Política

Demissão de Salles traz alívio, mas não expectativas de mudança

Políticos e especialistas apontam alívio, mas a celebração é pouco emocionada

Jair Bolsonaro e o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Foto: Evaristo Sá/AFP
Jair Bolsonaro e o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Foto: Evaristo Sá/AFP

A demissão do ministro Ricardo Salles é comemorada com ceticismo entre políticos e especialistas, que apontam baixas expectativas de mudança na postura ambiental do governo. Alvo de processos no Supremo Tribunal Federal, Salles pediu baixa nesta quarta-feira 23 e será substituído pelo ruralista Joaquim Álvaro Pereira Leite.

 

Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista na Câmara, o deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP) diz que Salles “já vai tarde”. O parlamentar declarou que espera um diálogo maior com o novo ministro, porém, deve seguir sem alterações a conduta do governo do presidente Jair Bolsonaro no setor.

“Acho que não [haverá mudanças do governo na postura ambiental]. Mas o novo ministro é uma pessoa equilibrada e sabe o que precisa ser feito”, declarou a CartaCapital.

Nas redes sociais, Jaques Wagner (PT-BA), presidente da Comissão do Meio Ambiente no Senado, escreveu que a demissão “é só um passo” e que “o importante é saber se será uma mudança somente de nome ou de postura do governo federal”.

Para Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental, “não há nenhum sinal de que a política de destruição será alterada”. O ativista afirma que as orientações a Salles decorriam diretamente do presidente da República.

“O governo foi obrigado a exonerá-lo e deve insistir na sua política predatória”, analisa Santilli. “O Brasil caminha para receber sanções internacionais por sua irresponsabilidade no campo ambiental.”

Ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, o deputado Afonso Florence (PT-BA) está sem esperanças de mudança na pasta. No que diz respeito às investigações, o parlamentar acredita que Bolsonaro ainda pode ser alcançado juridicamente, mesmo com a manobra do ministro em se demitir.

“A queda de Salles não blinda Bolsonaro”, diz Florence.

Por outro lado, Pedro Vasques, doutor em Direito Ambiental pela UERJ, diz crer que a perda do foro privilegiado pode ser positiva para Salles, já que o posicionamento do STF na temática ambiental é notoriamente progressista.

A sua saída representa um alívio não só no Brasil, mas também para a comunidade internacional, diz o professor, mas a perspectiva nesse sentido é restrita. De toda forma, os fóruns internacionais devem minimizar essa descrença com o intuito de dar boa-fé ao novo ocupante da pasta e, assim, atraí-lo à agenda global, aponta.

“Para a comunidade internacional e nacional, sem dúvida, a saída dele pode representar um suspiro. Mas a indicação do seu substituto, alguém historicamente ligado a associações ruralistas, limita esse suspiro à página 2”, analisa.

Roberto Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, diz que Salles deveria ter sido demitido desde a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos, caso o governo Bolsonaro quisesse amenizar seu isolamento internacional na área ambiental. Mas como a pressão externa não é o maior fator para a baixa de Salles, analisa ele, a tendência é de que o governo insista na mesma agenda.

“A mentalidade predatória sobre o meio ambiente é o que Bolsonaro mais admira em Salles”, avalia. “Tudo leva a crer que será mais uma troca sem mudança.”

O substituto de Salles faz parte do governo Bolsonaro desde 2019. Em abril de 2020, assumiu a Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais do Ministério do Meio Ambiente. Sua trajetória inclui 23 anos como conselheiro da Sociedade Rural Brasileira, entidade que se posicionou a favor de Salles, apesar das declarações sobre “passar a boiada”.

Em coletiva de imprensa, Salles disse que pediu demissão para que o País conquiste “uma união muito forte de interesses, de anseios e de esforços”. O agora ex-ministro é investigado por participação em esquemas para a exportação de madeira ilegal e teve sua gestão marcada por sucessivos aumentos na devastação da Amazônia, além do desmantelamento de órgãos de fiscalização.

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