidente e divulgar? E outra: só para controle, falei mais coisas naquela conversa lá. Pode divulgar tudo da minha parte, tá?”.

Horas depois, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Kajuru afirmou que não cometeu qualquer crime, nem promoveu algum tipo de “teatro”.

“Se alguém fez teatro foi o presidente Bolsonaro. Eu não fiz teatro nenhum, não. Eu fui reivindicar o meu direito de cobrar dele para ele ser justo e não colocar todo mundo [todos os senadores] na mesma vala”, declarou ao jornal.

A CartaCapital, o líder da Minoria no Senado, Jean Paul Prates (PT-RN), reforçou a percepção dos colegas de que o parlamentar do Cidadania não buscou tirar proveito próprio da gravação.

“Não acredito que Kajuru se prestasse ao papel de gravar uma ligação com o presidente e dizer depois que não foi autorizado, levar um processo no Conselho de Ética. Posso dizer até que tenho certeza de que Kajuru não seria capaz de entrar em uma farsa dessa”.

“Acredito que tenha tido autorização. Se não teve, fez sem intenção, porque achou normal divulgar a conversa com o presidente”, acrescentou Prates.

Para o líder da Minoria, há também uma “dimensão não-Kajuru” no episódio, que envolve Bolsonaro. “Caracteriza uma ação deliberada do presidente no sentido de prestigiar ou estimular ações contra o STF, e isso caracteriza crime de responsabilidade”.

Prates ainda disse que Kajuru “tem circunstâncias da vida profissional e pessoal que o fazem ser como ele é”.

“E quem convive com ele tem de entender isso e dar uma força. Mas ele certamente não é uma pessoa que usa essas coisas para benefício próprio ou para tirar vantagem em relação aos outros”.

 

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Editor do site de CartaCapital. Twitter: leomiazzo

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