Direita que pediu frente ampla na Câmara ‘roeu a corda’, diz presidente do PSOL

'Alianças com a velha direita, mesmo pontuais, podem falhar por sua incapacidade de manter compromissos', afirma Juliano Medeiros

O novo presidente Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

O novo presidente Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

Política

Nos instantes finais da noite da segunda-feira 01, cravou-se a vitória esmagadora de Arthur Lira (PP-AL) à presidência da Câmara dos Deputados. O alagoano teve 302 votos, contra 145 do principal rival, o emedebista Baleia Rossi. O placar fez ruir a concertação que se apresentava como uma frente ampla contra o governo de Jair Bolsonaro.

Em outro canto da oposição, estava a candidatura da deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), que recebeu 16 votos. Quando o partido anunciou que não se uniria a Rodrigo Maia (DEM-RJ) e demais partidos de centro e esquerda (como o PT) na aliança com Rossi, foi criticado por não se esforçar para somar contra projetos de poder de Bolsonaro no Legislativo.

 

 

Com o cenário posto, o presidente do PSOL Juliano Medeiros afirma a CartaCapital que houve importância em ter um “pacote de medidas e propostas” da esquerda verbalizados por Erundina no Plenário. A única surpresa, afirma, é “o nível de fisiologismo” de partidos que se promovem como democráticos:

“O que aconteceu é a prova final de que alianças com a velha direita, mesmo que muito pontualmente em táticas, podem não funcionar não por falta de compromisso da esquerda, mas pela incapacidade da própria direita de manter seus compromissos.”

Confira a seguir.

 

CartaCapital: Como você avalia o saldo final da candidatura de Luiza Erundina? 

Juliano Medeiros: Apesar de inicialmente haver uma certa incompreensão de simpatizantes e eleitores do PSOL em torno de lançar uma candidatura própria, considerando que havia um movimento dos demais partidos de oposição para o apoio do Baleia Rossi, transcorrido todo o processo, o balanço é muito positivo.

Ao final, há reconhecimento da coerência do PSOL em optar em ter uma voz capaz de expressar suas ideias, e segundo porque objetivamente os partidos da centro-direita e direita tradicional que sustentaram o viés de uma frente mais ampla pela Câmara acabaram, nos últimos minutos, roendo a corda.

A candidatura da Erundina acabou se consolidando como uma reserva de coerência, de combatividade, de compromisso com ideias, valores e posições, e a gente percebe no dia de hoje isso mais forte.

 

CC: O PSOL ainda sustenta que foi a melhor estratégia para o partido? Em algum momento vocês pensaram em reconsiderar?

JM: A bancada fez o debate sobre o tema, houve uma divergência, o que é natural em um partido democrático e socialista, mas a direção nacional resolveu com bastante coesão. Nós tivemos 75% da Executiva Nacional votando a favor à proposta de candidatura própria.

Uma vez tomada a decisão, houve um trabalho conjunto de tentar cair em campo e conseguir votos para a Erundina, mas também de garantir o respeito que a decisão do PSOL e a história da Erundina merecem. Houve pressão especialmente na última semana, o que acho que é natural e legítimo e não encaro como um ato de desrespeito à decisão do PSOL, mas não acredito ter existido no PSOL nenhum espaço para revê-la.

A Erundina, ao fim e ao cabo, foi a única candidata que defendeu o impeachment, a revogação do teto de gastos e a revisão da reforma de Previdência. Esse pacote de medidas e propostas foi verbalizado única e exclusivamente por ela, então acho que foi importante sim.

 

CC: A decisão do DEM, PSDB e outros de liberarem suas bancadas do bloco do Baleia te surpreendeu? Era um cenário que vocês já viam como possível?

JM: A gente estava a par de rumores, e eles acabam te preparando para um cenário desses. Confesso que ainda me surpreende o nível de fisiologismo que impera mesmo naqueles partidos que tentam aparecer para a opinião pública como partidos comprometidos com a democracia e contra o autoritarismo. Toda a campanha do Baleia foi centrada nisso: na defesa da democracia e na Câmara independente, e nós vimos o DEM, setores imensos do PSDB, do MDB, e até de partidos de oposição votando no Lira.

