Delação da Odebrecht aumenta a pressão sobre Geraldo Alckmin

Política

Não há Santo sem passado, diz o velho adágio católico. Em acordo de delação premiada, executivos da Odebrecht admitiram ter feito repasses milionários de caixa dois, em dinheiro vivo, para as campanhas de 2010 e 2014 do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB). As informações foram reveladas pela Folha de S.Paulo na edição desta sexta-feira 9.

A delação, ainda não homologada pela Justiça, menciona um repasse de 2 milhões de reais em espécie ao empresário Adhemar Ribeiro, cunhado de Alckmin, relata o jornal. Os recursos seriam para abastecer a campanha do tucano ao governo estadual em 2010, e não foram declarados à Justiça Eleitoral.

Para a reeleição, em 2014, também foram realizados pagamentos de caixa dois, com a intermediação de Marcos Monteiro, hoje secretário de Planejamento de Alckmin. Ainda de acordo com a Folha, a negociata foi delatada por Carlos Armando Paschoal, ex-diretor da Odebrecht em São Paulo, responsável por negociar doações.

Em sua defesa, Alckmin afirma que apenas os tesoureiros oficiais de suas campanhas estavam autorizados a arrecadar doações eleitorais, além de considerar “prematuras” quaisquer conclusões extraídas de delações não homologadas. A assessoria de Marcos Monteiro, por sua vez, informou que o secretário atua como tesoureiro do Diretório Estadual do PSDB há apenas dois anos, e sempre prestou contas à Justiça Eleitoral.

Os depoimentos reforçam, porém, a suspeita de que o governador paulista é o “Santo” mencionado nas planilhas da Odebrecht apreendidas pela Polícia Federal. No fim de setembro, quando foi deflagrada a 35ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Omertá, os investigadores da Lava Jato tiveram acesso a uma série de e-mails que tratam de propinas em dezenas de grandes obras da construtora pelo País.

Todos os e-mails com indícios de supostos esquemas de corrupção com participação da companhia são de seus funcionários e datados a partir de 2003. A maioria é do chamado Setor de Operações Estruturadas da empresa, intitulado pela Polícia Federal como “departamento de propina”.

São pelo menos 30 mensagens que tratam de pagamentos indevidos, identificados internamente pelos empregados com a sigla DGI, que foram trocados entre executivos da companhia e o próprio Marcelo Odebrecht.

Muitas fazem menção a obras no Porto de Rio Grande (RS) e de Laguna (SC), Metrô de Ipanema (RJ), ou a reforma de um Centro Educacional Unificado (CEU) de São Paulo, entre outras. Até mesmo o processamento e tratamento do lixo paulista é envolvido.

No entanto, mais uma vez, aparecem indícios de pagamentos para agentes públicos envolvidos nas obras das Linhas 2 (Verde) e 4 (Amarela) do Metrô de São Paulo. Dois casos se destacam: um relato de propina para um beneficiário identificado como “Santo” e supostos pagamentos destinados a um receptor no Ministério Público de São Paulo, com o objetivo de favorecer a empresa.

“Com as deflagrações, em decorrência de investigações policiais, descortinou-se que o grupo empresarial Odebrecht aparelhou um setor dentro de sua estrutura societária voltado exclusivamente para pagamentos ilícitos e à margem de qualquer contabilidade legal para agentes públicos e políticos”, diz o texto da PF.

Os indícios acerca de “Santo” mostram que esse agente público, ainda não identificado pela Polícia Federal (ao menos formalmente), pode ter relação com atividade política e eleitoral no estado de São Paulo.

Em uma das várias menções ao apelido, há um e-mail que fala no pagamento de 500 mil reais ao beneficiário para “ajuda de campanha” com “vistas a interesses locais”. O e-mail, datado de setembro de 2004, programa o pagamento do valor em duas parcelas de 250 mil reais, com intervalo de cinco dias entre a primeira e a segunda.

Para a Polícia Federal, a propina não era simples “caixa 2” de campanha. “Verificou-se que alguns pagamentos eram solicitados explicitamente a título de contribuição para campanhas eleitorais, mas, ao contrário de qualquer alegação de que se trataria apenas de contribuição popularmente conhecida como ‘caixa 2’, encontravam-se diretamente atrelados ao favorecimento futuro da Odebrecht em obras públicas da área de interferência dos agentes políticos” afirma a representação.

O pagamento ao agente público foi pedido por um diretor de contrato da Odebrecht que era responsável justamente pelas obras na Linha 4 do Metrô. Os e-mails mostram que a porcentagem de propina em cima desses pagamentos podia chegar até a 4% do valor recebido pela construtora. O governador de São Paulo na época dos pagamentos e, portanto, responsável pelas obras de transporte, era o tucano Geraldo Alckmin, de novo à frente do Palácio dos Bandeirantes.

Além de “Santo”, há menção ao pagamento de propina referente às obras no Metrô paulista para outros apelidos, como “Estrela”, “Corintiano”, “Santista”, “Brasileiro”, “Bragança”, “Vizinho” e “Cambada de SP”. À época, nenhum dos codinomes havia sido identificado.

Essa não foi a primeira vez que “Santo” apareceu em anotações ou documentos da Odebrecht apreendidos pela PF, em referência a obras do PSDB. Em março deste ano, um manuscrito foi encontrado na casa de um dos executivos da empreiteira com referência à formação de cartel e pagamento de propina em uma obra de 2002.

Tratava-se da duplicação da Rodovia Mogi-Dutra, no interior paulista, e de um suposto pagamento de 5% do valor do contrato para o “Santo”. O papel ainda apresentava um cálculo: essa obra custaria 68,7 milhões, a implicar pouco mais de 3,4 milhões de reais em propina. Assim como agora, Alckmin também era o governador.

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