Política
E ainda atacam a Lei Rouanet
Deputados bolsonaristas destinam milhões de reais em emendas a projetos opacos do judoca Tiago Camilo
Medalhista olímpico, o judoca Tiago Camilo criou em 2012 uma ONG com o objetivo de ensinar o esporte a crianças carentes em áreas periféricas. Durante quase uma década o projeto caminhou a passos lentos. Até maio de 2021, a fundação, que leva o nome do atleta, se restringia ao bairro de Paraisópolis, em São Paulo, com capacidade para receber, no máximo, 300 menores em condição de risco. A situação mudou na segunda metade do mandato de Jair Bolsonaro. Em 2021, numa reunião, em Brasília, do atleta com o então presidente e o filho dele, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, abriu-se o baú da felicidade para a fundação. No ano seguinte, o instituto foi autorizado, pelo Ministério da Cidadania, a captar 6 milhões de reais por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte. No mesmo período, Eduardo e o colega Diego Garcia, filiado ao Republicanos do Paraná, começaram a destinar emendas parlamentares à entidade. Em 2023, outros parlamentares se somaram ao esforço e carimbaram um total de 7,5 milhões de reais para a abertura de escolas de judô em vários estados. Nikolas Ferreira (PL-MG), Mário Frias (PL-SP), Bia Kicis (PL-DF), General Girão (PL-PR), Luiz Lima (Novo-RJ), Amália Barros (PL-MT) e Roberta Roma (PL-BA), a fina flor do bolsonarismo, formam a “bancada de Camilo”. Os repasses pavimentaram o crescimento exponencial do projeto, presente hoje em 24 municípios de 12 estados.
O instituto alega ter “impactado a vida” de mais de 30 mil brasileiros, seja lá o que a frase signifique, e diz atender atualmente 3.791 crianças. Apesar da propaganda inspirada em manuais de autoajuda, a taxa de ocupação nos centros esportivos não chega, porém, a 65% das vagas disponíveis. Em São Paulo, dos 1,5 mil lugares oferecidos em cinco CEUs da capital paulista, há 957 alunos inscritos. Nem por isso Eduardo Bolsonaro reavaliou o tamanho e a eficiência de sua generosidade. Entre 2023 e 2024, o parlamentar empenhou 1 milhão de reais para a instituição. O apoio só foi suspenso após o Supremo Tribunal Federal proibir a liberação das emendas do parlamentar faltoso, autoexilado nos Estados Unidos e, portanto, em descumprimento do mandato legislativo.
O relatório das unidades do Paraná, onde foram instalados cinco centros, aponta 596 “judocas no tatame”, termo vago que não indica se os alunos ainda frequentam o curso ou se apenas assistiram temporariamente às aulas. Ainda assim, o deputado Diego Garcia voltou a destinar emendas para a ONG no valor de 600 mil reais. A reportagem solicitou informações ao Instituto Tiago Camilo sobre a capacidade de alunos em cada polo, mas não obteve resposta.
O número de alunos de judô é bem menor do que as vagas ofertadas
Em Minas Gerais, os 700 mil reais repassados por Nikolas Ferreira foram direcionados a duas unidades, uma em Belo Horizonte, que recebeu 340 mil, e outra em Montes Claros, no norte do estado, com 360 mil reais. Em vídeo publicado nas redes sociais durante a inauguração do dojô na capital mineira, Ferreira afirmou que o projeto atenderia 310 alunos, mas se esqueceu de esclarecer que em BH seriam 150 ao todo. Embora o número de vagas seja limitado, no fim do ano passado, somente 90 alunos estavam matriculados.
