Política

‘Foi uma leviandade imensa propagada por jornalistas’, diz autor de livro sobre o suicídio do reitor Cancellier

Em entrevista a CartaCapital, Paulo Markun detalha os equívocos da operação da PF, o papel de setores da imprensa e os últimos dias de Luiz Carlos Cancellier

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Em 14 de setembro de 2017, no auge do lavajatismo, o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, foi preso com outros seis professores em uma operação da Polícia Federal chamada Ouvidos Moucos. Cancellier foi solto no dia seguinte, mas proibido de frequentar a universidade.

Voltou à UFSC 19 dias depois, em um caixão, após se lançar do 7º andar de um shopping em Florianópolis. No bolso, um bilhete: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”

A investigação não demonstrou qualquer participação do reitor Cancellier no desvio de recursos.

Em entrevista a CartaCapital no YouTube, o jornalista Paulo Markun, autor do livro Recurso Final: A Investigação da Polícia Federal que levou ao suicídio de um reitor em Santa Catarina, diz que decidiu escrever a obra para tentar entender como a PF alegou que havia em ação uma quadrilha que teria roubado 80 milhões de reais.

O jornalista ressalta que o acórdão mais recente do Tribunal de Contas da União menciona possíveis irregularidades sobre uma fração de 3% dos 80 milhões. Desse montante muito inferior ao valor inicialmente difundido, só 8% teriam sido pagos na gestão de Cancellier – sem jamais se demonstrar qualquer envolvimento dele.

“Foi uma leviandade imensa propagada por nós, jornalistas. Nós é que fizemos isso, comprando sem colocar em dúvida a versão que tinha sido apresentada”, lamenta o autor do livro lançado pelo selo Objetiva da Companhia das Letras.

Markun evita generalizações, mas destaca que “a grande maioria da imprensa comprou aquilo como a gente vinha comprando há muito tempo”.

“Não vou rotular a imprensa como um todo, a Polícia Federal, o Ministério Público ou a Universidade. [Mas] Não há como esconder o fato de que, na crise da grande imprensa, na intencionalidade de alguns veículos e, principalmente, na ação de autoridades, surgiu uma espécie de parceria público-privada em favor da espetacularização das operações policiais.”

A Operação Ouvidos Moucos foi chefiada pela delegada Erika Marena e a prisão de Cancellier foi autorizada pela juíza Janaina Cassol.

“Não consegui falar com a delegada. Ela aceitou dar entrevista para mim, mandei as perguntas por escrito e ela nunca mais respondeu. Já a juíza deu uma entrevista e justificou-se dizendo que não se arrepende de nada e que ela continuava acreditando que havia razões para pedir a prisão preventiva do reitor”, relata o jornalista.

Markun destaca, na entrevista, a aprovação pelo Congresso Nacional de uma lei que visa punir agentes que praticam abuso de autoridade. O então senador Roberto Requião (MDB-PR) apelidou o texto de “Lei Cancellier”.

“Essa prisão preventiva [do reitor] não aconteceria hoje em dia, porque em 2018 houve um entendimento diferente [com a ‘Lei Cancellier’]. Mas depois da morte do reitor. A prisão preventiva tem o objetivo de evitar que o investigado contamine ou destrua provas. Nada disso parecia haver em relação ao reitor. Nenhum dos presos foi chamado a se explicar em instância alguma. E tudo explode nesse estardalhaço danado”, acrescenta.

No livro – e na entrevista  – Paulo Markun também relata aspectos dos últimos dias de Luiz Carlos Cancellier e o peso das decisões judiciais.

“Esses dias foram de uma gangorra emocional enorme, por conta das acusações, da depressão que ele amargou e por uma determinação da juíza de que ele não poderia ter contato com colegas da Universidade. A vida do Cancellier era a Universidade, então, a grande maioria dos amigos dele se afastaram nesse período”, prossegue o autor. “Nesse meio tempo, veio a decisão da juíza Cassol de proibir que ele entrasse na universidade e, aí, a casa caiu. Ao que tudo indica, aí ele cedeu.”

Clique aqui para assistir à íntegra da entrevista.

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