“Engenheiro do caos”, Bolsonaro ganha com clima de confronto

Ao bancar o antiestablishment, papel abandonado pela esquerda, presidente tira proveito da má imagem das instituições

“Engenheiro do caos”, Bolsonaro ganha com clima de confronto

Política

O apoio aos atos convocados por seus aliados para 15 de março custou a Jair Bolsonaro uma reação generalizada, a juntar Lula, FHC, o Supremo Tribunal Federal (STF), parlamentares, mídia. Até voltou a ameaça de impeachment. É baixo, no entanto, o risco de cassação, e o presidente, um “engenheiro do caos”, segundo um livro italiano, tem mais a ganhar do que a perder com o conflito.

Bolsonaro encarna desde a eleição a figura do antiestablishment, e a imagem do establishment é das piores. Uma pesquisa de julho de 2019 do Datafolha sobre a credibilidade das instituições mostrou: 42% confiam muito nas Forças Armadas, atreladas ao governo, e 28%, na Presidência. Índices bem acima dos obtidos pelos partidos (4%), o Congresso (7%), o Supremo (17%) e a imprensa (21%).

A popularidade do governo mantém-se até aqui em patamar suficiente para Bolsonaro guerrear e aguentar um processo de impeachment. Na média de três pesquisas divulgadas este ano, a aprovação ao governo é de 35% e a desaprovação, de 32%. A expectativa quanto ao futuro do governo é até melhor: 45% esperam uma gestão boa ou ótima e só 27%, uma ruim e péssima.

“A esquerda nasceu para ser radical e antissistêmica. Mas no Brasil deixou de ser”, diz Dauto da Silveira, mestre e doutor em sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). “O Bolsonaro radicalizou, pela direita, foi o único candidato antissistêmico. Mas claro que era uma falácia. Governa para ruralistas, banqueiros, estimula o ruim precário, a concentração de terras e de rendas.”

Bolsonaro aparece em uma lista de líderes populistas de direita analisados no livro Os engenheiros do caos, lançado no Brasil em novembro, de autoria do cientista político Giuliano da Empoli, ex-consultor de Matteo Renzi, primeiro-ministro da Itália de 2014 a 2016. Uma lista a incluir ainda Donald Trump (Estados Unidos), Matteo Salvini (Itália) e Viktor Orbán (Hungria).

“Aqueles que declaram que a chama populista durará pouco – pois, uma vez no poder, as forças que encarnam não conseguirão manter suas promessas – estão em plena ilusão”, escreve Empoli. “A promessa central da revolução dos populistas é a humilhação dos poderosos, e ela se realiza já no momento em que eles ascendem ao poder.”

Em discurso no Vaticano na Quarta-Feira de Cinzas sobre o início da Quaresma, o papa Francisco disse que “vivemos num ambiente poluído por muita violência verbal, por muitas palavras ofensivas e nocivas, que a internet amplifica“ e que “hoje se insulta como se se dissesse bom dia”. Bolsonaro e aliados recorrem a palavreado chulo. E ganham com isso, levando-se em conta o livro de Empoli.

“O primeiro e principal efeito da nova propaganda é a liberação da palavra e dos comportamentos. Pela primeira vez depois de muito tempo, a vulgaridade e os insultos não são mais tabus. Os preconceitos, o racismo e a discriminação de gênero saem do buraco”, diz a obra. “Melhor ainda se as elites inimigas do povo acharem que é uma linguagem ofensiva e vulgar. Será o sinal de que estão desconectadas do povo.”

Ao noticiar cotidianamente as selvagerias verbais do clã Bolsonaro, ainda que em tom crítico e com a intenção velada de chocar quem lê, os meios de comunicação prestam um favor ao presidente, a julgar pelas análises contidas em Os engenheiros do caos. Um fenômeno igual ao que ocorre com um ídolo do ex-capitão.

“O megafone de Trump é a incredulidade e a indignação das mídias tradicionais que caem em todas as suas provocações. Elas fazem publicidade para ele e, sobretudo, dão credibilidade à sua reivindicação, a priori absurda para um bilionário nova-iorquino, de ser anti-establishment. Sem os gritos cotidianos e escandalizados dos comentaristas políticos, os insiders de Washington e os intelectuais vestidos de preto, seria difícil para Trump credenciar-se como porta-estandarte da raiva dos abandonados contra o sistema.”

Como a mídia tradicional e a indústria cultural são encarados como establishment e, portanto, inimigas, é necessário para os populistas recorrer à internet e às redes sociais. “É um território ainda livre. Uma fronteira inexplorada e selvagem, na qual a hegemonia do politicamente correto ainda não teve tempo (segundo os populistas) de se plantar”, anota Empoli.

Em suma: um campo fértil para as baixarias tão ao gosto do bolsonarismo.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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