Esquerda, volver! O que une (e separa) UP, PCO, PSTU e PCB

Partidos marxistas têm em comum a falta de dinheiro e de representatividade no Congresso - e preservam fortes discordâncias

Manifestantes em passeata no Rio de Janeiro, em 2014. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Manifestantes em passeata no Rio de Janeiro, em 2014. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Política

Da onda extremista das eleições de 2018, que deu vitória a Jair Bolsonaro, ecoa uma narrativa que acusa partidos de oposição de promoverem uma conspiração socialista no Brasil. Não faltaram discursos anticomunistas do presidente e de seus ministros, cheios de promessas para varrer bandidos vermelhos e salvar o país da beira do autoritarismo da extrema esquerda.

Pela boca de Bolsonaro, a ameaça comunista pode parecer latente. Mas a verdade é que uma leva de partidos das correntes mais radicais da esquerda não veem, há anos, sequer um representante ocupar qualquer cargo eletivo. 

A falta de representatividade leva estas legendas a sofrer, também, com a escassez financeira, já que a legislação direciona as verbas mais gordas aos partidos com melhor representação. Diante destes obstáculos, os debates e as propostas políticas desta ala da esquerda se tornam quase invisíveis (ainda que o ex-capitão grite o oposto).

Quatro legendas passam por esta realidade: a recém-nascida Unidade Popular (UP), o Partido da Causa Operária (PCO), o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e o quase centenário Partido Comunista Brasileiro (PCB). Sem cargos e sem dinheiro, as siglas se aproximam das eleições municipais de 2020 com o desafio de criar alguma expressão nacional. Será?

A perspectiva ficou pior após a legislação aplicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em que apenas 21 legendas, entre as 35 registradas no início do ano, foram contempladas com os recursos do fundo partidário. O tempo de propaganda na televisão também ficou restrito. Algumas siglas desfavorecidas deixaram de existir ou se fundiram. Hoje, há 33 legalizadas. Não é pouco.

Vale salientar: a desigualdade econômica entre os partidos é bem grande. Se posto em foco apenas o repasse do fundo partidário, os valores chegam à casa dos milhões quando destinados para alguns, enquanto outros ficam no zero. Exatamente: zero.

Maior apadrinhado com essa política de distribuição de dinheiro, o PSL aparece como beneficiário da quantia de 7 milhões, 885 mil, 396 reais e 44 centavos só em novembro deste ano, de acordo com relatório de prestação de contas divulgado pelo TSE, que informa os valores distribuídos pelo fundo eleitoral em cada mês de 2019. No total geral do ano, o tribunal informa a destinação de 87 milhões de reais ao partido até novembro. Um partido caótico e em guerra, mas gigante.

Atrás do PSL, PT, PSDB, PSD, PP e MDB seguem no ranking dos mais abastados. O menos favorecido no mês, o PPS (hoje, Cidadania), de acordo com o relatório de duodécimos do TSE, está relacionado ao valor de 1 milhão, 220 mil, 877 reais e 67 centavos.

Unidos do mesmo lado neste abismo entre partidos ricos e pobres, as legendas UP, PCO, PSTU e PCB afirmam que não priorizam disputas eleitorais. Dão mais valor à atuação nas bases, em sindicatos, coletivos de jovens e demais organizações civis.

Ideologicamente, também se assemelham, pois são partidos da esquerda que se identificam publicamente como marxistas, ou seja, orientam-se pelas ideias desenvolvidas a partir das obras do pensador alemão Karl Marx. 

Excluídos do debate nacional, seguem firmes, ainda que a passos de formiga, em um projeto ambicioso de superação do capitalismo no Brasil. Mas tamanha similaridade não os impede de tecer intensas discordâncias entre si. 

UP: “Não negamos nenhuma experiência do socialismo”

O caçula dos partidos de esquerda nasceu em 10 de dezembro deste ano, após a mobilização de quatro grupos políticos: o Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que atua na causa da moradia; o Movimento Luta de Classes, com foco no sindicalismo; o Movimento de Mulheres Olga Benário, engajado em pautas feministas; e a União da Juventude Rebelião (UJR), inserida no movimento estudantil secundarista e universitário.

Como acabou de surgir, a UP ainda não tem filiados oficiais. A jornada para estimular filiações deve ficar para 2020. O partido estima estar presente em 22 estados. Os militantes devem contribuir mensalmente com o valor de 10 reais para desempregados ou com 1% da renda.

