…

Crivella, entre a igreja e a gestão pública

Política

“Não à legalização do aborto. Não à legalização das drogas. Não à ideologia de gênero da criança”, bradou Marcelo Crivella (PRB) em seu primeiro discurso após a vitória, com 59% dos votos, para a Prefeitura do Rio de Janeiro. A manifestação, que envolveu até uma oração, deu o tom da política que seria colocada em prática pelo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) a partir de 1º de janeiro de 2017, quando tomou posse, dando início à gestão que chega a seus cem primeiros dias nesta segunda-feira 10.

Sem avançar em algumas questões fundamentais, como no que diz respeito à Educação e à Segurança Pública, Crivella tem sido criticado por não apresentar ainda um projeto político claro para o município. As críticas também têm sido ensejadas pelo descompasso entre o que diz o prefeito e o que dizem seus secretários, um aspecto “sadomasoquista” da administração, segundo escreveu o ex-prefeito Cesar Maia. 

Essa dificuldade de comunicação não facilita a vida de Crivella em meio às diversas polêmicas em que se meteu. Em 2017, ele entrou para a história ao se tornar o primeiro prefeito em início de mandato a não participar do Carnaval do Rio desde a inauguração do Sambódromo, em 1984. Crivella também não foi à cerimônia em que, tradicionalmente, o prefeito entrega ao Rei Momo as chaves que simbolizam a abertura do grande evento.

Crivella foi criticado por não separar suas posições como pastor evangélico e gestor público. Ao se justificar, afirmou que “a agenda do prefeito não necessariamente é a agenda da imprensa”, uma forma de dizer que o maior espetáculo do calendário da cidade não é prioridade da prefeitura.

Outra polêmica envolvendo o prefeito se deu em março. Crivella foi acusado de pedir ao jornal O Dia a demissão do repórter Caio Barbosa, autor da matéria “Filas e mau atendimento em busca de vacinas contra febre amarela”. Publicada no dia 16 de março, a matéria foi retirada do ar no mesmo dia e o repórter, demitido no dia seguinte. Em nota, Crivella afirmou que a acusação é falsa e disse ter “nojo” de perseguições políticas. Barbosa reagiu afirmando que a declaração “do prefeito é uma mentira do início ao fim”.

Promessas

Durante a campanha eleitoral, Crivella fez 50 promessas cujo cumprimento pode ser verificado. Segundo levantamento da ONG Cidadania Inteligente, para 35 delas ele fez ao menos um decreto solicitando estudos de viabilidade. 

Entre as que foram cumpridas, está a redução do número de secretarias municipais. Elas foram cortadas pela metade, sob o argumento de que a medida garantiria “uma economia significativa do gasto com a máquina administrativa e dando mais agilidade aos processos decisórios dentro da Prefeitura”.

Uma fonte próxima à prefeitura reconhece que, do ponto de vista de custo, o corte não representa uma diferença tão significativa, mas diz que há “uma diferença importante no sentido de coordenação de políticas, porque é muito mais fácil reunir 12 secretários para discutir políticas de forma integrada”, diz.

Marcelo Crivella

Crivella em campanha de doação de sangue. Ele promete reduzir a desigualdade (Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

Segundo essa fonte, a principal preocupação de Crivella é “colocar para funcionar melhor” o que já existe e reduzir a desigualdade social na cidade. “Quando ele fala em ‘cuidar das pessoas’, que é algo que tem um ar muito paternalista, tem também o lado de que ele sabe que a questão central é a diminuição da desigualdade”, afirma.

A ideia para fazer isso é ampliar o custeio de saúde e educação e aumentar investimentos nas áreas mais carentes da cidade. Um dos planos é transformar em bairro modelo a favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá, constituída majoritariamente por trabalhadores nordestinos que prestam serviços nas residências e shoppings da Barra da Tijuca. 

Duelo com a agenda progressista

Para no combate à desigualdade a pauta comum entre Crivella e os setores progressistas. Em embates de temas como educação e segurança pública, o prefeito é acusado de trocar a política pública, baseada em princípios éticos e interesses da população, por uma política doméstica, baseada nos valores e princípios morais próprios de sua igreja.

