Política
DNA subalterno
Lula defende a soberania na exploração de terras-raras, mas enfrenta oposição até no próprio governo
O presidente Lula decola para a Índia na terça-feira de carnaval. Em sua passagem por lá, o Brasil fechará um acordo com os anfitriões sobre minerais críticos, difíceis de encontrar na natureza e cada vez mais valiosos diante das demandas tecnológicas e da disputa geopolítica. As reservas de ambos os países estão entre as maiores do planeta. No caso das terras-raras, um tipo especial desses minerais, só perdem da China, para desespero dos Estados Unidos. Na visita do petista a Donald Trump negociada para ocorrer talvez em março, é bem provável que o tema surja nas conversas, por iniciativa norte-americana. O republicano acaba de lançar um pacote de 12 bilhões de dólares em busca de fornecedores cativos de minerais estratégico aos EUA. Condição do Projeto Vault, ou “Cofre”: quem quiser dinheiro, tem de ficar longe dos chineses, donos das principais reservas e da maior capacidade industrial no setor.
O Brasil foi convidado para a reunião de lançamento do Vault e mandou um enviado diplomático de baixo escalão, apenas para observar. Não deseja atrelar-se a um parceiro específico. A ordem no governo é negociar com todas as nações interessadas, e de forma bilateral, a fim de estar em melhor posição para obter vantagens. O acordo com a Índia encaixa-se nessa premissa. Idem o pacto comercial entre Mercosul e União Europeia, embora nesse caso haja, sim, atrelamento. Os europeus pagarão a metade da tarifa que vier a ser cobrada de outros importadores, porcentual limitado a no máximo 25%, caso o imposto definido pelo Brasil fique acima dos 50%. Uma taxa destinada a inibir a venda em estado bruto. “Não vamos ser exportadores dos minerais críticos. Se quiser, vai ter que industrializar no nosso país, para que o nosso país possa ganhar esse dinheiro”, declarou Lula em novembro, em Moçambique. É uma tentativa de não repetir erros passados, comenta um colaborador presidencial. Não se tornar mero fornecedor de matéria-prima cobiçada, como a cana-de-açúcar de antes e o minério de ferro de hoje.
Forças distintas se unem para manter a sina brasileira de exportar matéria-prima
Enquanto Lula se ocupa desse jogo sofisticado, a vida no mundo real no Brasil segue um curso diferente. Inclusive no próprio governo. Os planos desenhados no Ministério de Minas e Energia privilegiam as vontades do setor privado, e este tem aquela preferência de sempre: produzir o que é mais fácil e lucrativo, ou seja, matéria-prima, nada que requeira esforço industrial. A lei mais perto de ser votada no Congresso para instituir uma Política Nacional de Minerais Críticos obedece a essa lógica. A Embaixada dos EUA articula-se com o empresariado local nas barbas do Palácio do Planalto. A do Brasil em Riad, capital da Arábia Saudita, faz coisa parecida. O governador de um dos três estados mais importantes em reservas minerais, Ronaldo Caiado, de Goiás, negocia diretamente com Washington. E há ainda uma dissonância com Lula em outra dimensão, nas repartições públicas que deveriam estimular o funcionamento do setor. A Agência Nacional de Mineração tem poucos recursos e está capturada pela visão privada. O Serviço Geológico do Brasil é impregnado de bolsonaristas.
Em 2022, Jair Bolsonaro criou o Conselho Nacional de Política Mineral para assessorar a Presidência. O órgão foi reformulado por Lula no fim do ano passado. É composto de ministros, representantes de estados, prefeituras, setor privado e academia. Seu comandante é o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Após a instalação, em outubro, foi criado um grupo de trabalho para “minerais críticos”. Um relatório parcial do grupo acaba de ficar pronto. E o que se viu, segundo relatos feitos à reportagem, reflete inteiramente a visão empresarial. Nada sobre desenvolvimento nacional. Na segunda-feira 9, houve uma reunião na Casa Civil para discutir uma revisão do documento. Decidiu-se brigar pela inclusão de ao menos três pontos: admitir a existência de alguma empresa estatal, permitir o uso do imposto de exportação para inibir a venda de minerais em estado bruto e instituir um comitê de análise de investimento estrangeiro. Tudo em linha com o que acontece pelo mundo.
Quinta-coluna. Ana Paula Bittencourt, casada com um antigo funcionário de Bolsonaro, está alinhada com os interesses imediatistas do setor privado – Imagem: Michael Jesus/Agência Câmara
O relatório parcial é da lavra do diretor de Transformação e Tecnologia Mineral da pasta de Minas e Energia, Anderson Barreto, defensor de liberar o setor privado no mercado de urânio, atividade que pela Constituição é monopólio estatal. Barreto subordina-se à secretária de Geologia e Mineração, Ana Paula Bittencourt, esposa de um dos chefes do Tesouro Nacional na gestão Bolsonaro, Jefferson Bittencourt. Ana Paula assumiu em julho de 2025 e, três meses depois, Barreto anunciava uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a União Europeia. Objetivo: contratar estudos para subsidiar o ministério na elaboração de uma Estratégia Nacional de Terras-Raras. Ou seja, o Brasil aceitou que Washington (o BID fica lá) e a Europa paguem para influenciar o governo em um assunto de interesse dos patrocinadores. Conflito de interesses na veia, segundo servidores atentos aos acontecimentos.
