Em pronunciamento, Lula critica ‘imbecilidades’ de Bolsonaro e denuncia ‘pacto’ entre imprensa e Lava Jato

Após recuperar os direitos políticos por decisão do STF, o ex-presidente se disse vítima 'da maior mentira jurídica em 500 anos'

Foto: Kássio Geovanne

Foto: Kássio Geovanne

Política

O ex-presidente Lula se pronunciou nesta quarta-feira 10, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, pela primeira vez após a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, que lhe restituiu os direitos políticos e a condição de concorrer à Presidência em 2022.

“Eu sei que fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de História. Eu sei que a minha mulher, Marisa, morreu por conta da pressão e o AVC se apressou. Eu fui proibido até de visitar o meu irmão dentro de um caixão. Se tem um brasileiro que tem razão de ter muitas e profundas mágoas, sou eu. Mas não tenho. Porque o sofrimento que o povo brasileiro está passando é infinitamente maior que qualquer crime que cometeram contra mim. É maior que cada dor que eu sentia quando estava preso na Polícia Federal”, declarou Lula no início do evento.

Na sequência, ele homenageou os quase 270 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. “Presto minha solidariedade às vitimas, aos familiares das vítimas e ao pessoal da área da saúde. Sobretudo aos heróis e heroínas do SUS”.

“Seria um erro não dizer que o Brasil não merece passar pelo que está passando. Na semana que vem, se Deus quiser, vou tomar a minha vacina. Não me importa de que país, se duas ou uma só, eu vou tomar. E quero fazer propaganda para o povo brasileiro: não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina!” O petista defendeu a adoção de medidas de distanciamento social e o uso de máscaras.

“Ele [Bolsonaro] não sabe o que é ser presidente. A vida inteira não foi nada. Ele não foi nem capitão. Só se aposentou porque queria explodir quartel. Depois de se aposentar, nunca mais fez nada na vida. Foi deputado por 32 anos. E ainda conseguiu passar para a sociedade a ideia de que não era político. Imaginaram o poder do fanatismo? Através de fake news, o mundo elegeu Trump e Bolsonaro”.

 

 

O ex-presidente lamentou a postura adotada “por amplos setores da imprensa” na cobertura da Lava Jato ao longo dos últimos cinco anos e enalteceu a determinação do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, de anular suas condenações na operação e de declarar a incompetência da Justiça Federal em Curitiba sobre seus processos.

“Sou agradecido ao ministro Fachin, porque ele cumpriu algo que a gente reivindicava desde 2016. A decisão que ele tomou tardiamente foi colocada por nós desde 2016. A gente cansou de dizer”, disse Lula. Ele afirmou que sua inclusão que seu nome foi incluído nos desmandos da Petrobras porque “a quadrilha de procuradores da força-tarefa e o Moro entendiam que a única forma era me levar para a Lava Jato”.

“Eu já tinha sido liberado em vários outros processos, mas eles tinham uma obsessão, para criar um partido político, de me criminalizar. Acho que tivemos um Jornal Nacional épico ontem. Pela primeira vez, a verdade prevaleceu. Dita não por alguém do PT, mas pelo presidente da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes; pelo Ricardo Lewandowski; e dito até pela Cármen Lúcia”, completou, em referência ao julgamento, na Segunda Turma do STF, do habeas corpus que pede o reconhecimento da suspeição do ex-juiz Sergio Moro.

Na terça-feira 9, o STF retomou o julgamento do HC impetrado pela defesa de Lula. Até aqui, o placar é de dois a dois.

Votaram para que o STF confirme a perda de imparcialidade por parte de Moro os ministros Gilmar Mendes, presidente do colegiado, e Ricardo Lewandowski. No final de 2018, quando o HC foi impetrado pela defesa do ex-presidente Lula, os ministros Edson Fachin, o relator, e Cármen Lúcia haviam se manifestado em defesa de Moro. Àquela altura, um pedido de vista de Gilmar suspendeu o prosseguimento da análise.

Nesta terça, o ministro Kassio Nunes Marques também pediu mais tempo para estudar o caso, decisão que adia por tempo indeterminado a conclusão do julgamento.

Antes do início da sessão, Fachin, o relator, solicitou ao presidente da Corte, Luiz Fux, o adiamento do julgamento. De acordo com ele, o plenário do STF deveria definir se o caso perdeu objeto após sua decisão, tomada na véspera, de anular as condenações do ex-presidente Lula na Lava Jato.

Fux não se manifestou em defesa da demanda de Fachin. Ao se pronunciar na abertura da sessão, o relator defendeu mais uma vez o adiamento da análise. Por unanimidade, no entanto, os membros do colegiado rejeitaram a solicitação e abriram caminho para a análise do mérito do HC.

No ABC Paulista, Lula também garantiu estar “muito tranquilo” em relação à sequência dos processos que enfrenta.

“Vamos continuar brigando para que o Moro seja considerado suspeito, porque ele não tem o direito de se transformar no maior mentiroso da História do Brasil e ser considerado herói. Deus de barro não dura muito tempo. Ele deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri. O Dallagnol também”, afirmou. “Eles sabem que cometeram erros e eu sabia que eu não tinha cometido”.

O ex-presidente ainda declarou que “a Lava Jato fez um pacto com setores da mídia e que era preciso, porque essa era a teoria do Moro: só a imprensa pode ajudar a condenar as pessoas. E aí vale qualquer coisa”.

Na reta final do pronunciamento, Lula se comprometeu a dialogar com políticos – inclusive da direita e da centro-direita – e com o empresariado brasileiro.

“Eu quero conversar com a classe política. Porque muitas vezes a gente se recusa a conversar com determinados políticos. Eu gostaria que no Congresso Nacional só tivesse gente boa, de esquerda, progressista, mas não é assim. O povo elegeu quem ele quis eleger. Então nós temos que conversar com quem está lá para ver se consertamos este País”, afirmou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista.

“Não tenham medo de mim. Eu sou radical porque quero ir à raiz dos problemas neste País. Porque quero ajudar a construir um mundo justo, mais humano, em que trabalhar e pedir aumento de salário não seja crime. Em que a mulher não seja tripudiada por ser mulher. Um mundo em que a gente venha a abolir o maldito preconceito racial. Um mundo em que não tenha mais bala perdida. Um mundo em que o jovem possa transitar livremente sem a preocupação de tomar um tiro. Um mundo em que as pessoas sejam felizes onde quiserem ser, onde as pessoas sejam o que decidirem, que respeite a religiosidade de cada um”, acrescentou.

O petista destacou, por fim, que precisa “conversar com os empresários”.

“Quero saber onde está a loucura deles de não perceber que se quiserem crescer economicamente é preciso garantir que o povo tenha emprego e renda. Que o povo possa viver com dignidade. Será que é difícil? Ou será que vamos ficar reféns do deus-mercado, que só quer ganhar dinheiro, não importa como?”, questionou.

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