Documentos apontam que Ministério da Saúde abasteceu Manaus com cloroquina

Cidade seria 'laboratório' da imunidade de rebanho; ao menos cinco pessoas morreram ao nebulizar o fármaco

Sem oxigênio, pacientes morreram na capital do Amazonas. Foto: Michael DANTAS/AFP

Sem oxigênio, pacientes morreram na capital do Amazonas. Foto: Michael DANTAS/AFP

Política,Saúde

Documentos enviados pela prefeitura de Manaus à CPI da Covid e obtidos por CartaCapital apontam reiteradas solicitações de “kit Covid” pela nova gestão que assumiu em janeiro deste ano.

CartaCapital teve acesso a troca de 12 correspondências entre a Secretaria Municipal de Saúde e o Ministério da Saúde em que são solicitados medicamentos, repasses, agentes de saúde e outras demandas até o dia 3 de abril, data em que a prefeitura encaminhou o ofício à CPI.

Dos 12 ofícios, ao menos em quatro há solicitações do chamado “kit Covid”, composto por cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. Também em resposta à CPI, a prefeitura admitiu que autorizou os médicos a prescreverem da forma como preferissem o kit, pois a decisão estaria ancorada no Conselho Federal de Medicina.

 

 

 

O primeiro pedido ocorreu em 25 de abril, no ofício 0830/2020 encaminhado a Nelson Teich – à época ministro da Saúde -, em que foram solicitados 40 mil comprimidos de hidroxicloroquina (320 mil reais); 33 mil de azitromicina (300 mil reais); 40 mil ivermectina  (56 mil reais); 67 mil de tamiflu (100 mil reais); 33 mil de vitamina C (19,8 mil reais); além de vitaminas D e Zinco. Ao todo, o valor era 2,8 milhões de reais.

Em setembro, um outro ofício, de número 2.169/2020, foi enviado ao general Eduardo Pazuello e constava os seguintes pedidos: 420 mil comprimidos de ivermectina, 516 mil de azitromicina e 618 mil de tamiflu .

Depois disso, em 6 de janeiro, dois novos documentos ofícios foram destinados ao Ministério pela Secretaria Municipal em que se solicitava o envio de 150 mil comprimidos de hidroxicloroquina. Na oportunidade, a pasta informou que o uso mensal estaria em 55 mil unidades e, por isso, o estoque estaria no fim. A prefeitura retificou o pedido e solicitou 10 mil comprimidos.

 

Em 22 de janeiro, o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos do Ministério da Saúde, Hélio Angotti Neto, respondeu ao pedido.

“Em atendimento à demanda da Secretaria Municipal de Saúde, esclarecemos que foi providenciado o envio do quantitativo de 10 mil comprimidos de hidroxicloroquina e 250 mil cápsulas de Fosfato de Oseltamivir (tamiflu) no total de R$ 1,25 milhão”.

Já em resposta ao ofício 192/2021 do senador Omar Aziz, a prefeitura admite que liberou a prescrição do “kit Covid” aos médicos da rede pública.

“Ensaios clínicos foram planejados e investigados, além de outros que estão em andamento para investigar se os medicamentos usados para influenza, HIV e outros vírus e também anti-helmínticos (ivermectina, nitazoxanida, niclosamida) e antimaláricos (cloroquina, hidroxicloroquina) mostrariam na atividade antiviral em ensaios in vitro seriam eficazes e seguros para Covid-19. Não obstante a ausência de evidências da eficácia clínica, esses medicamentos são amplamente utilizados fora dos ensaios clínicos (off label) para profilaxia e tratamento dessa infecção viral, não apenas no Brasil mas em todo o mundo”, diz o ofício.

 

Colapso e falta de oxigênio

Manaus está no centro das investigações da CPI da Covid por ter sofrido com a falta de oxigênio e por ter sido uma espécie de “laboratório” do governo federal para testar a imunidade de rebanho.

Ao menos cinco pessoas morreram na cidade, incluindo um bebê prematuro, depois de nebulizar cloroquina. Em um dos casos, uma grávida foi filmada propagandeando o uso da cloroquina a pedido da médica Michele Chester. Dias depois, a paciente faleceu.

Para convencer os pacientes, a profissional de saúde dizia que a administração do medicamento era apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro. O vídeo foi compartilhado pelo ministro Onyx Lorenzoni.

Sobre a crise do oxigênio, a prefeitura esclareceu que é responsável por apenas uma unidade de saúde e que a questão seria de total responsabilidade do governo do Amazonas.

“Não obstante o município de Manaus não estar habilitado para gestão plena em saúde, o que inclui a média e a alta complexidade, possui uma única unidade hospitalar sob sua gestão, que é a Maternidade Dr. Moura Tapajóz, serviço de urgência e emergência de média complexidade, que presta assistência hospitalar à mulher no período da gravidez, parto e puerpério, bem como ao recém-nascido. Porém, o serviço de oxigênio contratado (encanado) não sofreu nenhuma paralisação, no período crítico da falta ou escassez de fornecimento de oxigênio, ocorrido em Manaus, neste ano de 2021”.

CartaCapital tentou contato com os envolvidos, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.

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Repórter da revista CartaCapital

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