Segundo o presidente Leonardo Péricles, a legenda se identifica como “marxista” e diz aprender com “acertos e erros” de todas as experiências socialistas do século XX – como na China, que a sigla não considera socialista hoje, mas teve o mérito de formar um “exército revolucionário”.

“Como bons marxistas, não negamos nenhuma das experiências vitoriosas importantes que aconteceram no século XX do socialismo. Inclusive nos utilizamos delas”, comenta Péricles. 

“Não somos o setor da esquerda que tem que ficar com pouca gente. O partido tem que disputar milhões”, diz presidente da UP.

Péricles também demonstra um olhar empático com o governo da Venezuela e diz que o Brasil deve aprender com a resistência de Nicolás Maduro em relação às pressões dos Estados Unidos. Ele opina que a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment sob uma pressão “100 mil vezes” menor.

“Gente de esquerda diz que o problema da Venezuela é democracia, nós não achamos isso. Para nós, o problema é de petróleo, eles têm a maior reserva do mundo. Por causa disso, os EUA lideram um processo de embargo econômico. E por que o governo da Venezuela está de pé? É uma discussão para a gente fazer, ele está lá, resistiu. Essa experiência nós temos que estudar e reivindicar, achamos que é fundamental o que eles estão fazendo lá, as transformações sociais. Não fazem mais porque forçam um embargo violentíssimo”, avalia. 

Péricles diz que, durante a criação da UP, partidários receberam críticas por estarem, supostamente, dividindo a esquerda com a inauguração de mais uma sigla. Ele contrapõe esta tese e diz que, na verdade, estão somando na correlação de forças progressistas. 

Sua avaliação é cautelosa sobre os outros partidos de esquerda, prefere não opinar muito. Segundo ele, é possível valorizar conquistas e evitar erros de partidos progressistas que estão ou estiveram no poder. Mas critica que as siglas tradicionais “abandonaram” as mobilizações na base, com os trabalhadores.

Em janeiro, o partido deve realizar um congresso para decidir os nomes para as eleições municipais. Ainda não há candidaturas firmadas. Mas a sigla deseja disputar as urnas em grandes capitais, cidades médias e pequenos municípios. De acordo com Péricles, em breve, a UP apresentará grande escalada. 

“Com todo o respeito ao conjunto das organizações com parlamentar ou sem parlamentar, mas a gente tem a perspectiva de que, em pouco tempo, a UP seja um partido de milhões de pessoas. Não somos aquele setor da esquerda que acha que tem que ficar sempre com pouca gente. O partido tem que disputar milhões de pessoas”, diz.

PCO: engajamento contra impeachment de Dilma e pela soltura de Lula

O registro do PCO data de 1997. Antes, era uma corrente do PT, a “Causa Operária”, que foi expulsa em 1995 por divergências políticas. A ala não concordava com “alianças com a burguesia”, segundo explica o membro da executiva nacional do partido, o professor Antônio Carlos Silva. 

Em 2018, Silva foi candidato a deputado federal em São Paulo, mas não teve nenhum voto computado. Em 2012, candidatou-se a prefeito no Rio de Janeiro e ficou em último lugar.

Dados do TSE indicam 3,5 mil filiados ao partido. O PCO não informou a CartaCapital levantamento sobre a renda mensal da qual dispõe. O dinheiro, segundo a sigla, vem de contribuição de militantes, arrecadações em campanhas de mobilização e vendas do jornal “Causa Operária”, que custa 2 reais e teve sua primeira publicação em 1979. Nos sindicatos, o partido está próximo à Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Antônio Carlos Silva define o PCO como “marxista”. Em sua avaliação, a legenda se comportou como “vanguarda” na luta contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e contra a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Tamanha dedicação foi reconhecida pelo próprio Lula, pois o PCO foi o único partido sem representação eletiva que o petista agradeceu publicamente, assim que foi solto em 8 de novembro, durante discurso em Curitiba (PR).

Congresso nunca teve representação do PCO e há anos não tem de PSTU e PCB. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Na visão de Antônio Carlos, o PCO se diferencia do PSTU e do PCB, principalmente, pela prática política. Na opinião dele, o PSTU fica travestido de partido de esquerda, mas apoia movimentos reacionários no Brasil e no mundo. 

