Discurso de Lula em São Bernardo é anúncio de virada para a esquerda?

Especialistas analisaram como o discurso do ex-presidente no Sindicato dos Metalúrgicos pode sugerir seus rumos como liderança

O ex-presidente Lula, em São Bernardo do Campo. (Foto: Ricardo Stuckert)

O ex-presidente Lula, em São Bernardo do Campo. (Foto: Ricardo Stuckert)

Política

Um dia após sair da carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR), onde esteve por 580 dias, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez discurso agressivo contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), durante ato no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP). A volta do principal líder da esquerda brasileira ao jogo político incomoda o Palácio do Planalto, mas que pistas o discurso do petista ofereceu sobre sua real capacidade – e disposição – em frear as políticas da cúpula bolsonarista?

Para especialistas, o discurso de Lula evidenciou sua vontade em fazer oposição ao chefe do Planalto. A estratégia discursiva em São Bernardo se dividiu em duas prioridades: estabelecer seus atuais inimigos políticos e propagar seu projeto de melhorias de condições econômicas.

Na avaliação do doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Darlan Montenegro, a primeira prioridade de Lula foi eleger seus adversários para organizar sua base e identificar os alvos diretos: o governo, na figura do presidente da República, o ministro da Justiça, Sergio Moro, o procurador Deltan Dallagnol, e os agentes internos da Polícia Federal e do Ministério Público. Lula fez questão, ainda, de atacar veículos de comunicação que, segundo ele, articularam-se com os setores que trabalharam pela sua prisão.

Por outro lado, para Montenegro, Lula dedicou longo espaço à exaltação de seu projeto econômico de reduzir desigualdades sociais por meio de programas de assistência à população mais pobre. O petista reafirmou, por exemplo, a necessidade de se voltar para pessoas que vivem em moradias precárias e com irrisório poder de consumo devido aos baixos salários e restrita possibilidade de crédito.

“O Bolsonaro e o conluio que agiu para influenciar no processo eleitoral são os inimigos. O discurso foi: ‘Com vocês não tem papo, é confronto’. Com relação ao governo Bolsonaro, ele focou não só em economia, mas também em democracia, como a questão do AI-5, e jogou no colo do presidente a ligação com milicianos e a associação com o crime organizado”, examina o professor. “Por outro lado, o Lula fala de amor, diz que quer construir, em conjunto, avanços para melhorar as condições de vida dos trabalhadores.”

O propósito dessa estratégia, para Montenegro, foi se recolocar como líder da oposição. Para o pesquisador, os partidos da esquerda não têm conseguido estabelecer uma “oposição real” a Bolsonaro e demonstram notável dificuldade em reagir com uma postura organizada. Após Lula sair da cadeia, o petista se torna uma peça que interfere em todo o tabuleiro, pois agora o governo tem uma oposição às suas políticas e, a longo prazo, um adversário robusto para 2022.

Postura de Lula aglutina bolsonaristas, mas fortalece esquerda

Na análise do pesquisador, o primeiro aspecto perceptível da libertação de Lula é um enfraquecimento para a extrema-direita. Isso porque, em sua visão, a presença do petista faz com que a esquerda brasileira ganhe terreno, no ponto de vista da correlação de forças.

A própria direita tradicional, como o PSDB, manifestou incômodo com a soltura do ex-presidente, como escreveu, em nota, o presidente do partido, o tucano Bruno Araújo, na sexta-feira 9: “Decisão judicial se respeita, entretanto, a soltura do ex-presidente Lula pode alimentar ainda mais um clima de intolerância na sociedade brasileira, no qual polos extremos preferem se hostilizar ao invés de dialogar”.

Por outro lado, o professor aponta que a libertação de Lula pode aglutinar a base bolsonarista. Até então, os seguidores de Bolsonaro apresentavam rachaduras, mas, agora, o retorno de um inimigo em comum oferece bons motivos para rearticulação da extrema-direita.

O ex-presidente Lula, durante discurso em São Bernardo do Campo (SP). Foto: Reprodução/TVT

“Num segundo sentido, de fato, favorece a redução do atrito interno na extrema-direita. Mas favorece porque agora existe um adversário. No sentido global, a saída do Lula favorece mais a esquerda e a centro-esquerda do que a direita e a extrema-direita”, opina.

Mas de que forma, então, Lula pode ser uma liderança capaz de invocar revoltas e barrar as reformas do governo? Durante discurso, o petista saudou os protestos no Chile, país em erupção contra os impactos das políticas do presidente Sebastian Piñera. Lula atacou ainda a reforma da Previdência, proposta pelo ministro Paulo Guedes: segundo o ex-presidente, a emenda de Guedes é similar ao sistema de aposentadoria que motivou as revoltas entre os chilenos. Isso é um sinal de que Lula pretende promover manifestações semelhantes? Para Montenegro, não.

“Não me parece que seja da índole do Lula tentar reproduzir, aqui, o tipo de enfrentamento que se produziu no Chile”, analisa pesquisador.

Na verdade, para o pesquisador, Lula até se distanciou de proposições reformistas radicais e se colocou disposto a dialogar com a elite econômica. Resta saber se a elite demonstrará a mesma voluntariedade, aponta o cientista.

“Pelo temperamento do Lula e por sinalizações do próprio discurso dele, ele fala: ‘Eu não tenho nada contra o banco Y e o banco Z, nós queremos que pessoas formadas dentro do campo dos trabalhadores possam formular políticas públicas’. Lula não é extremista e nem capaz de radicalizar as massas. Ele quer, claramente, enfrentar o projeto do governo, mas não me parece que seja da índole do Lula tentar reproduzir, aqui, o tipo de enfrentamento que se produziu no Chile. Até porque o tipo de enfrentamento do Chile tem a ver com décadas de implantação daquele projeto num sentido muito radical”, examina.

Para Montenegro, é precipitado pensar que a soltura de Lula abre caminho para a radicalização de massas porque, na verdade, a esquerda vive forte desgaste no Brasil e “está retomando a condição de fazer política”. Nesse sentido, enxerga importância nos pontos do discurso que exaltaram os enfrentamentos ao neoliberalismo na América do Sul, como na Argentina, após a vitória de Alberto Fernández, e na Bolívia, com a reeleição de Evo Morales.

O doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marcus Ianoni, também percebeu o trecho sobre os conflitos na América do Sul como um dos principais pontos do discurso de Lula. Ao citar a Venezuela, Lula criticou as intervenções do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “O Trump que resolva o problema dos americanos e não encha o saco dos latinoamericanos. Ele não foi eleito para ser xerife do mundo”.

No diagnóstico de Ianoni, a libertação de Lula representa virtual mudança na configuração do debate público, uma vez que a oposição, até então, encontrava-se na defensiva e tentava, sem sucesso, minimizar os custos das decisões ultraliberais do governo. O professor destaca ainda a vontade de Lula em transparecer, com clareza, sua disposição em retomar a participação na vida política para questionar o governo Bolsonaro. Além disso, na impressão do professor, houve tentativa em costurar uma aliança entre os próprios setores da esquerda.

“Criticou os elevados spreads bancários e juros do cartão de crédito e do cheque especial, a despeito da redução da taxa Selic. Buscou, o tempo todo, costurar uma aliança política da esquerda. Não citou Ciro Gomes. Criticou a ingerência dos Estados Unidos de Trump na América do Sul e, por fim, levantou o debate sobre as eleições em 2022, dizendo que a esquerda  vai derrotar a extrema-direita. A voz da oposição ganhou um imenso microfone de alcance nacional”, avalia.

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Repórter do site de CartaCapital

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