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Debate brasileiro ignora a verdadeira Venezuela

Política

A Venezuela está presente nas eleições brasileiras não como um país de verdade, mas como um espantalho que cada um apresenta segundo as suas conveniências, em total desprezo pela realidade – singular e complexa – do país vizinho.

Os candidatos direitistas rechearam sua pregação contra Fernando Haddad com versões medonhas sobre o governo bolivariano do presidente Nicolás Maduro. Insinuaram que, em caso de vitória do candidato petista, o Brasil mergulharia numa crise semelhante à que atormenta a Venezuela. Esse mesmo discurso certamente integrará o arsenal da propaganda de Jair Bolsonaro no embate decisivo do segundo turno.

O furo mais evidente, nessa retórica, é que esse mesmo PT do qual Haddad faz parte governou o Brasil durante treze anos, em aliança com outros partidos (em sua maioria de centro e centro-direita) e em nada, absolutamente nada, a situação brasileira entre 2003 e 2016 apresentou qualquer traço de semelhança com o cenário, verdadeiro ou deformado, que a mídia dominante aponta como sendo o retrato atual da pátria de Bolívar.

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Da mesma forma, as gestões lideradas pelo PT tiveram como um dos seus traços mais salientes, para o bem e para o mal, a busca permanente da conciliação entre os interesses conflitantes que atravessam a sociedade brasileira, injusta e desigual. Lula e Dilma se empenharam em aplicar políticas do tipo “ganha-ganha”, em que a melhoria das condições dos mais pobres ocorresse em paralelo com a ampliação dos lucros das empresas, o que de fato ocorreu em praticamente todo o período das suas administrações.

Chega a ser irônico que uma das principais críticas que os recentes governos de esquerda recebem dos adversários neoliberais se refere aos benefícios, apontados como indevidos, que o Estado concedeu a setores do grande empresariado, tais como linhas de financiamento do BNDES e isenções fiscais.

Já na Venezuela o período inaugurado pela chegada de Hugo Chávez à presidência, em 1999, caracteriza-se pelo confronto inconciliável entre as classes abastadas, de um lado, e a maioria desprivilegiada, do outro. Esse conflito se deve, em parte, aos objetivos declaradamente socialistas que Chávez deu à sua gestão presidencial e, sobretudo, ao tema situado no centro da disputa política venezuelana: a distribuição da renda petroleira.

O chavismo redirecionou as receitas obtidas pela exportação do petróleo em favor de um amplo pacote de políticas sociais em benefício das camadas mais pobres da população, o que despertou a ira dos setores mais ricos. Inconformada, a elite venezuelana declarou guerra ao bolivarianismo e passou as últimas décadas empenhada em removê-lo do poder por todos os meios: eleições, golpes de Estado, sabotagem econômica e, agora, fracassadas todas as tentativas, pela aposta temerária em uma intervenção militar estrangeira.        

Os únicos pontos de contato entre a trajetória do conflito venezuelano e o atual impasse brasileiro se configuram em aberto contraste com a histeria antiesquerdista dos que procuram, desesperadamente, algum tipo de associação entre Haddad e Maduro. Na realidade, é a campanha de Bolsonaro que atiça as chamas da luta de classes ao apontar como alvo de ataque conquistas sociais já de longa data consolidadas na sociedade brasileira, como o 13° salário, a licença-maternidade e as férias remuneradas.

O discurso bolsonarista se refere aos adversários políticos como inimigos a serem eliminados, tratando a esfera pública brasileira como um campo de batalha. A questão social volta a ser “um caso de polícia”, como na República Velha, e se anuncia que os “ativismos” serão proibidos, como se costuma fazer nas ditaduras.

A perspectiva, caso Bolsonaro venha realizar sua ambição de poder, acompanhado de um vice-presidente com uma retórica ainda mais belicosa, é que, aí sim, o Brasil venha a mergulhar numa guerra política à imagem e semelhança do país vizinho. Ou seja, “virar uma Venezuela”, nesse sentido distorcido que se dá à expressão.

É pena que, nessa discussão, os aspectos positivos da trajetória venezuelana sejam sistematicamente ignorados, não apenas pelos oponentes políticos que tentam desqualificar a candidatura de Haddad com o uso de todo tipo de sofisma e falsidade, mas também por alguns de seus defensores que se somam à campanha internacional para depor o presidente Maduro qualificando-o de antidemocrático.

A verdade é que, ao contrário do desgoverno Temer, Maduro foi eleito e reeleito em eleições limpas e competitivas. Na Venezuela a população tem acesso a informações através de uma mídia plural em que tanto a direita quanto a esquerda operam redes de TV e rádio.

Bolsonaro, se chegar à Presidência, agirá no sentido de eliminar direitos e conquistas sociais, enquanto na Venezuela, com todos os erros que possam ter sido cometidos, a meta sempre foi a de universalizar esses benefícios. No plano internacional, as forças externas que dão suporte a Bolsonaro – com destaque para os setores mais reacionários da administração Donald Trump e do Partido Republicano – são as mesmas que financiam os grupos golpistas da direita venezuelana.

Haddad abordou como muito equilíbrio o delicado tema venezuelano quando, ao ser instado diante das câmeras da Rede Globo a emitir opinião sobre a situação no país vizinho, definiu-o como “um país conflagrado”. Ou seja, em uma nação mergulhada numa guerra política em que desapareceu qualquer canal de diálogo entre as forças oponentes e na qual os próprios poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário) se negam mutuamente, os critérios habituais para a avaliação do funcionamento das instituições ficam, em grande medida, prejudicados.

Para um país fronteiriço, como o Brasil, a única atitude positiva possível é aquele que favorece o diálogo entre partes em conflito, a defesa da soberania nacional venezuelana diante das ameaças de ação militar dos Estados Unidos verbalizadas pelo presidente Trump e por seus assessores e, acima de tudo, a resolução pacífica dos conflitos – uma postura que faz parte dos princípios da diplomacia brasileira através dos tempos, seja qual for o governo instalado em Brasília.

Essa foi a posição defendida por Haddad no primeiro turno, e também por Ciro Gomes.

O que realmente importa na conduta do próximo governo brasileiro perante a Venezuela não é opinião que se tenha sobre os problemas internos do país vizinho – algo que caberá a eles mesmos resolverem, sem qualquer interferência estrangeira – e sim a defesa da paz na América do Sul e a obrigação de solidariedade para com as pessoas que chegam às nossas fronteiras em busca de ajuda.

Dos candidatos presidenciais que agora competem no segundo turno, Haddad é o único em condições de atender a essa necessidade, ditada pelo interesse nacional, acima dos partidos e dos interesses políticos em disputa.

*Igor Fuser é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor no Bacharelado em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC)

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