Duvivier: Dos 50 tons de antipetismo, o Brasil escolheu o ditatorial

Política

Em entrevista à RFI, humorista define Jair Bolsonaro como “um clown um pouco escatológico”

Conhecido por seu humor sarcástico, Gregório Duvivier também tem se destacado por suas declarações políticas, se posicionando claramente contra Jair Bolsonaro. De passagem por Paris, onde divulga seu trabalho, o humorista, roteirista e escritor fala do presidenciável como um “clown um pouco escatológico”, que conquistou parte da população brasileira com um discurso no qual o eleitor se reconhece.

Entre o Greg News na HBO e os esquetes da série Portas do Fundos no Youtube, a carreira de Duvivier é marcada pela ironia. Mas quando o assunto é política, o humorista muda de tom. “A gente diz que o Brasil é o país da piada pronta, mas, na verdade, é o país da tragédia pronta”, afirma o carioca.

Duvivier não poupa críticas a Bolsonaro, mas conhece que seria simplista resumir sua vantagem na corrida presidencial apenas a uma aversão ao Partido dos Trabalhadores.

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“Não dá para atribuir (os resultados do) Bolsonaro só ao antipetismo, porque tinha vários candidatos antipetistas: o Amôedo, que é liberal, a Marina que é mais ecologista…Tinha 50 tons de antipetismo e não é por acaso que a população escolheu o tom ditatorial, autoritário e fascista”, avança.

Segundo o carioca, Bolsonaro “sintetiza os anseios da população”. “Ele tem cristandade encarnada – pois disse que vai acabar com o Estado laico –, tem o militarismo e uma espécie de higienismo em relação à corrupção. O que a gente sabe que é uma falácia”, denuncia.

Para o humorista, esses três eixos alimentaram a estratégia de campanha. “Ele atinge uma maioria com instrumentos que a esquerda não sabe usar. A campanha do PT nesse sentido foi muito arcaica. Não usou bem as redes, mas também não usou bem o humor. Eu sei que é triste ver isso, mas a campanha dele talvez tenha mais humor do que as campanhas de esquerda”.

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População se identifica com discurso de Bolsonaro

Para Duvivier, além da rejeição que os eleitores de Bolsonaro possam ter do partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, existe um “conservadorismo da sociedade brasileira”, que se identifica com algumas declarações do candidato do PSL.

“Demoramos muito a entender que quando a gente xinga ele de homofóbico e machista, grande parcela da população diz: somos mesmo”, analisa.

Além disso, Duvivier reconhece que Bolsonaro ganhou adeptos por seu carisma, com uma personalidade que poderia ser comparada a um clown. “Ele tem um poder clownesco, assim como o Trump. É como o bufão, aquele clown um pouco escatológico, meio nojento, mas pelo qual as pessoas desenvolvem certo carinho”, tenta explicar.

Para o humorista, essas características possibilitaram a Bolsonaro um diálogo com a população muito mais direto do que os candidatos de esquerda. “As pessoas dizem: ele fala e a gente entende. Parece, inclusive, com a identificação que o Lula tinha. E a esquerda não soube criar um novo líder popular como o Lula, infelizmente”, finaliza.

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