Eleito pelo PSL, governador de SC se afasta do bolsonarismo radical

Novato na política, Comandante Moisés contraria os extremistas e o agronegócio e se aproxima das minorias

Foto: Valter Campanato/ABR

Foto: Valter Campanato/ABR

Política

Como centenas de políticos, Comandante Moisés aproveitou a onda nas eleições de 2018. Neófito na política, coronel da reserva do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, ele mimetizou os gestos – não foram raras as fotos em que imitava uma arma com os dedos – e a agenda moralista de Jair Bolsonaro. Deu certo. Em sua primeira eleição, Moisés, inicialmente cotado para a posição de tesoureiro de campanha, acabou ungido candidato do PSL, produziu um tsunami que afogou lideranças tradicionais e assumiu o comando de um estado rico e com indicadores de desenvolvimento humano bem superiores à média nacional. No segundo turno, passou dos 70% dos votos.

As coisas não são mais as mesmas. Bastaram oito meses de governo Bolsonaro para o cenário mudar radicalmente: as ondas havaianas em um dia de sol de outubro transformaram-se em uma ressaca e atingiram não só o presidente, mas boa parte de seus ventríloquos nos estados. Apesar de novato, Moisés percebeu a mudança climática a tempo. Enquanto o ocupante do Palácio do Planalto redobra as apostas na beligerância e é premiado (aproxima-se de 40% a porção dos brasileiros que consideram seu governo “ruim” ou “péssimo”, segundo a CNT/MDA), o governador de Santa Catarina tenta adaptar-se aos novos tempos.

A conversão à sensatez envolve gestos simples e medidas efetivas que confrontam o ideário bolsonarista. Comecemos pela mais singela. Em recente entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o governador chamou de “sandice” o gesto da arma, marca registrada do ex-capitão e repetida incansavelmente pelo próprio Moisés durante a corrida eleitoral. É o de menos. Sob o comando de Tereza Cristina, a “musa do veneno”, o Ministério da Agricultura liberou mais de 300 agrotóxicos. Os produtores rurais catarinenses não têm, porém, muito a comemorar. Na contramão, Moisés suspendeu os benefícios do ICMS sobre pesticidas e estabeleceu uma alíquota de 17% na comercialização dos produtos. “Aplicar a isenção sobre o agrotóxico é uma excrescência política, uma irresponsabilidade. Qualquer um que raciocine um pouco, que saia do padrão mediano, vai entender que não se pode incentivar o seu uso”, explicou-se.

O agronegócio local reagiu furibundo. Uma carta aberta da Federação da Agricultura de Santa Catarina afirmou: “Esse discurso (de proibir o uso do agrotóxico) é próprio de quem não tem a mínima noção do que vem a ser a atividade agrícola”. Ainda segundo os produtores, a medida contribuiria para a alta dos preços e a redução da produtividade. O governador não se fez de rogado. Para suprir a demanda e enfrentar a ameaça de boicote dos grandes fazendeiros, iria incentivar os produtos orgânicos e a agricultura familiar, normalmente associada ao MST. “Se precisar buscar em casa o produtor do orgânico, eu vou.”

O governador Comandante Moisés se diferencia da horda (Foto: Divulgação)

Para descontentamento do empresariado e da base extremista, o governador, antes do enfrentamento, havia recebido em seu gabinete uma comissão do MST. Não foi o único gesto em direção às minorias. Moisés abriu as portas do Palácio Cruz e Souza a índios e defensoras da diversidade de gênero. “Para mim, são pautas tranquilas. Antes de ser governador, comprava artesanato indígena, hortaliças sem agrotóxicos e aceitava pessoas com orientação sexual diferente da minha. Por que vou mudar agora?”

O estilo, somado à pouca experiência e uma base aliada diminuta, seis parlamentares em um universo de 40, tem dificultado seu relacionamento com a Assembleia Legislativa. Não bastasse, o governador enfrenta uma dura oposição no próprio partido. Por conta do “fogo amigo”, Moisés pediu à direção estadual a expulsão de dois parlamentares, Ana Campagnolo e Jessé Lopes, “bolsonaristas puros” que se referem ao Comandante como “traidor”.

Na prática, Moisés tenta ocupar o vácuo e se consolidar como uma influente e longeva liderança política do estado. Ao impor seu estilo ao PSL, o ex-bombeiro aproxima-se de setores menos radicais, a fim de preparar o terreno para as eleições municipais de 2020. Um de seus neoaliados é o vereador Tiago Silva, ex-MDB, especialista em Direito do Consumidor e atualmente sem partido. Filho do ministro Jorge Mussi, do STJ e TSE, Silva renunciou à vaga na Câmara Municipal para assumir a direção estadual do Procon. Silva seria o candidato do governador na disputa pela prefeitura de Florianópolis. Além do trabalho em defesa do consumidor, o ex-vereador é militante ativo do movimento LGBT e um dos primeiros organizadores da Parada Gay na capital catarinense. Para os padrões morais e éticos do bolsonarismo, Moisés talvez tenha passado dos limites em suas alianças políticas.

Mudança de legenda é uma aposta

Dependente de recursos federais, o governador é cuidadoso ao falar do “muso inspirador”, Bolsonaro. Segundo ele, ainda é cedo para decretar o fracasso do governo. O ex-capitão, diz, não seria extremista ou “de direita”, mas um político “de personalidade forte, muitas vezes mal compreendido”. Essa condescendência não deve prolongar sua vida no partido. O mundo político catarinense aposta em uma mudança de legenda mais cedo ou mais tarde. Comandante Moisés, avalia um empresário local, teria um perfil mais afeito ao PSDB ou ao PSD de Gilberto Kassab – o que poderia dar na mesma, pois as duas agremiações e o DEM negociam uma fusão.

Ter pulado de uma onda a outra desagrada ao núcleo duro bolsonarista, mas, aparentemente, não produziu danos na prancha de surfe de Moisés. Uma das raras pesquisas de avaliação do governo catarinense, realizada em abril pelo Instituto Mapa, registrava um índice de 55% de apoio. A baixa estridência da oposição também indica a dificuldade de se combaterem as ideias e os projetos do Comandante. O novato mostrou-se até agora mais esperto do que se imaginava.

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