É preciso tirar do ar quem espalha fake news, diz especialista

Para Patrícia Rossini, todas as pessoas que saem das plataformas perdem alcance

Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro. Foto: Reprodução

Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro. Foto: Reprodução

Política

Cerca de seis em cada dez brasileiros usam o WhatsApp e oito em cada dez têm conta no Facebook. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, controlar a enxurrada de conteúdo – e de desinformação – será um desafio para as eleições de 2022.

Para a professora e pesquisadora Patrícia Rossini, do Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, apenas a checagem do que é publicado nas redes sociais como tática de combate à desinformação não é o suficiente. “Cancelar contas da plataforma, tirar do ar quem espalha desinformação, isso me parece – pelo menos foi nos EUA – bastante eficaz. Todas as pessoas que saíram das plataformas perderam muito o alcance”, disse Patrícia, que acompanhou as duas últimas eleições presidenciais americanas e seu comportamento nas redes.

Existem particularidades do Brasil em relação ao consumo e difusão de notícias?

Uma tendência que a gente observa no Brasil é o crescente uso de WhatsApp como fonte de informação. Hoje, no Brasil, Facebook e WhatsApp são usados numa intensidade muito similar para o consumo de notícias, o que é algo bastante particular do Brasil. Eu me pergunto muito o que as pessoas consideram notícia.

Vimos publicações de Donald Trump serem censuradas. É possível uma reação parecida aqui?

Acho que é possível esperar uma reação mais enérgica durante o período eleitoral, em virtude de uma relação preexistente entre o Tribunal Superior Eleitoral e essas empresas. O custo para a democracia, para as instituições e para o próximo processo eleitoral é muito grande. E há o custo de não agir. O custo da inação, em termos de opinião pública, talvez seja mais alto. Ao mesmo tempo, isso não aconteceu ainda fora dos Estados Unidos, uma intervenção mais enérgica das plataformas.

 

Mas houve alguma mudança a partir da pandemia, não?

Sim. Porque qualquer coisa que você postar que tenha qualquer palavra que eles identifiquem como relacionada à covid, já há alguma informação que te manda o link de órgãos oficiais. Mas, em relação ao discurso político, a tendência dessas plataformas tem sido menos enérgica.

No Twitter, o perfil do deputado Osmar Terra (MDB-RS), por exemplo, divulga desinformação sobre a pandemia do novo coronavírus e a plataforma faz muito pouco para conter.

De maneira geral, as plataformas são muito pouco eficazes no combate à desinformação, e até mesmo na aplicação das próprias regras de moderação fora da língua inglesa. Não há escala nas plataformas para lidar com o volume de desinformação que circula fora da língua inglesa. O Twitter já entendeu que é melhor você tentar coibir o alcance. Tirar recursos como RT (retuíte), reply (resposta dada a um tuíte), eles já entenderam que isso é possível. Não entendo como isso não é feito de forma mais enérgica com usuários com muitos seguidores. Tenho alguma crença de que o que aconteceu nos EUA serviu como um alerta de que é preciso agir mais rápido e, talvez, de forma preventiva. Mas não sei se isso se transferiria para um pleito eleitoral fora dos EUA.

Isso parece preocupante, se pensarmos no volume de usuários do Facebook e do WhatsApp no Brasil.

Se alguém for atuar de forma mais rígida na eleição, imagino que seja o Facebook. O WhatsApp, sei que eles tentam trabalhar de forma próxima a governos e a órgãos de controle, como TSE, e há uma tentativa de identificar mau uso (da plataforma). A questão do WhatsApp acho que é mais complexa. Enquanto o Facebook poderia, preventivamente, dar informação correta sobre as eleições, mandar para o site do TSE, o WhatsApp não tem acesso a esse conteúdo.

Qual a importância desse posicionamento para as eleições no Brasil?

A gente gostaria de acreditar que é importante que você tenha plataformas com combate à desinformação, direcionando pessoas para fontes de informação que são críveis, relevantes e confiáveis. O problema é: é confiável para quem? Porque você pode mandar para o site do TSE, mas a pessoa precisa confiar no TSE. E se ela não confia?

Como lidar com isso?

Se houver um combate um pouco mais contundente, talvez seja possível. Cancelar contas da plataforma, tirar do ar quem espalha desinformação. Porque isso me parece – pelo menos foi nos EUA – ser bastante eficaz. Todas as pessoas que saíram das plataformas perderam muito o alcance. Tanto é que Trump teve uma tentativa de criar o próprio blog e desistiu porque tinha um alcance muito pequeno. No Brasil, é bastante clara a divisão entre quem confia no governo, no presidente e em seus seguidores que, de propósito, estão seguindo a cartilha de Trump, colocando questionamento sobre a validade das eleições. Se Osmar Terra sair do Twitter, é possível, sim, que isso tenha um efeito maior. Porque essas pessoas caem no esquecimento se elas saem das plataformas.

Por que apenas a checagem de notícias pode não ser suficiente?

É um assunto problemático. As evidências científicas que nós temos mostram que o que a gente tem sobre eficácia de correção, seja correção por algoritmo, filtro, fact checking, são evidências mistas. Porque elas podem funcionar, mas funcionam para algumas pessoas, não para outras. Tem uma pesquisa que a indiana Sumitra Badrinathan fez, tentando mostrar como identificar desinformação no WhatsApp. Um mês depois, ela foi ver se as pessoas tinham aprendido, se eram capazes de identificar, e nada. Não adiantou absolutamente nada ter passado uma hora com uma série de participantes explicando para eles. O que ela encontrou é que, para a população em geral, os resultados não são nem melhores, nem piores. Mas, para as pessoas pró-governo, piorou. Ao longo do tempo, eles se tornaram menos capazes, após a intervenção, de identificar desinformação. É isso, são remédios que funcionam, mas não funcionam para todo mundo.

Tivemos, recentemente, a suspensão da conta do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), mas a decisão foi revista pelo próprio Facebook, que disse ter havido um “equívoco”. Falta transparência nas decisões por parte das plataformas?

Sem dúvida. Elas parecem, na maior parte do tempo, arbitrárias. Todas essas empresas, Facebook, Twitter, tendem a ser muito resistentes a agir contra conteúdo político de desinformação. Porque elas não querem ser acusadas de ser enviesadas. Eles sabem que, ao suspender ou banir Eduardo, vai dar muito problema.

Qual o seu maior receio para 2022?

O que me preocupa mais, no caso brasileiro, é para onde os usuários vão. Twitter, Facebook e WhatsApp estão sob escrutínio há algum tempo e, portanto, estão um pouco mais preparadas para lidar com demandas da Justiça Eleitoral. E nisso há a migração para o Telegram. No Telegram, vale tudo. São grupos de até 200 mil pessoas, um número absurdo. Preocupam essas outras plataformas, que poderiam se tornar perigosas nas eleições.

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