Política

De ‘pastor’ a ‘homem de fé’: a nova linguagem religiosa das urnas de 2026

Em vez de títulos como ‘bispo’ ou ‘missionária’, candidatos apostam em valores e referências religiosas para reduzir rejeições e ampliar o eleitorado

De ‘pastor’ a ‘homem de fé’: a nova linguagem religiosa das urnas de 2026
De ‘pastor’ a ‘homem de fé’: a nova linguagem religiosa das urnas de 2026
Roupa suja. Michelle é a mais dura oponente de Flávio – Imagem: Mateus Bonomi/Anadolu/AFP
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Eleições 2026

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Na eleição de 2026, a religião continua atravessando a campanha — mas aparece menos estampada no nome de urna. Levantamento do Instituto de Estudos da Religião (Iser), em colaboração com a CartaCapital, identificou ao menos 409 candidaturas que acionam explicitamente identidades religiosas, em uma amostra de 20.530 registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É o menor número da série histórica.

Na eleição de 2022, 649 candidatos se apresentaram às urnas sob identidades como bispo, pajé, pastor, missionário ou irmão. A composição desse grupo, porém, pouco mudou: como ocorre há oito anos, os evangélicos formam a imensa maioria, com 89% das candidaturas identificadas.

Na sequência aparecem católicos (3,8%), cristãos (3,8%) e representantes de religiões de matriz africana (3,5%).

O recuo, portanto, não significa necessariamente que a religião tenha perdido espaço na política. Especialistas ouvidos pela reportagem interpretam o movimento antes como uma mudança de estratégia — uma espécie de reposicionamento do marketing eleitoral.

Também pesa nessa conta a redução do universo de candidatos. O total de candidaturas no País caiu quase 30% em relação a 2022. A queda se aprofunda quando a comparação alcança 2020.

“Há candidatas que retiram o nome ‘missionária’ das urnas, mas acionam e mobilizam valores, como mulher ‘de fé’, ‘de Deus’, numa estratégia clara para driblar ideias preconcebidas do eleitorado sobre o significado explícito do que representaria, em 2026, se autointitular evangélico em meio a uma campanha eleitoral”, explica Carolina Evangelista, pesquisadora do Iser.

O mesmo raciocínio ajuda a explicar a adoção de rótulos mais abrangentes.

“Temos também observado o uso da categoria ‘cristã’ como uma estratégia para alargar o eleitorado e romper com o binarismo entre católico ou evangélico”, completa. “Assim, repito, é a partir da mobilização de valores, defesas e costumes que a agenda política é comunicada.”

Do ponto de vista de gênero, as mulheres que adotam o título de “pastora” somam 65 candidaturas, enquanto os “pastores” homens chegam a 179. A diferença se repete entre bispos e bispas: são 34 homens e 12 mulheres. A inversão aparece apenas entre os missionários: 36 mulheres usam “missionária” no nome de urna, contra apenas três homens identificados como “missionário”.

Ainda assim, a presença feminina nesse universo é ligeiramente maior do que na eleição passada. E a força da mobilização religiosa entre mulheres não se limita aos títulos estampados na urna — justamente uma das pistas de que a influência da fé pode estar migrando para outras formas de comunicação política.

A candidata ao Senado Michelle Bolsonaro (PL), por exemplo, construiu nos últimos anos uma forte aproximação com o eleitorado evangélico. Em 2022, durante a campanha “Mulheres com Bolsonaro”, declarou:

“Infelizmente, muitos cristãos não estão enxergando. Não olhem para o meu marido, olhem para mim, que sou uma serva do Senhor, que tenho discernimento do mundo espiritual. Ele é tão falho quanto eu e quanto você, porque perfeito é só Jesus, e Jesus não agradou a todos.”