A principal queixa: segundo ele, o PSTU “apoiou o golpe de Estado”. Ele se refere à bandeira adotada pelo PSTU quando o impeachment estava em curso, em 2016, com o lema “Fora Todos: Eleições Gerais Já”.

“Eles apoiaram o golpe de Estado no Brasil, chamaram ‘Fora Dilma’ e apoiaram o golpe de Estado em lugares no mundo. Chegaram a apoiar golpe no Egito, bombardeio na Síria pelas tropas norte-americanas. Embora com roupagem de esquerda, sempre enxergando nesses movimentos reacionários uma mobilização popular, eles se iludiram apoiando essa onda conservadora”, avalia Antônio Carlos, em entrevista a CartaCapital.

Quanto ao PCB, o PCO diz que a legenda “não percebeu o golpe em 1964”. O PCB era um partido de esquerda hegemônico na época da ditadura militar. No entanto, para Antônio Carlos Silva, a sigla não analisou o cenário do ponto de vista da “luta de classes”.

“Já em 64, o PCB não previu o golpe. Chegaram a dizer, na época, que não havia nenhuma possibilidade de golpe. Que, se a direita levantasse a cabeça, as Forças Armadas cortariam a cabeça”, diz, referindo-se a uma frase de Luís Carlos Prestes.

O PCO deve realizar um congresso em janeiro para decidir os postulantes às eleições de 2020. O partido tem a expectativa de lançar candidatos à prefeitura de todas as 26 capitais do Brasil, para o Distrito Federal e em pelo menos 100 cidades. 

O único nome cotado até agora é o de Henrique Simonard, para candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Nascido em 1997, o jovem foi candidato a deputado estadual na capital fluminense em 2018.

PSTU: difamada por “stalinistas”, sigla defende Estado sem partido

Um pouco mais velho que o PCO, o PSTU tem registro datado em 1995. Hoje, o TSE contabiliza 15,8 mil filiados. Há representação nas diretorias de cerca de 150 sindicatos, segundo o partido, ligado à Central Sindical e Popular Conlutas (CSP-Conlutas). O partido não informou estimativa de renda mensal.

Eles se identificam com as ideias de Leon Trótski, um dos líderes da revolução comunista de 1917, na Rússia. Trótski ficou conhecido, também, por se opor a Joseph Stálin, que governou a União Soviética entre 1924 e 1953. 

Os trotskistas recebem críticas de outros socialistas por supostamente apoiarem iniciativas reacionárias. Mas o PSTU se defende: para CartaCapital, o metalúrgico José Maria de Almeida, o Zé Maria, dirigente do partido, diz que sua corrente política sofre difamações.

Segundo Zé Maria, o modelo defendido pela sigla é de que o Estado seja governado por trabalhadores organizados, em vez de um partido. Diferente da UP, que diz não negar nenhuma experiência socialista, o PSTU rechaça experiências da União Soviética e da China, entre outras. 

“Não defendemos o impeachment. Achamos que não mudaria nada. O vice era o Temer”, diz dirigente do PSTU.

A restauração do capitalismo na União Soviética, para o PSTU, foi resultado da “degeneração” proposta por Stálin que, segundo a sigla, “acabou com a democracia” e “destruiu a possibilidade de se construir o verdadeiro socialismo”.

Segundo Zé Maria, as críticas feitas hoje ao PSTU têm a ver com as mentiras difundidas pela “burocracia stalinista”, como as de que Tróstki era “gente do imperialismo”. O dirigente se mostra, por exemplo, simpático às mobilizações de Hong Kong, que, segundo ele, vão contra a “ditadura na China”. Estes mesmos protestos são criticados, por outros setores da esquerda, por, segundo estes, alinharem-se a ideais liberais.

Esta compreensão explica a posição que o partido adotou durante o impeachment de Dilma, o “Fora Todos”.

“Nós, em primeiro lugar, não defendemos o impeachment. Achamos que não mudaria nada. O vice era o Temer. Mas por que defendemos o ‘Fora Todos’? Porque o governo da Dilma, para atender bancos e empresas, desencadeava uma sequência de ataques aos trabalhadores”, diz.

O PSTU planeja ter candidaturas em todas as capitais do país. No estado de São Paulo, pretende disputar prefeituras nas cidades do ABC e no interior. 

