Política

EUA monitoraram plano da ditadura brasileira de invadir o Uruguai

Documentos mostram que Brasil e EUA queriam conter a coalizão de esquerda, a Frente Ampla, liderada pelo general Líber Seregni

Protesto durante a ditadura no Brasil, iniciada em 1964. Foto: Reprodução
Protesto durante a ditadura no Brasil, iniciada em 1964. Foto: Reprodução
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A ditadura brasileira havia apresentado ao governo dos Estados Unidos, durante as gestões de Emílio Médici e Richard Nixon, uma proposta de invasão do Uruguai em novembro de 1971, em um plano chamado de “Operação Trinta Horas”, segundo documentos do governo americano, divulgados nesta sexta-feira 29 pelo site UOL.

 

As informações confirmam fatos já trazidos por reportagem de CartaCapital em 2015, na edição nº 859, com base em um lote de 538 documentos secretos dos anos de 1970, como memorandos, telegramas e relatórios, que haviam tido o sigilo desclassificado pelo então governo de Barack Obama, por decorrência de visita de Dilma Rousseff aos Estados Unidos.

Conforme mostrou CartaCapital na época, o acervo havia revelado, por exemplo, que Washington sabia dos horrores praticados na ditadura brasileira, mas mantinha Brasília como aliada para engrossar a ofensiva contra movimentos de esquerda na América Latina, como no Chile e em Cuba.

Entre os fatos que o Departamento de Estado americano tinha ciência, estavam as circunstâncias da morte do ex-deputado Rubens Paiva, durante interrogatório, segundo memorando do diplomata John Mowinckel, de 11 de fevereiro de 1971; e as condições da prisão de Virgílio Gomes da Silva, morto “enquanto estava sendo questionado”, de acordo com telegrama de 30 de dezembro de 1969, produzido pelo Consulado dos Estados Unidos em São Paulo.

No caso do Uruguai, CartaCapital havia mostrado em 2015 um telegrama de 24 de agosto de 1971, escrito pelo embaixador americano no Brasil William Manning Rountree, que havia informado às autoridades dos Estados Unidos que, se a esquerda assumisse o poder no país vizinho, “o governo brasileiro consideraria de forma relevante uma intervenção militar direta, incluindo uma demonstração pública de poderio bélico”.

Rountree havia observado, em informe, que as relações entre o Brasil e o Uruguai tinham esfriado, por causa do fracasso nas negociações pela libertação do cônsul brasileiro Aloysio Gomide, sequestrado pelos guerrilheiros tupamaros em 1970. O diplomata só seria libertado sete meses depois, após prisão em cativeiro, mediante pagamento de resgate pela família.

“A ajuda provavelmente se daria na forma de armas, treinamento, assistência financeira e etc.”, havia escrito Rountree aos Estados Unidos, sobre como o Brasil ajudaria a intervir no Uruguai, segundo documento reproduzido por CartaCapital na época.

A Operação Trinta Horas ocorreria se a eleição uruguaia da época fosse vencida pela coalizão de esquerda, a Frente Ampla, liderada à época pelo general Líber Seregni. As tropas brasileiras foram solicitadas pelo presidente uruguaio da época, Jorge Pacheco Areco, do Partido Colorado. O bloco esquerdista, no entanto, acabou com somente 18% dos votos, e o vitorioso foi o ruralista Juan María Bordaberry, com 41%. Nos anos seguintes, o fazendeiro viria a dar um golpe de Estado e se tornaria um ditador.

Em publicação nesta sexta-feira 29, o site UOL citou outros documentos que comprovam a intenção do Brasil em invadir o Uruguai com essa motivação.

Uma das comprovações está em documento da embaixada dos Estados Unidos em Montevidéu, de 25 de agosto de 1971, que já falava sobre “possíveis planos brasileiros de ação no Uruguai para impedir a Frente Ampla de assumir o controle, incluindo o uso de forças armadas”.

Outro informativo trazido por UOL, da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires ao Departamento de Estado em Washington, datado de 27 de agosto de 1971, relata que “a Argentina não tem planos de intervir nas eleições, mas apoiaria um golpe para reintegrar o atual presidente Pacheco se a esquerdista Frente Ampla vencesse”.

UOL também mostrou que, em 20 de julho de 1971, o embaixador argentino no Rio de Janeiro, Osiris Villegas, havia confirmado o plano de invasão ao Uruguai. Além disso, um memorando de 20 de dezembro de 1971, do diplomata Henry Kissinger, aponta ajuda do Brasil em fraude eleitoral no país: “Nossa posição é apoiada pelo Brasil, que é, afinal, a chave para o futuro. Os brasileiros ajudaram a fraudar a eleição uruguaia… Há forças em ação que não estamos desencorajando”.

O próprio ditador brasileiro Emílio Médici havia determinado que o III Exército, com sede em Porto Alegre, começasse a se preparar para a operação. A Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, tinha à sua disposição modelos de caça que poderiam chegar em pontos do território uruguaio com rapidez, de acordo com documentação citada na reportagem.

O plano de invasão do Brasil ao Uruguai foi relatado em diferentes materiais, como no livro Aventura, Corrupção e Terrorismo, do coronel Dickson Grael, de 1985.

A ditadura de Bordaberry durou doze anos, a partir de 1973. A Frente Ampla só venceu a eleição em 2004, com Tabaré Vázquez, e depois foi seguido de Pepe Mujica, entre 2010 e 2015. Vázquez retornou ao cargo nos cinco anos seguintes, e hoje o Uruguai é governado por Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional.

CartaCapital

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