A gestão financeiro-administrativa do instituto é um tanto caótica. Apesar de ser uma entidade sem fins lucrativos, a fundação pagou mais caro pelos materiais de treinamento. Durante a inauguração do centro em Montes Claros, a fabricante de quimonos Dragão, que tem Tiago Camilo como garoto-propaganda, comemorou o uso de seus uniformes pelos alunos do projeto social. No site da empresa, o kit com quimono e faixa custa 165 reais, mas a ONG desembolsou 235 por conjunto. Na prestação de contas anual de 2024, última disponível no site, o instituto informa que a principal despesa se refere às fardas entregues às crianças. Foram 1,45 milhão de reais empregados na aquisição de, aproximadamente, 3,6 mil quimonos, 4,8 mil camisetas, 3,6 mil faixas e 1,2 mil mochilas.
Conexão. O encontro com Jair Bolsonaro, então na Presidência, e Eduardo abriu as portas e janelas para o empreendimento do atleta – Imagem: Redes Sociais
A respeito da fiscalização das atividades da ONG, o deputado Nikolas, que reservou, via emendas, quase 600 mil reais à iniciativa neste ano, desconversou. “Nossa equipe se desloca até o local previsto para o desenrolar do projeto e faz questão de participar inclusive de sua inauguração, mas como os recursos (material e pessoal) são escassos, não é possível fiscalizar in loco todos os dias e para isso contamos com parceiros que desempenham esta função, quando necessário.” Segundo o parlamentar, a fiscalização e a checagem antecipada das condições de execução do projeto cabem à União, por meio do Ministério do Esporte. A pasta limitou-se, por sua vez, a ensinar o passo a passo da consulta às informações referentes às emendas parlamentares na base de dados públicos oficiais do governo federal.
Parte dos materiais adquiridos pelo instituto é produzida pelo próprio Tiago Camilo, entre eles o livro de atividades As Aventuras do Tiaguinho, por 59,90 reais a unidade. Outro item são os quebra-cabeças gigantes personalizados, ao custo unitário de 350 reais – em um total de 8 a 16 para cada estado.
Sem as emendas parlamentares, o projeto do judoca teria sofrido um ippon da realidade. Dois anos atrás, dos 6,4 milhões de reais arrecadados pelo instituto, meros 236 mil tiveram origem em doações individuais ou de empresas. Apesar da dependência do dinheiro público, “do seu, do meu, do nosso”, a instituição jacta-se de trabalhar “com planejamento contínuo para garantir a manutenção das atividades, buscando diversificação de fontes de financiamento, parcerias privadas e novos apoiadores, de modo a assegurar a sustentabilidade dos polos já existentes”.
O instituto paga mais pelos materiais do que os fornecedores cobram na praça
O volume das verbas de emendas parlamentares e sua fiscalização não é um debate recente. O caso do Instituto Leo Moura Sports, campeão de emendas parlamentares entre 2020 e 2022, ao receber 45 milhões de reais, foi emblemático. Após uma série de denúncias, a Controladoria-Geral da União fiscalizou as contas do projeto do ex-lateral do Flamengo, coincidência ou não, um bolsonarista empedernido como Tiago Camilo, e apontou superfaturamento de 778,9 mil reais em aquisição de materiais, locações e contratações de serviços, e de 1,91 milhão em não comprovação dos quantitativos dos itens e das prestações de serviços.
Para Rafael Barros Barbosa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, os recursos destinados por emendas estão fora dos padrões internacionais. “Em nenhum outro lugar do mundo se tem um volume tão significativo de recursos destinados a esse tipo de emenda.” O volume das verbas disponíveis, prossegue, gera novos problemas. “Uma vez que a quantia é grande e os deputados e senadores têm liberdade para alocar o dinheiro para onde eles desejam ou acham mais importante, esse recurso se pulveriza muito e dificulta a fiscalização. Tivemos casos em que práticas de corrupção foram identificadas e, quando os deputados são questionados a respeito, eles respondem que apenas destinam os recursos, não fazem a fiscalização.” Neste ano, o Congresso terá o poder de decidir a aplicação de 61 bilhões de reais do orçamento federal. Do total, 38,7 bilhões são de emendas impositivas, ou seja, o governo, mesmo a contragosto, é obrigado a executar no ano corrente. •
Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘E ainda atacam a Lei Rouanet’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



