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Entre os mais ricos, Doria enfraquece Bolsonaro nas pesquisas

por José Antonio Lima publicado 04/05/2017 00h01, última modificação 04/05/2017 10h10
Quando o tucano entra na disputa, o deputado do PSC também perde a liderança entre eleitores com curso superior
Fabio Rodrigues Pozzebom e Rovena Rosa / ABr
Jair Bolsonaro e João Doria

Bolsonaro e Doria: eles têm bons resultados entre os eleitores com nível superior e entre os que ganham mais de dez salários mínimos

Extremista de direita, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) tem usado suas redes sociais para celebrar resultados de pesquisas de opinião que o colocam bem posicionado nas eleições de 2018. No mais recente levantamento do Datafolha, nos cenários em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é candidato, Bolsonaro aparece disputando o segundo lugar com a ex-senadora Marina Silva (Rede). Uma outra figura da direita brasileira, em ascensão, ameaça Bolsonaro, entretanto. É o prefeito de São Paulo, João Doria Jr. Cotado como presidenciável pelo PSDB, Doria atinge seus melhores números nos grupos em que Bolsonaro é mais forte. 

Embora tenha um estilo educado e busque demonstrar gentileza em público, Doria não esconde seu antipetismo, uma característica comum com Bolsonaro. E quando critica o PT e seus aliados, o tucano muda o tom, adotando termos grosseiros, ao estilo do deputado do PSC. "É quando desopilo", disse Doria, segundo a revista Época, a respeito de ataques ao PT, coisa que "adora" fazer.

Nos últimos dias, Doria ganhou projeção nacional ao tentar fazer da Prefeitura de São Paulo um bastião contra a greve geral convocada pelas centrais sindicais contra as reformas trabalhista e da Previdência de Michel Temer. Em entrevistas, Doria chamou os líderes da greve de "vagabundos" e "preguiçosos", prometeu descontar o dia dos servidores que aderissem e afirmou que "pessoas corretas não apoiam" o movimento.

Doria perdeu a compostura também ao ser alvo de um protesto. No domingo 30, uma cicloativista entregou flores ao prefeito em "homenagem aos mortos" nas marginais Tietê e Pinheiros, onde os acidentes aumentaram desde janeiro, quando o aumento da velocidade foi autorizado.

Irritado, Doria jogou as flores no chão e, pelo Twitter, adotou uma estratégia tipicamente populista: selecionar quem pertence ou não ao "povo". "Não aceito intimidações, nem com gritos, nem com flores. Alguns ativistas são iguais a grevistas. Prefiro o povo. Gente simples e generosa" escreveu. 

Na segunda-feira 1º, Doria voltou a ser alvo de um protesto de cicloativistas e atribuiu a manifestação ao PT. “Não será nenhum ativista, petista ou qualquer outro ‘ista’ que vai me colocar na parede. Nem com flores, nem com gritos”, afirmou. “As flores do mal eu dedico ao Lula, à Dilma e aos 14 milhões de desempregados do Brasil”, disse. 

Críticas pessoais a Lula também são lugar comum para Doria. Logo no início de seu mandato, o tucano atacou o ex-presidente ao plantar uma árvore em ação urbanística. "Isso aqui é uma muda de Pau-Brasil e eu vou dedicar o plantio ao Lula, Luiz Inácio Lula da Silva, o maior cara-de-pau do Brasil". 

Lula vem se recusando a entrar no debate direto com Doria"Há tempos ele vem provocando, na tentativa de que eu aceite o debate para poder se projetar na disputa nacional", disse em abril.

Pesquisas eleitorais

Se for candidato à Presidência da República em 2018, Doria deve disputar o voto antipetista com Bolsonaro. 

Nos três principais cenários da pesquisa estimulada (no qual o eleitor é apresentado aos nomes dos candidatos), o Datafolha incluiu Lula e Marina Silva, além de outros seis possíveis postulantes: o atual presidente, Michel Temer (PMDB); o ex-ministro Ciro Gomes (PDT); o senador Ronaldo Caiado (DEM) e os ex-deputados Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV). O sexto era sempre um nome do PSDB – o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o senador Aécio Neves (MG) ou Doria.

Quando Alckmin e Aécio estão na lista, Bolsonaro é o preferido entre as pessoas que ganham mais de dez salários mínimos, hoje equivalente a um pagamento mensal de 9.370 reais. Trata-se do topo da pirâmide de renda no Brasil, composto, segundo o Censo de 2010, por apenas 1,4% dos brasileiros.

Com Aécio na disputa, Bolsonaro é o preferido deste grupo, com 28% dos votos, seguido por Lula (19%), Marina (9%) e Aécio (8%). Com Alckmin na lista, Bolsonaro fica com 27%, contra 21% de Lula, 11% de Marina e 5% do governador tucano. 

Se Doria é o candidato tucano, a corrida muda. O número de votos brancos e nulos cai de 20% (no cenário com Aécio) e 17% (com Alckmin) para 12% e o próprio Doria passa a liderar entre as pessoas de salários mais altos, com 27%, contra 20% de Bolsonaro, 20% de Lula e 5% de Marina Silva.

Fenômeno semelhante ocorre com os eleitores com nível superior completo. No primeiro cenário, Aécio Neves tem apenas 7% nesse grupo, contra 15% de Marina Silva, 17% de Lula e 21% de Jair Bolsonaro. No cenário com Alckmin, Bolsonaro novamente lidera – tem 22%, contra 18% de Lula, 15% de Marina e 7% do tucano.

No cenário com Doria, os brancos e nulos vão de 23% e 21% para 17% e Doria aparece em primeiro lugar, com 19%, mesma porcentagem de Lula. Bolsonaro cai para o terceiro lugar, com 17% e Marina Silva fica com 13%.

A trajetória de Doria

Em 21 de setembro de 2016, durante a campanha eleitoral, João Doria prometeu cumprir seu mandato na Prefeitura de São Paulo até o fim caso fosse eleito. No início deste mês, o discurso mudou.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, Doria admitiu que deixaria a prefeitura para ser candidato ao governo de São Paulo, caso isso fosse um pedido de Alckmin, seu padrinho político, a quem diz dever "lealdade".

O tucano tem se recusado a falar sobre uma possível candidatura ao Planalto, postulada também por Alckmin, mas seu nome vem sendo ventilado pois não sofre acusações na Operação Lava Jato, ao contrário de Alckmin e Aécio.