Despejo do MST em MG foi movido por “mentalidade insana de escravocratas”, diz João Pedro Stedile

Em entrevista a CartaCapital, um dos principais líderes do MST descreveu o cenário de batalha em ação policial de reintegração de posse

O economista e liderança do MST, João Pedro Stédile. Foto: Reprodução

O economista e liderança do MST, João Pedro Stédile. Foto: Reprodução

Política

“Minas Gerais parece uma novela daquelas do Gabriel García Márquez”. Assim, João Pedro Stédile começa a explicar o polêmico despejo que envolveu 450 famílias no acampamento Quilombo Campo Grande, na cidade de Campo do Meio, no sul do estado mineiro, em 12 de agosto.

Em entrevista ao diretor de redação CartaCapital, Mino Carta, nesta sexta-feira 17, o economista e líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) termina o relato descrevendo um cenário de filme de guerra, ou mesmo de uma “luta medieval”.

“Chegou a polícia achando que seria um passeio, mas nós resolvemos resistir”, diz Stédile. Foram 56 horas de “batalha campal”, em meio a voos rasantes de helicópteros, caveirões, bombas de gás lacrimogêneo e extrema truculência dos agentes policiais. Para o líder do movimento, será necessário fazer testes de coronavírus com os moradores da comunidade, porque o conflito aumentou o risco de contaminação pela doença.

Os assentados da comunidade assistiram à destruição de casas e da escola Eduardo Galeano com tratores. O MST já declarou que levantará as construções novamente, para oferecer educação a crianças e adultos. Segundo Stédile, o colégio era público e oferecia aulas do pré-infantil ao 5º ano. Os trabalhadores da roça também tinham a oportunidade de aprender a ler e escrever durante a noite, no Ensino para Jovens e Adultos (EJA).

Stédile conta que o imbróglio é de longa data. Para contar a história, ele volta em 20 anos, quando empresas entraram em falência com a crise do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Ali no local, uma usina de cana de cerca de sete mil hectares também foi às ruínas, deixando uma dívida milionária em impostos e em vencimentos com os trabalhadores.

Sem pagamentos nem indenizações, os funcionários da usina ocuparam a área que eles mesmos trabalharam, conta Stédile. Organizados pelo MST, fizeram da terra um campo de produção de ervas medicinais e “do melhor café orgânico do Brasil”.

No entanto, ao decorrer dos anos, surgiram os embates judiciais que resultaram na reintegração de posse da última semana. Segundo o MST, o principal interessado era Jovane de Souza Moreira, responsável pela antiga usina. Seu filho, Jovane Júnior, é pré-candidato a prefeito de Alfenas pelo partido Avante. Em meio ao despejo, Jovane Júnior defendeu nas redes sociais o “direito à propriedade privada” e pediu o apoio do governador Romeu Zema (Novo) e do presidente Jair Bolsonaro.

Para Stédile, a ação policial não fez sentido jurídico, porque uma audiência que tratará do tema está marcada para o fim do mês. Contudo, serviu para produzir um “fato à imprensa”.

“O imbróglio judicial tem uma audiência marcada para 28 de agosto. Então, não tinha sentido marcar despejo para o dia 12, se, no fundo, a audiência também vai tratar do assunto. Então, por que antecipar? Talvez, para criar um fato na imprensa, que pudesse beneficiar esse filho de fazendeirinho que é candidato a prefeito de Alfenas. É essa a mentalidade insana dos nossos escravocratas: vamos pegar alguns negrinhos para dar o exemplo”, disse Stédile.

Terra para quem nela trabalha

Desde 1984, ano em que o MST nasceu, o lema dos trabalhadores rurais da organização é “terra para quem trabalha”, diz Stédile. Movidos pela defesa da reforma agrária, o MST já organiza 1 milhão de famílias assentadas no Brasil, segundo ele.

Desse número, cerca de 500 mil recebem o nome de assentados, mas foram alocados pelo Estado em terras públicas, na região da Amazônia Legal, na condição de mão-de-obra floresta adentro. O economista se diz contrário a essa política, por acreditar que se trata de um “projeto de colonização”, que remove famílias de outros locais para a região amazônica. “Nós somos contra. Tem que deixar a Amazônia para quem já mora lá. Não é preciso levar gente para o meio do mato.”

As outras 500 mil famílias fazem parte das conquistas da luta pela reforma agrária, explica Stédile. Ou seja, são trabalhadores beneficiados pela desapropriação de latifúndios.

Ao longo da história, porém, o MST percebeu que a luta camponesa não era contemplada o suficiente com a disputa pela terra. Stédile diz que, nessas áreas, foi necessário incluir como prioridade a formação educacional, com a construção de escolas, e a segurança alimentar, com a plantação de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos, que possibilitam a geração de emprego e renda.

“Estamos defendendo a reforma agrária em um novo tipo, em que não fique só presa à desapropriação do latifúndio – ainda que o latifúndio, por si só, como diria Pedro Casaldáliga, é um pecado. Porque não se justifica a grande propriedade”, diz Stédile. “Justifica-se a terra para quem nela trabalha. Por que um fazendeiro tem 500 mil hectares de soja e algodão? Ele não precisa disso.”

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