Nas palavras das pesquisadoras do Iser Lívia Reis e Jacqueline Teixeira, o protagonismo assumido por Michelle na campanha de 2022 explorou, entre outros elementos, a comparação com a rainha Ester. Personagem central do Livro de Ester, no Antigo Testamento, ela é uma jovem judia que se torna rainha da Pérsia e usa sua posição junto ao rei Assuero para interceder em favor de seu povo, ameaçado de extermínio. Na tradição cristã contemporânea, a personagem costuma ser evocada como símbolo de coragem, fé e influência feminina exercida em um espaço de poder.

“Assim, ao longo da campanha, Michelle Bolsonaro fez discursos que remetiam à passagem bíblica que afirma que a fé da mulher tem força para redimir o homem — e Michelle seria uma prova disso —, apostando na retórica de valorização feminina e reconhecendo as mulheres como responsáveis pelos vínculos familiares em todas as dimensões: de cuidado, econômicas e espirituais.”

Michelle faz uma oração ao lado do presidente Jair Bolsonaro durante evento de campanha em Juiz de Fora (MG), no dia 16 de agosto de 2022. Foto: Silvia Izquierdo/AP

A comparação com a eleição anterior reforça outro aspecto desse deslocamento: a identidade religiosa não é necessariamente apresentada da mesma maneira de uma disputa para outra. O título muda, a referência se amplia, a forma de falar com o eleitor é recalibrada.

Entre candidatos que concorreram em 2022 e voltaram às urnas em 2026, há alterações no próprio nome escolhido para a campanha. Márcio Lima de Oliveira, por exemplo, disputou a eleição passada como “Bispo Marcio” e agora aparece como “Pastor da Favela”. A referência ao cargo eclesiástico cede espaço a uma identidade territorial e popular, sem que desapareça a marca religiosa.

João Luís Almeida Pinheiro trocou “Presbítero João Luís” por “Pastor João Luís”; Antonia Pereira passou de “Missionária Antonia” a “Pastora Antonia”; e Cirleide dos Santos Silva Oliveira deixou de ser “Irmã Cirleide” para se apresentar como “Missionária Cirleide”.

Em outro movimento, Sebastião Silvério da Silva mantém o título de pastor, mas acrescenta uma identificação profissional: de “Pastor Sebastião”, passou a “Pastor Camioneiro”.

“Irmã”, “De Deus”, “De Jesus”: quando a fé cabe no nome

O levantamento também incorporou à amostra os termos “irmã”, “de Deus”, “de Jesus” e “evangelista”. Como essas expressões nem sempre indicam uma vinculação religiosa, a reportagem checou cada candidatura a partir de postagens, declarações diretas nas redes sociais e materiais de campanha, numa tentativa de evitar falsos positivos.

Nas buscas por “irmã”, surgiram 19 nomes. A maior concentração está no Nordeste, sobretudo em Pernambuco, com sete candidaturas, seguido por Piauí, com três, e Sergipe, com duas. Alagoas, Bahia, Maranhão, Pará, Amapá, Goiás e São Paulo registram uma candidatura cada.

Algumas delas deixam pouca margem para dúvida sobre o conteúdo religioso incorporado à campanha. É o caso de Irmã Nazaré (União-AL), Irmã Maria (MDB-AP), Irmã Mari (Rede-GO) e Irmã Iolanda (Republicanos-PE), que se apresentam nas redes como cristãs ou “mulheres de fé guiadas por Deus”. Irmã Mari e Irmã Iolanda também publicaram fotografias em igrejas de tradição pentecostal ou neopentecostal.

A mesma lógica aparece em campanhas como as de Zé de Irmã Teca (PSD-PE) e Irmã Rose (PP-PE). Em vez de depender apenas do nome eleitoral para assinalar uma pertença religiosa, seus perfis combinam a identidade escolhida para a urna com postagens frequentes de versículos bíblicos e números de campanha.

No Piauí, Irmã Celina Lopes é ainda mais explícita ao reivindicar a representação política do eleitorado evangélico do estado.

