Política
Eleições no Pará: continuidade ou alternância no poder?
Hana Ghassan, do MDB, é a candidata de Helder Barbalho. Ex-aliado do governador, Daniel Santos (Podemos) aposta no discurso de mudança
Por Carlos Augusto da Silva Souza*
As eleições de 2026 no Pará deverão ocorrer em um contexto de sucessão política, após quase uma década de predominância do grupo liderado por Helder Barbalho. A disputa tende a representar não apenas a escolha de um novo governador, mas também um processo de reorganização do sistema político estadual, colocando em confronto a continuidade da atual coalizão governista e a tentativa de construção de uma alternativa de oposição.
Embora existam formalmente outras candidaturas, a disputa pelo Governo do Pará concentra-se, até o momento, entre Hana Ghassan, do MDB, e Daniel Santos, do Podemos. Ghassan representa a continuidade do grupo político liderado por Helder Barbalho, enquanto Daniel Santos se consolidou como o principal nome da oposição. Pesquisas recentes indicam um cenário ainda marcado pela indefinição, com equilíbrio entre os principais candidatos e um número significativo de eleitores sem preferência consolidada, o que demonstra que a disputa permanece aberta.
A candidatura de Hana Ghassan possui uma característica particular: sua trajetória política foi construída principalmente a partir da gestão pública e da ocupação de cargos estratégicos na administração estadual. Com experiência nas áreas de planejamento, administração e finanças, exerceu funções importantes nas administrações de Belém e Ananindeua e, posteriormente, comandou a Secretaria de Estado de Planejamento e Administração. Em 2022, foi escolhida para compor a chapa de Helder Barbalho como candidata a vice-governadora.
Sua candidatura está diretamente vinculada à estratégia de continuidade do grupo governista. O apoio do MDB e da ampla coalizão construída durante os governos de Helder Barbalho constitui um de seus principais ativos. A estrutura partidária, a presença de prefeitos e lideranças municipais e a capilaridade política no interior do estado oferecem vantagens importantes para sua campanha. Além disso, Hana Ghassan poderá associar sua imagem à continuidade das políticas e resultados da atual administração.
Por outro lado, sua reduzida experiência em disputas eleitorais diretas representa um desafio. Sua eleição para a vice-governadoria ocorreu em uma chapa liderada por Barbalho, cuja popularidade e capacidade de mobilização foram fundamentais para o resultado. Em 2026, Ghassan precisará demonstrar capacidade de construir uma identidade política própria e transformar o capital político do atual governo em apoio pessoal à sua candidatura. A eleição será, portanto, um teste para verificar até que ponto a popularidade do governo pode ser transferida para sua sucessora.
Ex-aliado, agora adversário
Daniel Santos, por sua vez, apresenta uma trajetória distinta, construída diretamente por meio das urnas. Sua carreira política começou em 2012, com a eleição para vereador de Ananindeua. Em 2016, reelegeu-se como o candidato mais votado do município e, em 2018, alcançou a maior votação para deputado estadual no Pará. Posteriormente, filiou-se ao MDB e passou a integrar a base política de Helder Barbalho.
Em 2020, Santos foi eleito prefeito de Ananindeua com o apoio do grupo governista. O rompimento posterior com Barbalho modificou sua posição política. Em 2024, já afastado da antiga aliança, reelegeu-se prefeito com votação expressiva, fortalecendo seu capital político e consolidando-se como uma das principais lideranças de oposição no estado.
Sua ascensão como candidato ao governo resulta menos de uma divisão estritamente ideológica e mais de um processo de realinhamento político. A aproximação com partidos e lideranças da direita pode ser interpretada como parte da estratégia de construção de uma ampla coalizão contra o grupo governista. Dessa forma, a principal divisão da disputa estadual tende a ocorrer menos entre esquerda e direita e mais entre governo e oposição, continuidade e alternância de poder.
Santos enfrenta, porém, desafios importantes. Embora possua forte liderança em Ananindeua e na Região Metropolitana de Belém, sua principal tarefa será transformar esse capital eleitoral regional em uma liderança efetivamente estadual. Enquanto o grupo governista possui uma ampla rede de alianças e presença significativa no interior do Pará, ele precisa construir uma estrutura capaz de competir nas diferentes regiões do estado.
Desequilíbrio na disputa
A assimetria entre as coalizões também constitui uma dificuldade para a candidatura oposicionista. Hana Ghassan tende a herdar uma estrutura política consolidada, envolvendo partidos, prefeitos, parlamentares e lideranças municipais. Santos, por sua vez, precisa ampliar sua base de apoio e reunir diferentes forças políticas em torno de uma candidatura comum.
Nesse cenário, a eleição de 2026 tende a assumir características fortemente personalizadas. De um lado, Ghassan representa a continuidade de um grupo político consolidado e de uma administração que acumulou significativa estrutura institucional e territorial. De outro procura apresentar-se como a principal alternativa de mudança e alternância no poder estadual.
As conexões com a política nacional também deverão estar presentes. Ghassan tende a manter proximidade com o campo político associado ao governo Lula, enquanto Daniel Santos buscará apoio entre segmentos conservadores e setores identificados com o bolsonarismo. Ainda assim, esses alinhamentos provavelmente atuarão mais como referências para a formação de alianças do que como únicos determinantes do voto, uma vez que a política paraense é fortemente influenciada por lideranças regionais, redes municipais e dinâmicas territoriais.
Assim, o resultado da eleição poderá representar, portanto, um importante momento de reorganização da política paraense, colocando em confronto dois projetos distintos: a continuidade de uma estrutura política consolidada e a tentativa de construção de uma alternativa baseada na alternância de poder.
* Professor titular do curso de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará.
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