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Defendida pelo PT, dobradinha pelo Senado no Rio divide o PSOL

Política

Lançado há um mês, o manifesto “Dois votos pela democracia” tem um objetivo simples: impedir que Flávio Bolsonaro (PSL) e Cesar Maia (DEM), líderes na corrida pelo Senado no Rio de Janeiro, cheguem lá.

No lugar do filho de Jair Bolsonaro e do pai de Rodrigo Maia – com 24% e 21% das intenções de voto, respectivamente – o manifesto propõe uma “dobradinha” pelo voto conjunto nos candidatos Lindbergh Farias (PT, 18%) e Chico Alencar (PSOL, 9%), tidos como os mais viáveis no campo da esquerda. Neste pleito, cada eleitor escolherá dois nomes para o Senado.

O manifesto foi apoiado por 349 intelectuais, artistas e políticos, inclusive do PSOL – o que aprofundou divisões existentes no partido. Correntes internas como o CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores) e o MES (Movimento Esquerda Socialista) repudiam o apoio de quadros do partido a um voto no PT, mesmo que estejam em minoria.

Além do antipetismo propriamente dito, há o fato de que o manifesto desconsidera a candidatura de Marta Barçante (PCB), que concorre ao Senado pela chapa coligada ao PSOL e reúne 1% das intenções de voto.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL), por exemplo, foi criticado por manifestar apoio à dobradinha. “Esse antipetismo de setores do PSOL é um equívoco anacrônico. As pessoas que romperam com o PT já deveriam ter superado isso há muito tempo”, disse o deputado, para quem “o antipetismo é o elixir do fascismo hoje”. “Essa é uma questão edipiana que setores do partido precisam superar, pelo amor de deus, com uma psicanálise cultural.”

Wyllys afirmou ter sido alvo de campanha negativa por esses setores que, segundo ele, teriam publicado críticas homofóbicas contra a sua candidatura na internet, o acusando de ser petista e até sionista.

Também alegou que esses setores teriam veiculado notícias fraudulentas contra ele, como uma que circulou na semana passada, segundo a qual ele teria aceitado convite para ser Ministro da Educação de Fernando Haddad (PT). O emissor da mentira não foi identificado, ainda que ela seja comprovadamente falsa.

Fora da internet, houve uma tentativa por parte desses setores de aprovar, em reunião da Executiva Estadual do PSOL do Rio, a publicação de uma nota contra o manifesto pelo voto conjunto. A tentativa foi à votação e não passou. “Eles acham que a disputa é como um DCE de universidade”, comentou Wyllys.

Procurado, o vereador Babá – um dos principais quadros da CST e suplente de Marielle Franco na Câmara da capital – negou ter feito campanha negativa contra o deputado. “Não é esse o nosso foco e nem precisaríamos fazer isso. O desgaste de Jean no partido não é fruto de uma campanha da CST e sim de sua própria postura”, afirmou, em nota publicada via assessoria de imprensa.

Posteriormente, ele enviou outra resposta na qual omitia o trecho acima e acrescentava que “estamos empenhados em ampliar a bancada do PSOL na Câmara e na ALERJ e não em perder tempo com campanha negativa a nenhum deputado de nosso partido”. Para Babá, o manifesto é “extremamente antidemocrático”.

Já Honório Oliveira, dirigente do MES, afirmou que “fake news não existe nenhuma dentro do PSOL. O que ele [Wyllys] sofre por parte do PSOL são críticas políticas, porque ele apoia o sionismo e a opressão do povo palestino”. (Wyllys é favorável à solução de dois Estados no conflito Israel-Palestina.)

“Em relação à tática para o Senado, a crítica majoritária é que ele parte de uma premissa falsa de que é possível eleger dois candidatos ao Senado pelo campo da esquerda. Até as pedras sabem que isso é impossível”, afirmou Oliveira. “É uma tática falaciosa, mentirosa, que pode derrotar o Chico Alencar e eleger o Lindbergh. Ele tem que aprender a ouvir críticas.”

A presidente estadual no PSOL fluminense, Caroline Castro, admitiu que o manifesto criou um desconforto interno na sigla. “Sempre que um militante do partido descumpre uma deliberação partidária, isso gera um desconforto”, afirmou.

Apesar disso, Castro afirmou que “a gente não tem problema nenhum que a militância faça escolhas. A militância e os eleitores não precisam votar necessariamente nas decisões partidárias.” Além de Wyllys, assinaram embaixo Marcelo Biar, candidato à Alerj, Guilherme Cohen, integrante da Executiva municipal e assessor de Jean Wyllys, Leonel Brizola Neto, vereador na capital.

Chico Alencar não apoiou abertamente o manifesto “pelo respeito sincero ao que foi coletivamente deliberado [no PSOL]”, mas afirmou respeitar a “iniciativa cidadã do manifesto”.

Segundo Gisele Cittadino, professora de direito da UFRJ que idealizou e articulou o manifesto em conjunto com Caroline Proner – também professora de direito, pela PUC-Rio – os assessores de Alencar apoiaram a iniciativa e ele “está muito feliz”, apesar do “constrangimento de natureza política, ética e jurídica”. “Claro que a gente sabia que a companheira dele de coligação não tinha a menor chance eleitoral, mas ficaria constrangedor pra ele”, disse.

Lado de lá
Candidato à reeleição pelo PT, Lindbergh Farias comemorou a dobradinha. Ele é o único candidato ao Senado que o partido lança no estado e admitiu que essa escolha visa “possibilitar uma construção mais ampla da esquerda no Rio de Janeiro” e que “esta unidade da esquerda seria fundamental para derrotar o fascismo da família Bolsonaro e outras candidaturas conservadoras”.

Apesar do aceno, a Executiva do PSOL no Rio negou ter sido procurada formalmente pelo PT. “Até porque, quando essa iniciativa foi tomada, já estávamos em campanha. Já tínhamos feito uma convenção eleitoral, partidária, a gente já tinha feito a nossa chapa. Já tinha sido registrada no TRE, já tinha passado pelos procedimentos legais, inclusive”, disse Caroline Castro.

O partido que hoje lança Márcia Tiburi ao governo do Rio é historicamente fraco no estado por duas razões. “O PT foi fundado por três forças: igreja, sindicatos e intelectualidade. O Rio tem pouca base sindical se comparada a outros lugares. O cardeal aqui é conservador, ao contrário de São Paulo. E a intelectualidade do Rio é muito dividida entre o brizolismo e o partidão [antigo Partido Comunista]”, explicou João Feres Júnior, cientista político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “Então o PT entrou atrás disso, como uma terceira opção.”

Há também o fato de que, para sustentar sua aliança a nível nacional com o PMDB, o PT sacrificou a viabilidade de seus candidatos locais ao governo durante a última década e meia. O partido de Eduardo Cunha, Luiz Fernando Pezão e Sérgio Cabral se beneficiou disso, por ser muito localizado na região. “O PT sempre sacrificou a agenda local, estadual, em prol da agenda federal. Isso foi importante na consolidação do PSOL aqui”, afirmou Feres. “O PSOL do Rio é basicamente um monte de gente ressentida com o PT. Com uma certa razão, inclusive”, conclui.

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