O vencedor da seleção foi o Centro Brasileiro de Relações Internacionais, um think tank de liberais e tucanos. O presidente de honra é Fernando Henrique Cardoso. Um dos conselheiros eméritos é Pedro Malan, ministro da Fazenda do governo FHC. Malan é sócio do escritório Moura Rocha & Malan, ao lado daquele que chefiou seu gabinete de ministro, o advogado Bolívar Moura Rocha. O escritório exala lobby. Na web, diz fazer “atendimento a clientes em contenciosos e negociações complexas, e em projetos que envolvem regulação e política pública”. Em 1o de dezembro, Rocha esteve com Ana Paula e Barreto em Brasília, em uma reunião sobre minerais críticos. Presente ainda um canadense, Constantine Karayannopoulos, ex-executivo da mineração e agora consultor. Alguém que, como Malan, tenta abrir portas e desenrolar os negócios.
Os EUA agem para limitar o acesso da China aos minerais
Um dia depois da reunião, a secretária participou de um seminário do BID, em Washington, intitulado “Minerais Críticos: Oportunidades no Brasil”. Uma das palestrantes era do Departamento de Comércio dos EUA, Isabella Cascarano. Outro era o deputado paulista Arnaldo Jardim, relator da lei que tem mais chances de ir a votação no Congresso para instituir uma política nacional de minerais críticos e foi escrita na medida para as mineradoras privadas. Outro Projeto de Lei, de autoria de João Daniel, do PT de Sergipe, é alinhado ao que Lula pensa e tramita juntamente com aquele nas mãos de Jardim, mas não tem a mesma receptividade parlamentar. CartaCapital questionou Ana Paula, via assessoria de imprensa, sobre a participação no evento do BID, tendo ela estado em Brasília na véspera. Não houve resposta. O Diário Oficial da União não publicou nenhum afastamento da funcionária do País para ir aos EUA.
Em janeiro, a secretária viajou com Silveira à Arábia Saudita. Desde 2022, os sauditas promovem o “Fórum Minerais do Futuro”. Dizem possuir grandes reservas e buscar alternativas ao petróleo. Seus poderosos fundos soberanos, abastecidos com petrodólares, são sua arma e despejam dinheiro no mundo. Na semana do fórum, a Embaixada do Brasil em Riad hospedou um convescote de empresários dos dois países interessados em negócios com minerais. O embaixador Paulo Uchoa Ribeiro Filho foi assessor internacional de Michel Temer na Presidência. O organizador do encontro, Carlo Pereira, é CEO em Nova York do Grupo Lide, o “empreendimento” de João Doria Jr. especializado em aproximar ricos e políticos. Pereira é consultor e tem uma firma, a Gin Capital, atuante na mineração. É ainda dirigente no Brasil do Pacto Global da ONU e, nessa qualidade, foi acusado de assédio moral por subordinados.
Colisão. O projeto de lei do deputado Arnaldo Jardim não contempla os planos de industrialização. Caiado negocia com representantes do governo dos EUA – Imagem: Mario Agra/Agência Câmara e Lucas Deiner/GOVGO
Já a Embaixada dos EUA em Brasília realizará em março um simpósio sobre minerais críticos em São Paulo. O Instituto Brasileiro de Mineração, entidade que reúne as mineradoras privadas, participa da organização do evento. Não há notícia de que algum órgão do governo tenha sido convidado. A entidade é presidida interinamente por um general, Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa de Bolsonaro. O titular do cargo morreu em janeiro, Raul Jungmann, e havia sido ministro da Defesa de Temer. O instituto pretende botar na mesma sala as principais companhias de minerais críticos do País. Uma que deve comparecer é a Serra Verde, maior produtora de terras-raras fora da Ásia. Sua mina fica em Minaçu, cidade goiana. Opera desde 2024. Seus donos são um fundo norte-americano (The Energy Minerals Group), um britânico (Vision Blues Resources) e um global (Denham Capital).
Em abril do ano passado, o The New York Times publicou uma reportagem sobre um paradoxo: a Serra Verde pertencia aos EUA, mas vendia à China. Deve ter dado ideias a Trump. Em dezembro, a empresa encurtou a duração de contratos de longo prazo com os chineses. Em 5 de fevereiro último, Washington anunciou um empréstimo de 565 milhões de dólares, cerca de 3 bilhões de reais, para a companhia e condicionou o repasse a uma fatia minoritária na mineradora. Na antevéspera, o governador Caiado havia visitado a sede do organismo que vai liberar os recursos. Antes, tinha ido ao número 2 da diplomacia de Trump, Christopher Landau. Duas reuniões, uma pauta: o aumento da exploração de terras-raras em Goiás. Há uma segunda mina prestes a sair do papel por lá, um projeto de 2,8 bilhões de reais. Caiado é da filosofia de que basta tirar do solo e vender.
Um servidor público testemunha dos acontecimentos do setor mineral vê o risco de que se repitam os entraves do Nova Indústria Brasil. O plano para reindustrializar o País não encontrou na vida real instrumentos capazes de implementá-lo. Outro servidor lembra que, no primeiro governo de Dilma Rousseff, o Ministério de Minas e Energia elaborou um projeto setorial a ser implantado até 2030. Não foi adiante graças às consequências da derrubada da presidenta em 2016. A possível saída de Silveira do cargo de ministro até abril, para disputar a eleição em Minas Gerais, dará a Lula a chance de assumir as rédeas da pasta, em vez de utilizá-la em negociações de apoio partidário. Fará isso? •
Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘DNA subalterno’
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