Escândalos derrubam bandeira anticorrupção de Bolsonaro

O impeachment, entretanto, ainda é incerto, afirma o cientista político Humberto Dantas

Foto: Reprodução Redes Sociais

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Política

*Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

O presidente Jair Bolsonaro vive um dos momentos mais tensos de seu governo. A acusação, com direito a áudio de ex-cunhada, de que ele teria embolsado parte do salário dos funcionários de seu gabinete quando era deputado elevou ainda mais a temperatura na fogueira da instabilidade política, que já estava quente em razão das denúncias de irregularidades na compra de vacinas.

Além disso, Bolsonaro vê sua popularidade cair, a pressão subir com a CPI da Covid e protestos de rua atraindo milhares de pessoas Brasil afora. O cientista político Humberto Dantas, doutor pela USP e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), disse à RFI que Bolsonaro perdeu várias bandeiras de campanha, inclusive a do combate à corrupção, e hoje se sustenta apenas no conservadorimo.

“Um presidente que tem dificuldades de se relacionar com o Poder Legislativo, que vai perdendo sua sustentação junto à opinião pública, que tem severos problemas na relação com a mídia, tem problemas com órgãos de justiça, é um presidente que em algum momento perde sustentação. Pode simplesmente ficar à deriva ou pode ser retirado do poder.”

Para Dantas, no entanto, o trauma das últimas eleições nacionais, com a negação da política, pode ajudar Bolsonaro a continuar na cadeira de presidente. “Eu acho improvável que ocorra hoje um processo de impeachment no Brasil por conta de tudo aquilo que o processo contra Dilma Rousseff fez com a política em geral, levando para o buraco praticamente toda a política tradicional. E eu não sei se os políticos gostariam de se ver diante de mais um risco. Bolsonaro já é a negação da política. Ter a negação da negação pode ser um risco muito significativo para a democracia”.

Postura de Bolsonaro pode abalar relação com aliados

O pilar de sustentação política do presidente vem de um aglomerado de siglas que tem se deleitado com a liberação de emendas parlamentares e definido a pauta de votações no Congresso. A analista política Mayra Goulart, coordenadora da Pós-Graducação em Ciências Sociais da UFRJ, afirmou à RFI que o governo tem conseguido agradar seus aliados, mas destaca que algumas posturas do presidente têm potencial para abalar essa relação, inclusive num eventual processo de impeachment.

“O primeiro fator, que eu acho menos importante, é a chegada de escândalos de corrupção aos líderes do Centrão, um deles Ricardo Barros. Isso, é claro, gera instabilidade. O segundo fator, que já tem mais importância, é a síndrome do pato manco, que é o esvaziamento do poder de uma liderança no final do mandato, conforme vão diminuindo suas chances de reeleição. O terceiro fator, que eu acho mais importante, são os sinais que Bolsonaro dá de que está almejando uma radicalização autoritária, principalmente se perder as eleições. Temos aí a tentativa de reforma no sistema eleitoral e as declarações pelo voto impresso, mostrando que não aceitará uma derrota”.

Para a pesquisadora da UFRJ, esse discurso incomoda bastante não apenas opositores, mas a própria base de apoio do governo hoje, que gosta de fazer parte de um governo com as regras atuais. “Essa radicalização autoritária não é do interesse do Centrão. O Centrão prefere que as coisas continuem como estão, com pouca atenção para essa farra do boi das emendas parlamentares.”

Queda de popularidade

Bolsonaro tem perdido apoio de eleitores, como mostram pesquisas, e mesmo fiéis seguidores não esconderam nos últimos dias o incômodo nas redes sociais frente ao somatório de escândalos. Porém, ele ainda é o presidenciável com o maior número de seguidores na internet, 40 milhões, de acordo com a plataforma MonitoraBR, que aponta dez milhões nas redes do ex-presidente Lula.

Mesmo narrativas falaciosas, como a contestação de vacinas em detrimento de tratamentos sem comprovação científica para a Covid-19, continuam reverberando entre apoiadores do atual presidente. O cientista político Max Stabile, diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, disse à RFI que esse barulho nas redes pode ajudar, ao menos por enquanto, a garantir a sobrevida do presidente.

“A militância digital sempre foi um porto seguro da condução da dinâmica do bolsonarismo desde antes das eleições. Dificilmente essa militância das redes vai cair, mesmo com aprovação do presidente caindo. Já há bons estudos mostrando que são eleitores muito fiéis. Na minha opinião, isso vai ser importante para segurar uma parte desse apoio, um núcleo duro muito fiel ao bolsonarismo, e que pode, obviamente, reverberar em momentos de positividade.”

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