Política

Operação Lava Jato

Em Curitiba, vizinhos do local de depoimento de Lula buscam sossego e "justiça"

por René Ruschel, de Curitiba — publicado 09/05/2017 11h42
A rotina mudou nas cercanias da sede da Justiça Federal, onde trabalha Sérgio Moro. Na quarta-feira 10, ele ouve Lula
Fotos: René Ruschel
Justiça Federal em Curitiba

Policiais em frente à sede da Justiça Federal em Curitiba. A PM comanda a região

O aposentado Laerzio Cordeiro de Faria, 81 anos, é um espectador privilegiado de tudo o que se passa aos arredores do prédio da Justiça Federal, em Curitiba, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve prestar depoimento nesta quarta-feira 10.

Na segunda-feira 8, Faria assistia ao desmonte da barraca instalada na praça há mais de dois anos e que servia de base ao grupo Curitiba Contra Corrupção – uma espécie de confraria de apoio ao juiz Sérgio Moro. “Ainda bem que essa gente vai embora. Eles tiraram o sossego do bairro” afirmou.

Nascido e crescido no mesmo local onde vive até hoje, Faria, como a quase totalidade dos moradores, é comedido no contato com jornalistas. E, ao contrário de muitos, não é fã de Moro. “Não vejo nada de interessante nessa movimentação. A Justiça deveria agir para fazer justiça. O juiz Sérgio Moro apenas cumpre a sua função, faz o que deve fazer. Não sei porque toda essa idolatria” desabafa.

Na sexta-feira, 5, a juíza Diele Denardin Zydek, da 5ª Vara de Fazenda Pública da capital paranaense, proibiu acampamentos nas cercanias da praça. O alvo de sua decisão foi o MST, que promete levar 20 mil pessoas a Curitiba para protestar a favor de Lula. Contra o "Curitiba contra Corrupção" nenhuma autoridade se insurgiu. “Por que ela não mandou tirar a barraca dos apoiadores antes? Por que só agora?”, questiona Faria. Ele faz questão de afirmar que não tem partido nem preferência política, mas acha que “no Brasil, tudo é muito estranho”.

PM em Curitiba
A torre de observação da PM de Curitiba é a estrela da 'festa'
Até o meio dia, cerca de seis mil moradores e trabalhadores haviam se cadastrado no posto instalado pela Policia Militar. O destaque da operação chama-se Plataforma de Observação Elevada, um caminhão estacionado quase no meio da rua, equipado com uma poderosa lente que vigia tudo e todos que por ali circulam.

Na quarta-feira 10, em um raio de 150 metros da sede da Justiça Federal, apenas funcionários, policiais, moradores cadastrados e jornalistas poderão circular. Num raio mais amplo, de 400 metros, o trânsito será livre para pessoas e veículos cadastrados. Mas esses não poderão se aproximar do edifício onde acontecerá a oitiva de Lula. O comércio poderá funcionar normalmente desde que todos os empregados estejam cadastrados.  

Jaime Moreira, 39 anos, frentista de um posto de gasolina nas imediações, espera com paciência em uma improvisada fila. “Na quarta-feira preciso trabalhar. Não sei o que vai dar isso tudo, mas tomara que não acabe em violência” afirma. Moreira também se diz apolítico. Para ele, a crise econômica que o Brasil enfrenta tirou a esperança de milhões de brasileiros, principalmente os mais pobres. “Não sei se o Lula deve ou não. Isso é com a Justiça. Mas uma coisa é certa: quando ele era presidente, a vida dos pobres era muito melhor” afirmou.

Na praça, os integrantes do movimento Curitiba Contra a Corrupção desmontavam o local que serviu de apoio ao fã clube de Sérgio Moro. “Cumprimos a determinação da juíza” afirma um dos membros da trupe que se nega a dizer o nome. Impossibilitados de permanecer no local e avessos ao contato com a imprensa, os manifestantes devem se reunir no Centro Cívico, nas imediações do Palácio Iguaçu, sede do governo tucano. Para ele, o movimento é vítima da mídia “petista”.

Curitiba
A turma do 'Curitiba contra Corrupção' desmonta seu acampamento

“Noutro dia, uma jornalista da Folha de S.Paulo veio aqui e escreveu uma série de mentiras. A imprensa deturpa para nos prejudicar”. Ele se nega a dar informações ou telefone de contato dos coordenadores do movimento. “A gente deve convocar uma coletiva amanhã, mas nada ainda está definido” murmura, exalando mau humor.

Pelas ruas do bairro o trânsito de moradores é grande. Por necessidade ou curiosidade, as pessoas se aglomeram atentas ao fluxo de policiais e profissionais da imprensa. Amparada pela neta, a professora aposentada Maria Aparecida Hernandes, 70 anos, observa o vai-e-vem dos caminhões de emissoras de televisão que se instalam no terreno próximo a sua casa. Caminha lentamente e fica admirada com tanta tecnologia. “Já estou velha e ando com certa dificuldade. Mas faço questão de observar o movimento das pessoas. Esse é um momento histórico. Só espero que tudo isso não seja em vão” afirmou.