O que aconteceu é a prova final de que alianças com a velha direita, mesmo que muito pontualmente em táticas, podem não funcionar não por falta de compromisso da esquerda, que manteve-se fiel em grande medida à candidatura do Baleia, mas pela incapacidade da própria direita de manter seus compromissos. Confesso que não imaginava que a candidatura do Baleia ia terminar sendo sustentada fundamentalmente pela oposição.

 

CC: O que discute o partido agora, com essa mudança de cenário? 

JM: Obviamente, o PSOL será um partido de oposição ao comando do Lira da Câmara, que tende a ser, pelo menos nesse primeiro momento, uma gestão alinhada com o Palácio do Planalto.

Nós queremos virar essa página da eleição, superar as divergências pontuais que existiram no campo da oposição e voltar a ter um trabalho conjunto com o restante dos partidos de oposição. O PSOL tem plena consciência de que sozinho não tem condições de enfrentar o que deve vir pela frente, então vai ser muito importante fortalecer os espaços coletivos de debate da oposição. É preciso voltar a reunir com PT, PDT, PCdoB, PSB, Rede e montar uma estratégia comum.

O que aconteceu ontem, com a decisão do Lira de diluir e impugnar a inscrição do bloco liderado pelo Baleia, mostra que ele tem uma disposição de exercer o controle absoluto sobre a Câmara. É muito preocupante. O PSOL, mesmo não tendo entrado no bloco, condena a decisão do Lira e vai colaborar com o restante da oposição para que eles tenham o direito para disputar os cargos que queiram disputar. 

 

CC: Bolsonaro tem votos para escapar do impeachment e de CPIs. E para aprovar as pautas conservadoras e de agenda econômica?

JM: O Lira promoveu essa aliança com o governo, mas ele é muito mais a expressão das forças conservadoras do Centrão do que da extrema-direita bolsonarista. A fidelidade do Lira vai ser maior com seus eleitores dentro da Câmara do que com o governo, de modo que, penso eu, suas prioridades num primeiro momento devem ser atender aos setores que o apoiaram, as agendas da bancada do agronegócio, eventualmente da bancada da bala, não sei em que medida ele tem compromissos com a bancada do fundamentalismo religioso.

Tampouco eu acredito que esse acordo com o Planalto seja inabalável e duradouro. A fome de poder do Centrão é muito grande, e estou pagando para ver em quanto que o Bolsonaro vai estar disposto a alimentá-la. É possível que, muito em breve, vejamos conflitos se repetindo entre o presidente e o presidente da Câmara, e aí nós vamos ter que aproveitar esse cenário para fazer avançar a pressão popular pelo impeachment.

 

CC: Ontem, o agora ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia sugeriu o colocar o impeachment em votação, mas voltou atrás. Qual é seu balanço da gestão de Maia e de seus momentos derradeiros? 

JM: A gestão do Rodrigo Maia foi um desastre. Ela foi fiadora de todas as medidas econômicas que tiveram como objetivo retirar direitos do povo brasileiro, seja no governo Temer ou no governo Bolsonaro. Reforma da Previdência, da Trabalhista, da Lei das Terceirizações, do Teto de Gastos, as medidas mais agressivas que foram aprovadas desde a consolidação da Constituição de 88 foram aprovadas na gestão do Rodrigo Maia.

Seus conflitos com o governo Bolsonaro, que deram a ele a aura de um sujeito democrático, comprometido com a Constituição, não apagam tudo que ele fez na presidência da Câmara para atacar os direitos do povo brasileiro. É um balanço desastroso, e sua postura diante da pressão desses dias finais de seu mandato pelo impeachment é melancólica.

É um final patético de alguém que não foi capaz de abrir um dos 60 de pedidos de impeachment mesmo considerando as já dezenas de crimes cometidos pelo presidente da República. Eu lamento que ainda haja partidos de oposição que tenham se mantido fiéis a esse sujeito até o último dia do seu mandato. 

 

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