Política
Entre metas e concessões
O Plano Clima traz avanços, mas também revela as limitações políticas da agenda do governo
Vivemos um momento histórico em que a crise ecológica e o colapso climático deixaram de ser ameaças futuras e se tornaram experiências concretas do cotidiano. Incêndios florestais, eventos extremos, secas prolongadas e enchentes devastadoras já não são exceções, mas a expressão recorrente de um modelo de desenvolvimento em choque com as condições de reprodução da vida. Nesse contexto, o novo Plano Clima do Estado Brasileiro deve ser reconhecido como um passo importante. Em um cenário global marcado por negacionismos, retrocessos e inação, a elaboração de um plano estruturado, com metas e diretrizes, sinaliza uma disposição de enfrentar o problema que não pode ser ignorada.
No entanto, reconhecer esse avanço não implica abdicar da crítica. Ao contrário, é justamente por sua relevância que o plano deve ser analisado com rigor. A questão central não é apenas sua consistência técnica, mas seus limites políticos: em que medida ele enfrenta as causas estruturais da crise climática e até que ponto se acomoda às pressões de setores econômicos que historicamente impulsionam a degradação ambiental?
O plano insere-se em uma lógica que busca conciliar a urgência climática com a continuidade do crescimento econômico tal como hoje se organiza. Essa tentativa se expressa na aposta em instrumentos como mercados de carbono, financiamento climático e incentivos à inovação tecnológica. No entanto, essa abordagem apresenta limites. Ao depender fortemente de mecanismos de mercado, o plano corre o risco de tratar a crise climática como um problema de eficiência econômica, não como uma questão de transformação profunda dos modos de produção e consumo.
Nesse sentido, o mercado de carbono não pode ser tratado como solução. Ao transformar a atmosfera em ativo financeiro, ele permite a continuidade das emissões por grandes poluidores, desde que compensadas em outros territórios. Trata-se, em grande medida, de um mecanismo que reorganiza responsabilidades sem enfrentar o problema na origem e que ainda amplia a pressão sobre territórios como a Amazônia, convertidos em espaços de compensação para a poluição de outros setores e regiões.
No caso brasileiro, essa tensão se torna ainda mais evidente na Amazônia. O plano reconhece o papel central da floresta na regulação do clima e estabelece metas de redução do desmatamento, um ponto que deve ser valorizado. Ao mesmo tempo, o governo mantém e, em alguns casos, amplia concessões a setores que pressionam diretamente esse território.
A continuidade de projetos de exploração de petróleo e gás, a expansão da infraestrutura voltada ao escoamento de commodities e a dependência de um sistema de transporte baseado em combustíveis fósseis revelam uma contradição profunda. De um lado, afirma-se a necessidade de proteger a floresta. De outro, sustenta-se um modelo econômico que depende de sua transformação em recurso. Essa contradição não decorre apenas de incoerências, mas das disputas internas ao próprio Estado e da influência persistente de interesses econômicos estratégicos. O desafio político do governo é justamente romper com essa dependência histórica e estabelecer limites mais claros a atividades que aprofundam o colapso climático.
As comunidades indígenas e tradicionais oferecem um contraponto essencial a essa lógica. Seus modos de vida demonstram que é possível organizar a relação com a natureza de forma equilibrada. O plano reconhece essa importância, mas de forma insuficiente. Falta transformar esse reconhecimento em centralidade política, garantindo que esses povos sejam protagonistas nas estratégias climáticas, não apenas objetos de políticas.
Sem mudanças estruturais no atual modelo econômico, não há como superar a crise climática
A transição energética revela avanços e limites. A expansão de fontes renováveis, como solar e eólica, é necessária, mas a forma como vem sendo conduzida gera preocupações. Ao priorizar grandes projetos e manter a concentração do sistema, o plano pouco avança na democratização do acesso da energia. Além disso, ao não enfrentar diretamente o modelo de produção e consumo, corre-se o risco de substituir uma fonte de impacto por outra. A expansão de cadeias associadas às tecnologias “limpas”, como a mineração intensiva para baterias, pode gerar novos conflitos socioambientais sem critérios rigorosos, controle social e respeito aos territórios.
Outro ponto central é a dimensão social da política climática. O plano reconhece a necessidade de uma transição justa, mas trata o tema de forma periférica. Em um país profundamente desigual, qualquer política deve ter a justiça social como eixo estruturante. Caso contrário, os custos recaem sobre os mais vulneráveis e os benefícios se concentram nos setores privilegiados. O plano avança ao colocar a questão climática no centro da agenda pública e ao definir diretrizes nacionais, mas, ao ceder ao capital e evitar confrontos, opera dentro de limites que precisam ser explicitados e enfrentados.
A escolha política do governo Lula precisa ser contraposta em seus aspectos conservadores pelos movimentos ambientais e sociais. Não se trata de rejeitar o plano, mas de disputar seu conteúdo, ampliar seu alcance e pressionar por mudanças estruturais. A gravidade da crise ecológica exige mais que ajustes graduais: exige coragem política para enfrentar interesses estabelecidos. O caminho, portanto, é a radicalização democrática da agenda climática. É preciso ampliar a participação social, fortalecer o protagonismo dos territórios, estabelecer limites efetivos a atividades altamente poluentes e construir alternativas econômicas que priorizem a vida.
O novo Plano Clima é ao mesmo tempo um sinal de avanço e um retrato das contradições do presente. Mostra que o Estado brasileiro reconhece a gravidade da crise, mas também revela os limites impostos pelas relações de poder na sociedade. Cabe à sociedade civil, aos movimentos sociais e aos povos da floresta não apenas apoiar os avanços, mas tensionar seus limites e disputar seus rumos. A crise ecológica e o colapso climático não permitirão soluções parciais por muito tempo. O plano abre uma porta, mas o caminho dependerá da capacidade coletiva de aprofundar sua direção e superar suas concessões. •
*Adilson Vieira é sociólogo, coordenador de articulação e parcerias da Rede de Trabalho Amazônico (GTA) e membro do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Amazônico (IPDA). Pedro Ivo Batista é presidente da Associação Alternativa Terrazul e coordenador do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS).
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Entre metas e concessões’
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