“Meu irmão e minha irmã, você, assim como eu, não está cansado dos políticos que visitam sua igreja somente em época de eleição, a cada dois anos?! Eu estou!”, escreveu em uma publicação. “Por isso sou candidata: porque entendo que, no Piauí, todos os segmentos têm seus representantes e a igreja piauiense não tem nenhuma deputada federal eleita que entenda muito bem as dificuldades do povo de Deus! Como qualquer cidadão, nós, evangélicos, pagamos impostos.”

Entre as católicas que recorrem ao termo, Irmã Mabel (MDB-SE), candidata a deputada federal, aparece sozinha. Nas redes sociais, apresenta-se sob o slogan “cuidar da gente é a nossa missão”. Recentemente, participou de programas de rádio locais em Sergipe para divulgar seu trabalho em instituições de caridade vinculadas a paróquias.

Já entre os sobrenomes “de Deus” e “de Jesus”, o levantamento encontrou sete candidaturas. Três delas acionam também, diretamente no nome de urna, uma identidade pastoral: Pastora Maria de Jesus (PL-AP), Pastor João de Deus (PODE-DF) e Pastor de Jesus (DC-GO).

Outros casos mostram por que o sobrenome, isoladamente, não basta.

Embora façam menções em postagens a temas como liberdade de expressão e censura, Luiza de Deus (Avante-BA), João de Deus (PODE-PE) e Antonio de Deus (DC-PI) não deixam clara uma filiação religiosa pessoal. O cantor sertanejo Augustinho de Deus (PL-RS), por outro lado, publica diariamente versículos bíblicos e evoca um “chamado à batalha” para vencer as eleições.

Por fim, dez nomes aparecem na categoria “evangelista”. Entre eles, Samuel Evangelista (PSOL-MA) é o único que faz referências explícitas a símbolos cristãos nas redes sociais, inclusive com a menção a “Yahweh” na biografia do Instagram.

Charles Evangelista (PL-MG) segue por outra trilha: publica cortes de vídeos de tom mais radicalizado, referências aos direitos da família, das crianças e dos adolescentes e fotografias com Bolsonaro, mas sem acionar diretamente uma identidade religiosa pessoal.

Os exemplos ajudam a dimensionar o desafio do levantamento. Entre o nome civil, o título religioso e a comunicação política existe uma zona cinzenta — e é justamente nela que parte das campanhas parece operar em 2026.

‘Bancada da Macumba’

Se entre candidatos evangélicos há sinais de uma retirada estratégica dos títulos religiosos, entre representantes das religiões de matriz africana aparece também o movimento contrário: tornar mais visível uma identidade historicamente alvo de preconceito e intolerância.

Mãe Bernadete de Oxum, de Ilhéus (BA), responsável pelo Ilê Axé Odé Omí Ewá, é uma das poucas sacerdotisas do candomblé na disputa eleitoral deste ano. Candidata a deputada federal pelo PSOL, desenvolve trabalho social no Movimento Negro Unificado e no Instituto Marielle Franco no estado, com distribuição de alimentos e livros para comunidades do município baiano.

Desde 2018, ela pleiteia cargos federais, estaduais e municipais. Esta, porém, é a primeira eleição em que decidiu levar o cargo religioso para o nome de urna.

“Desde 2018, eu aparecia como Bernadete de Souza. Este ano, adotei o nome Mãe Bernadete de Oxum. Sou ialorixá há 22 anos no terreiro que nasceu na fundação do Assentamento Dom Helder Câmara, e seria injusto comigo mesma esconder minha identidade devido ao avanço do conservadorismo no país”, afirma. “Afinal, se há bancada evangélica, por que não haver de outras religiões?”

Nas redes sociais, Bernadete também se apresenta como integrante da “Bancada da Macumba”. Lançada em 1º de agosto, a iniciativa reúne seis parlamentares ligados ao PSOL e pertencentes ao candomblé e à umbanda.

Filha de Oxóssi, orixá associado à caça e às florestas, ela explica que a articulação tem como ponto de partida uma reação à violência e à intolerância religiosa:

“Nós nos juntamos porque estamos cansados do processo de intimidação a que nos submetem. Virou rotina a Polícia Militar interromper as atividades do terreiro, desrespeitando o culto de 300 membros da casa; virou rotina sermos recebidos com sal grosso, óleo ungido e outras provações de cristãos radicalizados. Ou seja, nos lançamos numa tentativa de reafirmação identitária, pois nossa agenda é contra a intolerância religiosa, o desmatamento dos habitats dos nossos orixás e pela preservação da memória do nosso povo ancestral.”

A reportagem questionou por que outros nomes ligados ao candomblé ou à umbanda — como Nana (DF), Mãe Isabel de Oxum (PT) e Mãe Manu Oxum (Solidariedade) — não foram incluídos na bancada.

“É algo que estamos articulando, pois desejamos expandir as candidaturas. Só não iremos aceitar pessoas do candomblé que se entregam a partidos que são contra nós e contra a nossa existência. Afinal, não dá para levar a sério quem se diz do candomblé e é de direita”, conclui.

Partidos e estados

A distribuição partidária oferece outra pista sobre a relação entre religião e política nas urnas. O MDB concentra o maior número de candidaturas abertamente religiosas, com 37 nomes, seguido pelo PL, com 36, e pela Democracia Cristã, com 32. Logo depois aparece o Republicanos, com 31 — partido presidido pelo deputado federal Marcos Pereira, bispo da Igreja Universal e candidato à reeleição.

Nos três primeiros partidos do ranking aparecem apenas identidades religiosas cristãs, católicas ou evangélicas.

Entre as dez legendas que mais lançaram sacerdotes e outros profissionais do campo religioso na eleição deste ano, predominam partidos de perfil conservador e alinhados à direita.

O PT, partido do presidente Lula, surge apenas na 13ª posição, com 15 candidaturas. Logo atrás está o PSOL, com 14. Dessas, cinco deixam explícita a relação com religiões de matriz africana, como Mãe Bernadete de Oxóssi e Pai Edson de Ogum. Até o Missão, que disputa uma eleição nacional pela primeira vez, aparece no levantamento, com duas candidaturas religiosas.

Os dados ganham outra dimensão quando colocados diante do retrato religioso do País. Hoje, 26,9% da população brasileira se declara evangélica — cerca de 47,4 milhões de pessoas. O número absoluto de católicos, por sua vez, recuou para aproximadamente 100 milhões. Também cresceram as parcelas ligadas a tradições religiosas indígenas e afro-brasileiras, além daqueles que afirmam não ter religião, hoje equivalentes a 0,1%, 1,8% e 9,3% da população, respectivamente.

A discrepância entre o peso demográfico desses grupos e sua presença entre as candidaturas religiosas explícitas mostra que representação política não é um simples reflexo da composição da sociedade. Ela depende também da capacidade de cada segmento de converter identidade, organização e pertencimento em mobilização eleitoral.

Geograficamente, a maior quantidade absoluta de candidatos que acionam explicitamente uma identidade religiosa está no Sudeste. O Rio de Janeiro lidera entre os estados. Proporcionalmente, no entanto, o Nordeste apresenta maior incidência: são 136 identificações religiosas nos nomes de urna em uma amostra regional de 5.300 candidaturas, o equivalente a 2,6%.

A idade também produz alguma diferença, embora menos expressiva. Segundo o levantamento, candidatos com identidades religiosas explícitas têm, em média, 3,4 anos a mais do que aqueles que não acionam esse pertencimento no nome eleitoral.

E a visibilidade religiosa tampouco se converte automaticamente em votos. Em 2022, apenas 23 dos 649 candidatos identificados pelo levantamento foram eleitos — cerca de 3,5%. Em 2018, foram 18.

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