Política

Belo Horizonte

Em 100 dias, Alexandre Kalil faz meio de campo entre extremos

por Laura de Las Casas — publicado 10/04/2017 17h35
Neófito na política, prefeito do PHS cultiva relações com movimentos sociais enquanto flerta com setores conservadores da Câmara dos Vereadores
PBH/ Ascom
Posse de Alexandre Kalil

O ex-presidente do Atlético Mineiro tenta conciliar interesses para garantir a governabilidade

“Não quero ser político, quero ser prefeito”. Ao lançar o slogan, em agosto de 2016, o cartola Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético Mineiro, soube como poucos explorar o sentimento de aversão à política que contagiou a população brasileira.

Da vitória no segundo turno das eleições em Belo Horizonte até completar 100 dias à frente da prefeitura, o neófito gestor público, do Partido Humanista da Solidariedade, mantém o balé com movimentos sociais dos quais se aproximou na reta final da campanha, ao mesmo tempo em que flerta com setores conservadores da Câmara dos Vereadores.

Kalil superou o tucano João Leite, ex-goleiro do Galo e deputado estadual de Minas Gerais desde 1995, com 52,9% dos votos válidos. Assim como em São Paulo, os sufrágios recebidos pelo eleito ficaram aquém dos brancos, nulos e abstenções, o que diz muito sobre o desencanto dos mineiros com a política. Desde então, Kalil tenta conciliar interesses díspares para garantir a própria governabilidade.

Em cumprimento a uma promessa de campanha, desistiu de duas ações de reintegração de posse relacionadas à Ocupação Izidora, maior conflito fundiário da América Latina, com 30 mil famílias ameaçadas de remoção. Por outro lado, indicou Léo Burguês, do PSL, para assumir a liderança do governo da Câmara.

O parlamentar tem um extenso histórico de denúncias e condenações por gastos de verba pública em campanha, e chegou a ter o mandato cassado por abuso do poder político e econômico, decisão posteriormente extinta pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais.

“Vemos nessa primeira fase um prefeito a estender a mão para as ocupações, mas responsável, ao mesmo tempo, por uma articulação com setores que contradizem seu discurso avesso à política e à corrupção”, afirma Mara Telles, cientista política e coordenadora do grupo Opinião Política da Universidade Federal de Minas Gerais.

“Kalil vem de um partido desconhecido. Neste momento, ele vai atender a quem o pressionar, como estão fazendo os movimentos sociais, mas essa relação não se sustenta por muito tempo”, diz a cientista política da UFMG. “O atual prefeito produziu durante a campanha uma prática de negação da política que não é conivente com a prática democrática, e agora está aos poucos demonstrando quais serão suas alianças. ”

Atualmente, o prefeito tem quase 100 mil seguidores no Facebook e cerca de 1,1 milhão no Twitter, canais que usa quase diariamente para publicar ações da Prefeitura. 

Para agradar os defensores da redução da máquina pública, Kalil reduziu de 22 para 13 as secretarias de administração das regionais da capital, nomeando técnicos para compor seu secretariado. Desenvolveu, ainda, um projeto de reforma administrativa para ser aprovada pelos vereadores. As iniciativas ainda estão distantes, contudo, de produzir resultados positivos.

O aceno a movimentos populares tem surtido efeito. Militante das Brigadas Populares, movimento atuante na construção da reforma urbana em diversos estados do Brasil, Isabella Golçalves diz que a aproximação com Kalil foi estratégica. “Ao se comprometer com a Izidora, Kalil ganhou milhares de votos de quem já tinha optado pela anulação. Houve, da nossa parte, uma necessidade de estabelecer diálogos amplos em processo de negociação. Não há outro caminho para a luta popular a não ser conciliar práticas de ações diretas com o diálogo”.

Ao anunciar em março a desistência de duas ações de reintegração de posse envolvendo a Izidora, conquistou a simpatia de setores da esquerda. Elas se referem a uma parte da Vila Rosa Leão, de 26 mil metros quadrados, e da comunidade Zilah Sposito-Helena Greco, de 25,1 mil metros quadrados.

O restante do terreno é da família Werneck e de outros empresários e, em termos jurídicos, a qualquer momento a Prefeitura pode entrar com uma nova ação, pois o terreno ainda é da administração municipal. De acordo com Isabella, Kalil se comprometeu a reconhecer o espaço como bairro e não somente abdicar das ações de despejo.

“Estamos cobrando quando as outras ocupações da cidade terão seus compromissos firmados, esse diálogo está muito no início”, diz Isabella. “Temos o plano diretor a ser votado, por exemplo. Algumas obras de remoção ainda continuam igual à gestão passada, até como um compromisso de estado”. Isabella também chama a atenção para outra reivindicação dos movimentos sociais dentro das medidas tomadas recentemente por Kalil. “Nós queremos a participação popular na auditoria das contas da BHTrans”. 

Para Mara Telles, um dos defeitos mais graves do discurso antipolítico proposto por Kalil é a valorização da desconfiança da população quanto às instituições e à democracia. “É muito sério que os partidos tenham fracassado, e é mais sério ainda existirem representantes deste fracasso”, avalia a professora.

Já Isabella chama a atenção para todo o processo que antecedeu as vitórias no campo social durante o governo de Kalil, “nós lutamos quatro anos, fomos mordidos, ameaçados, cercados… a nossa luta não ganhou por ser uma prioridade no governo atual, ela foi vitoriosa pela organização do povo. Se não fosse a rede que a Izidora conseguiu construir em todo esse tempo, muito antes de Kalil existir para a cidade, nem seríamos vistos pelo prefeito”, avalia.