Para a capital paulista, o partido pensa em lançar Vera Lúcia, que disputou as eleições presidenciais em 2018. No Rio de Janeiro (RJ), o PSTU pensa no ex-deputado federal Cyro Garcia e em Dayse Oliveira, que tentou a prefeitura em 2016.

Em Belo Horizonte (MG), o nome cotado é o de Vanessa Portugal, que postulou o Senado pelo estado em 2018. Em Fortaleza (CE), a sigla oficializou a pré-candidatura de Zé Batista, pedreiro que disputará pela primeira vez um posto eletivo. Em Porto Alegre (RS), o PSTU fala em Julio Flores, que já concorreu a governador do estado e a prefeito nos últimos anos.

PCB: método de organização partidária é diferencial

Com 12,9 mil filiados listados atualmente pelo TSE, o PCB é quase centenário: nasceu em 1922. Na verdade, o partido divide o aniversário com o PCdoB, sigla oriunda da mesma família que o PCB, o “Partidão”. Na década de 60, houve um racha e a sigla “PCdoB” apareceu, pela primeira vez, em 1962. O PCB herdou a sigla original do “Partidão”, e o PCdoB ficou com o nome por extenso: “Partido Comunista do Brasil”.

O PCB estima se manter hoje com cerca de 20 mil reais mensais, por meio de uma contribuição de 3% da renda de cada militante e de atividades de arrecadação. O PCB também está presente em mais de uma centena de sindicatos, diz a sigla, como o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições do Ensino Superior (Andes) e o Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica (Sinasefe).

A última vez que o partido ocupou um cargo eletivo foi com a vereadora Marta Jane, de Goiânia (GO), em 2015. Ela era suplente e assumiu a vaga do titular Elias Vaz, do PSOL, por apenas algumas semanas. Fazia 24 anos que a legenda não ascendia ao parlamento da cidade. A sigla considerou a breve participação de Marta como “importante” e “histórica”.

No campo teórico, a legenda se identifica como “marxista-leninista”, ou seja, adepta à compreensão do líder russo Vladimir Lênin sobre as ideias de Karl Marx.

Contudo, a sigla é, por vezes, associada ao que se chama de “stalinismo”. Em 5 de dezembro, o comitê central lançou nota pública para queixar-se de agressões virtuais a um militante de Pernambuco, o historiador Jones Manoel, que relata ataques por parte de intelectuais que o relacionam a Stálin. O PSTU também já fez essa associação ao partido.

“Não somos stalinistas. Temos críticas a Stálin, sem demonizá-lo”, diz secretário do PCB.

Em entrevista a CartaCapital, o secretário de comunicação do partido, Ricardo Costa, nega a ligação. Segundo ele, uma diferença real entre o PCB e outros partidos de esquerda, na verdade, é o método de organização, que eles chamam de “centralismo democrático”.

Enquanto PT e PSOL, por exemplo, preservam distintas correntes internas, o PCB diz definir os seus posicionamentos através de processo amplo de debates. Depois, quando se torna resolução, “o militante deve abraçar esse posicionamento como seu também”, diz.

“Não somos stalinistas, a gente já fez essa análise”, explica. “Temos críticas ao período do Stálin, sem demonizá-lo. É um erro culpar um dirigente por erros cometidos quando são decorrentes de diversas situações históricas. Fazemos a devida crítica ao processo histórico como um todo. Temos uma vida interna muito democrática e, na convivência com outros partidos, procuramos pontos comuns para haver unidade de ação na luta contra os ataques aos trabalhadores.”

O PCB ainda discute se vai lançar mesmo candidaturas próprias em todas as metrópoles. Goiânia (GO) é a única capital citada com maior certeza de haver chapa do partido. São Paulo e Rio de Janeiro também são possibilidades, mas a legenda ainda cogita apoiar nomes de outras siglas.

Na capital paulista, uma possível candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina pelo PSOL tem a simpatia do PCB. O partido apoiou Boulos na campanha presidencial de 2018 e entende que houve ganho político na aliança. Na capital fluminense, a legenda ainda conversa com o PSOL sobre eventual apoio a Marcelo Freixo. Em Ipatinga (MG), o PCB também deve ter candidato a prefeito em conjunto com o PSOL.

 

 

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Repórter do site de CartaCapital

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