Política

Em 2005, Jair Bolsonaro defendeu na Câmara miliciano morto na Bahia

‘Coitado’ e inocente, disse sobre condenação por homicídio. Em 2003, havia apoiado grupos de extermínio baianos

Foto: Divulgação
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O assassinato do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, cuja mãe e ex-mulher trabalharam para Flávio Bolsonaro no passado, não mereceu comentários de Jair Bolsonaro até a quinta-feira 13. “Não vou conversar nada com vocês”, disse o presidente a jornalistas um dia depois da morte. O ex-capitão da PM já tinha merecido, porém, a defesa entusiasmada de Bolsonaro. Assim como grupos de extermínio da Bahia, onde Adriano morreu a tiros.

A defesa do policial por Bolsonaro foi em 27 de outubro de 2005, quando o hoje presidente era apenas deputado pelo Rio de Janeiro e Adriano, tenente da Polícia Militar do estado. Três dias antes, Adriano havia sido condenado por um tribunal do júri pela participação no assassinato, em 2004, de um flanelinha que na véspera de morrer havia denunciado uns milicianos. Pena: 19 anos de prisão.

Da tribuna da Câmara, Bolsonaro pregou a inocência de Adriano e a anulação do veredicto. “O tenente, coitado, um jovem de vinte e poucos anos, foi condenado, mas não foi ele quem matou”, discursou, conforme registram os anais do Congresso. “Um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar”, na época com 28 anos de idade.

Bolsonaro havia assistido ao julgamento, a primeira vez que estivera em um júri. No discurso na Câmara, reproduziu a versão do advogado do réu, com quem conversara. Disse que o tenente fora condenado por comandar a operação que resultara em um homicídio, mas que o disparo havia sido obra de um sargento. Mais: que a vítima era narcotraficante, não flanelinha.

É provável que Adriano fosse alguém que já naquela época circulasse perto de Bolsonaro e seu clã. O tenente tinha relações com um PM amigo de Bolsonaro desde os anos 1980, Fabricio Queiroz. Este era PM também e conhecera Adriano nos quartéis em 2003.

Jair Bolsonaro. Foto: Alan Santos/PR

Neste mesmo ano, Flávio Bolsonaro era deputado estadual na Assembleia do Rio e propusera uma “menção de louvor” a Adriano por “brilhantismo”. Em junho de 2005, antes do tribunal do júri condenar o então tenente, propusera a ele a Medalha Tiradentes, mais alta honraria da Assembleia.

Bolsonaro já foi publicamente favorável a legalizar milícias. Expressou isso, por exemplo, em uma entrevista em março de 2008, ano em que a Assembleia do Rio tinha uma CPI das Milícias. “O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las”, dissera à BBC.

A morte de Adriano

Adriano morreu na Bahia dia 9 alegadamente em um confronto com a PM baiana e a Polícia Civil do Rio. Há quem suspeite de execução, caso do sociólogo José Cláudio Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio, estudioso de milícias e grupos de extermínio. Para ele, os policiais deveriam ter cercado Adriano e esperado sua rendição. Ele estava sozinho em um sítio.

Em um outro discurso antigo da tribuna da Câmara quando deputado, Bolsonaro defendeu grupos de extermínio da Bahia. Foi em 12 de agosto de 2003, como se vê nos anais do Congresso.

“Quero dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um parlamentar criticar os grupos de extermínio — que enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio”, afirmou.

Por aqueles dias, deputados da Comissão de Direitos Humanos da Câmara haviam ido à Bahia e reunido-se com o então governador do estado, Paulo Souto, do DEM. Estatísticas fornecidas à Comissão pela Assembleia baiana mostravam o aumento de 290% nos crimes cometidos no estado por esses grupos em 10 anos.

A história da visita havia sido contada da tribuna Câmara por um deputado do PT da Bahia na época, Luiz Alberto, hoje sem mandato. “O governador pela primeira vez reconheceu a existência de grupos de extermínio em seu território, denunciada há vários anos por organizações de direitos humanos”, dissera Alberto, conforme os anais do Congresso.

Foi em resposta ao petista que o atual presidente subiu à tribuna em seguida, para oferecer abrigo no Rio a grupos de extermínio baianos.

André Barrocal
Repórter especial de CartaCapital em Brasília

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