Em 2019, Guedes prometeu ‘choque da energia barata’; agora, ironiza altas na conta de luz

Vencido o prazo da promessa, a realidade é bem diferente. O gás de cozinha subiu quase 14%. Já a conta de luz ficou 7% mais cara

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

Economia,Política

Em 2019, Paulo Guedes prometeu aos brasileiros um ‘choque da energia barata’. Naquele mesmo ano, noutra ocasião, disse que o governo de Jair Bolsonaro reduziria pela metade o preço do gás de cozinha nos próximos dois anos.

 

 

 

“O botijão de gás vai chegar na metade do preço na casa do trabalhador brasileiro. Vamos quebrar esses monopólios e vamos baixar o preço do gás e do petróleo com a competição”, disse Guedes durante a 22ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios.

Em maio de 2019, ao participar de evento do setor de construção civil, insistiu: “Podemos fazer a reindustrialização do Brasil com energia barata e o gás chegar ao lar do brasileiro mais barato”. E mais: “Em 30, 60 dias, vai sair o choque da energia barata”.

Vencido o prazo da promessa, a realidade é bem diferente. O preço do gás de cozinha subiu quase 14% neste primeiro semestre. No acumulado de 12 meses, a alta chega a 29%, segundo o IPCA. A conta de luz subiu, em média, 7%. E pode ficar ainda mais cara: cálculos preliminares da Aneel indicam o risco de as tarifas subirem em média 17% no ano que vem.

Na última quarta, entretanto, Guedes tentou minimizar o impacto da crise hídrica e o aumento na conta de luz. No lançamento da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, o ministro ainda se disse otimista com o crescimento econômico do País.

“Estou muito confiante que nós vamos atravessar. Se no ano passado, que era o caos, nós nos organizamos e atravessamos, por que nós vamos ter medo agora? Quer dizer, qual é o problema agora: que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos? Ou o problema é que está tendo uma exacerbação porque anteciparam as eleições?”, questionou o ministro no lançamento da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, na Câmara dos Deputados. “Tudo bem, vamos tapar os ouvidos e vamos atravessar”.

 

Cálculos preliminares da Aneel indicam o risco de as tarifas subirem em média 17% no ano que vem

 

Nesta quinta, afirmou que sua declaração foi “tirada de contexto”.

“É o que eu disse: ‘nós temos um problema’. E aí? E daí? Como é que nós vamos fazer agora? Aí na mesma hora tem uma primeira página de jornal hoje (com) ‘ministro desconsidera crise hídrica’. Como se eu não estivesse preocupado. Tira completamente de contexto tudo que a gente fala”, disse o ministro.

Em agosto, os consumidores brasileiros estão sob a bandeira vermelha patamar 2, com custo de 9,49 reais para cada 100kWh consumidos. Trata-se da taxa extra mais elevada. Esse valor é 52% superior ao registrado em junho, quando a bandeira vermelha 2 também estava em vigor e custava 6,24 reais a mais a cada 100 kWh.

O gás de cozinha e a versão de Bolsonaro

O botijão de 13 quilos de gás custa em média 93 reais, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, a ANP. Em alguns locais, porém, pode custar mais de 100 reais.

Esse descontrole tarifário não é exatamente recente. Em 2020, o gás de cozinha ficou 9% mais caro, de acordo com o IPCA. O aumento corresponde ao dobro da inflação registrada no ano, fixada em 4,5%. Em comparação, o gás encanado, que costuma ser usado por famílias de maior renda, fechou 2020 com recuo de 1,29%.

Ao falar do assunto neste mês, Bolsonaro recorreu mais uma vez a argumentos simplistas para agradar apoiadores. No dia 11 de agosto, acusou os vendedores de gás de cozinha de se aproveitarem dos mais pobres. “O preço do bujão de gás está 130 reais em média, enquanto na refinaria custa em média 45”, disse, sem mencionar uma série de reajustes no preço de venda do combustível ocorridos durante seu governo.

O presidente voltou ao assunto na última quarta 25, em conversa com apoiadores no ‘cercadinho’ do Alvorada. “A gasolina está barata, o gás de cozinha está barato. O pessoal tem que entender a composição do preço, senão acabam me culpando por tudo o que acontece no Brasil.”

Nas últimas semanas, o presidente têm argumentado que o gás de cozinha e a gasolina — outro item que sufoca as famílias no Brasil — estão baratos porque deixam as refinarias da Petrobras com um preço sensivelmente inferior ao que é cobrado do consumidor final. Sob essa tese, elege como vilão o ICMS e tenta responsabilizar os estados pelo encarecimento.

Trata-se de uma distorção. Um cidadão não compra alimentos direto do produtor – e, portanto, está sujeito ao preço cobrado pelos supermercados -, e não pode comprar gás de cozinha e gasolina diretamente da Petrobras. No acumulado do ano, a gasolina já subiu 51% nas refinarias.

Bolsonaro também repete que zerou o imposto federal sobre o gás de cozinha. Omite, entretanto, que esse corte é ‘compensado’ por outros responsáveis pela composição do preço do item, em especial os reajustes nas refinarias. Como informa a própria Petrobras, 48,2% do valor final corresponde ao preço da estatal, enquanto 36,9% dizem respeito a distribuição e revenda e 14,9% ao ICMS.

Governadores têm reagido às alegações de Bolsonaro. Na terça-feira 24, Camilo Santana (PT), do Ceará, destacou que os mandatários estaduais “não fizeram aumento algum”. O tucano João Doria, de São Paulo, rebateu: “Pior que a incompetência do governo federal em administrar a economia é a tentativa de colocar a população contra os governadores com narrativas mentirosas”.

Nas redes sociais, Doria informou que, ao contrário do que diz Bolsonaro, o ICMS cobrado pelo estado por litro de gasolina é o mesmo desde 2015:

 

 

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