O caso da educação é emblemático. Às vésperas da votação do Plano Municipal de Educação (PME), documento que define as metas da área nos próximos dez anos, prevista para meados de maio, o debate sobre o projeto não avançou, interditado pela pauta conservadora.

Em 4 de abril, em audiência pública realizada na Câmara dos Vereadores, cabos eleitorais da Igreja Universal e vereadores da base do bispo ocuparam as galerias entoando palavras de ordem e empunhando faixas e cartazes com dizeres como “abaixo a erotização das nossas crianças”, “abaixo a ideologia de gênero” e em defesa da “família” e do Projeto de Lei “Escola Sem Partido”. Era uma manifestação contra a permanência da palavra “gênero” no documento.

O resultado foi o esvaziamento do debate, que ficou restrito a essa questão. Para o vereador Tarcísio Motta (PSOL), professor e integrante da Comissão de Educação e Cultura, o governo tem sido “no mínimo, omisso” diante deste tema. Para Motta, Crivella assumiu na campanha posições “que davam força para um tipo de visão fundamentalista e preconceituosa, sobre a população LGBT, sobre o debate feminista e, portanto, sobre o debate de gênero”. Para ele, Crivella alimentou uma “resistência que é absolutamente incompreensível no PME”.

“É o momento de o Crivella mostrar se de fato vai adotar uma posição do pastor que assumiu a prefeitura ou do agente público, do servidor público, que reconhece que não são as concepções religiosas dele que devem orientar a política que ele tem para a cidade”, diz Motta. “Ele precisa se posicionar e até agora o Crivella não deu uma palavra sobre essa situação, embora, no fim das contas, seu discurso e sua presença acabem dando força a essa parcela fundamentalista, conservadora, reacionária”, afirma Motta.

Segurança Pública: “um deserto de ideias”

Na segurança pública, Crivella está na contramão do debate progressista que reconhece a necessidade da desmilitarização das polícias. O prefeito do Rio de Janeiro defende, desde a campanha, a ideia de uma mudança na Lei Orgânica municipal para permitir que agentes da Guarda Municipal trabalhem armados e se articulem com a Polícia Militar.

A proposta é duramente criticada pelo antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública do governo Lula. “A segurança pública permaneceu, na campanha e nesses primeiros meses de governo, sendo uma terra de ninguém, um deserto de ideias e de compromissos”, diz. 

Crivella mencionou a segurança diversas vezes durante a campanha, segundo Soares, por se tratar de “um tema popular e muito importante, mas se resumiu àqueles bordões de sempre, os mais tradicionais e limitados, do senso comum mais pobre, mais simplório”, diz.

A nomeação do secretário de Ordem Pública seguiu essa lógica. A pasta foi entregue ao coronel Paulo César Amêndola, fundador do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) e citado pelo grupo Tortura Nunca Mais como integrante do aparelho repressivo da ditadura. 

Soares, assim como os principais especialistas em segurança pública, defende a desmilitarização da Polícia Militar. A ideia de Crivella, portanto, não faz sentido para ele. “Assim como a PM é uma miniatura do Exército em desvio de função, as Guardas Municipais, em geral comandadas por oficiais da reserva da Polícia Militar, se tornam também uma miniatura da PM em desvio de função, ou seja, cumprindo funções que não correspondem às originais”, critica.

Maria Eduarda

Protesto. Assassinato de estudante é respondido com proposta de “blindar” escolas (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

O policiamento comunitário, que, de acordo com Soares é o mais efetivo, significa exatamente “o avesso da rigidez hierárquica centralista militar” e exige uma flexibilidade adaptativa dos agentes, que não podem ser meros cumpridores de ordens, como no meio militar.  

A morte da estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, baleada durante aula de educação física na quadra da Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, no bairro Fazenda Botafogo, subúrbio da zona norte, aprofundou o debate sobre a militarização das favelas.

Crivella respondeu ao episódio com uma proposta inusitada. Ele quer blindar muros e paredes de escolas da rede municipal contra confrontos armados, utilizando uma argamassa especial, importada dos Estados Unidos.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem