Política
Cúpula do PP barra Tereza Cristina como vice de Flávio Bolsonaro e apela para apoio do… PT
Dirigentes argumentam que a senadora pode obter o endosso de petistas para se lançar à presidência do Senado, diante de atritos de Lula com Alcolumbre
A direção nacional do Progressistas oficializou nesta sexta-feira 31 a decisão de permanecer neutra na disputa presidencial e descartou convocar uma convenção nacional para rever esse posicionamento, encerrando a possibilidade de a senadora Tereza Cristina (PP-MS) integrar como vice a chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL). Em nota, o partido informou que a decisão foi tomada após consulta aos diretórios estaduais e que já foi comunicada – e acatada – pela própria congressista.
O anúncio ocorreu poucas horas depois de Flávio afirmar a jornalistas, em São Paulo, que Tereza Cristina havia aceitado o convite para integrar sua chapa e que restava “apenas” o aval do partido para formalizar a composição. “O convite foi feito, ela aceitou e agora estamos nas conversas para saber se o partido vai avançar ou não”, declarou o candidato do PL. A manifestação oficial do PP, porém, enterra a possibilidade de a legenda rever sua estratégia de neutralidade.
Nos bastidores, a resistência ao movimento vinha crescendo desde a reunião entre Flávio e Tereza Cristina, realizada na quarta-feira 29. Segundo relatos obtidos por CartaCapital, o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira (PI), consultou dirigentes estaduais e integrantes da executiva sobre uma eventual aliança com o PL. A maioria se posicionou contra a mudança de rumo, sob o argumento de que a neutralidade preserva a autonomia da legenda para manter alianças distintas nos estados e evita associar a federação União Progressista a uma candidatura considerada fraca.
A estratégia para convencer Tereza Cristina, porém, foi além da defesa da neutralidade. Dirigentes passaram a sustentar que disputar a vice-presidência significaria abrir mão de um projeto considerado muito mais promissor: a presidência do Senado em 2027. Na avaliação desse grupo, a próxima legislatura deverá ter uma composição significativamente mais favorável à direita, o que colocaria a senadora em posição competitiva para comandar a Casa.
Mais do que isso, interlocutores do partido passaram a argumentar que Tereza Cristina poderia construir uma candidatura de consenso. A avaliação é que, caso mantenha um perfil razoável e não assuma compromissos com pautas mais radicais do bolsonarismo – como propostas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal –, ela teria condições de reunir apoio inclusive de setores do PT.
Esse raciocínio leva em conta o momento delicado da relação entre o presidente Lula (PT) e o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que deve disputar a recondução ao cargo em 2027. Embora o Palácio do Planalto e Alcolumbre tenham mantido uma aliança ao longo dos últimos anos, a relação sofreu desgaste recente em razão de divergências sobre a condução da pauta legislativa, indicações para cargos e votações de interesse do governo.
Outro argumento apresentado à senadora é o peso simbólico de sua candidatura. Se eleita, Tereza Cristina seria a primeira mulher a presidir o Senado, fator que, na visão de dirigentes do Progressistas, poderia facilitar a formação de uma maioria suprapartidária em torno de seu nome.
O movimento representa um revés para a estratégia de Flávio Bolsonaro de ampliar sua coalizão. Depois das dificuldades para atrair partidos do Centrão e da crise com Michelle Bolsonaro (PL), o senador passou a tratar Tereza Cristina como prioridade absoluta para a vaga de vice. Ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro (PL), ela é considerada um dos principais quadros do agronegócio, mantém bom trânsito no setor produtivo e era vista como capaz de conferir maior densidade política à chapa.
Na quinta-feira 30, a senadora havia confirmado que se reuniu com Flávio para discutir o cenário eleitoral, mas ressaltou que uma eventual composição dependeria de “avaliações políticas e pessoais, além de consultas e acertos partidários”. Aliados afirmavam que ela já havia sinalizado disposição para aceitar o convite, enquanto lideranças do PL trabalhavam para convencer o PP a rever sua posição.
A nota divulgada nesta sexta-feira, contudo, encerra a discussão dentro do partido.
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