Política

Eleições 2016

Crivella e a Igreja Universal

por Jean Wyllys publicado 25/10/2016 10h59, última modificação 25/10/2016 12h37
O problema não é religião, questão do foro íntimo, mas um candidato a prefeito que queira fazer do Estado uma extensão de sua igreja
Antonio Cruz/Agência Brasil
Marcelo Crivella

Marcelo Crivella fez discursos de ódio contra os gays no Senado e, sempre que uma lei em favor dos direitos LGBT esteve em discussão, foi contra.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque vos assemelhais a sepulcros caiados, que, por fora, deveras, parecem belos, mas que, por dentro, estão cheios de ossos de mortos e de toda sorte de impureza"  (MT, 23, 27-28)

No horário eleitoral, nos debates e nas entrevistas, Marcelo Crivella (PRB-RJ) diz que a ninguém interessa qual é a religião do prefeito — e eu concordo. No PSOL (partido em que sou filiado) há católicos, evangélicos, candomblecistas, macumbeiros, judeus, espíritas e pessoas com as mais variadas crenças, além de ateus e agnósticos.

O problema não é “a religião do prefeito”, que é uma questão do foro íntimo — mas o perigo de eleger um prefeito que queira fazer do Estado uma extensão de sua igreja, para beneficiá-la por meio da máquina pública e impor seus dogmas ao conjunto da população.

Então, a pergunta que a população do Rio de Janeiro deveria se fazer é a seguinte: a relação de Crivella com a Igreja Universal do Reino de Deus é uma questão privada ou pode se tornar um problema público?

Uma rápida busca no site da Câmara dos Deputados permite identificar alguns dos projetos de lei que parlamentares do partido de Crivella
defendem. 

Por exemplo, uma lei para obrigar o Conselho Federal de Psicologia, contra toda a evidência científica, a tratar a homossexualidade como uma “doença”, e outro projeto para sustar o decreto da presidenta Dilma Rousseff que reconheceu o nome social das pessoas travestis e transexuais.

As bancadas do partido de Crivella, do seu aliado Anthony Garotinho e de outras denominações ligadas às igrejas neopentecostais atuam, tanto no Congresso Federal quanto nos estados e nos municípios, como representantes de uma agenda contrária aos direitos das mulheres, da população LGBT e de outras minorias.

Defendem o fim de toda política de prevenção do bullying homofóbico nas escolas, são contra todos os projetos que garantam direitos e combatam a discriminação e expõem, em seus discursos públicos, muito ódio e muita intolerância.

Crivella agora diz que ele não tem preconceito nenhum, que defende o Estado laico e que não permitirá influência de sua igreja no governo.Contudo, sua trajetória pública mostra exatamente o contrário.

Ele gosta de falar da época em que foi “missionário” na África, mas esquece de contar o que ele fazia naquele continente: combatia o catolicismo e as religiões de matriz africana para implantar a igreja de Edir Macedo.

O livro que ele mesmo escreveu sobre aquela experiência, resgatado pelo jornal O Globo, é bem ilustrativo: nele, Crivella insulta os católicos, os umbandistas, os espíritas, os budistas e os homossexuais.

Quando o conteúdo do livro foi revelado, Crivella, que nunca tinha pedido perdão por esse libelo cheio de ódio, disse que foi publicado quando ele tinha “apenas” 42 anos e era “imaturo”.

Eu tenho 42 anos e, sinceramente, não acredito nessa desculpa. Eu sei o que eu falo.

Mas, tudo bem. Esqueçamos o livro. Esqueçamos, também, a música que Crivella gravou em um CD para homenagear o pastor da Universal que chutou numa imagem de Nossa Senhora, ofendendo os católicos.

Esqueçamos tudo o que possa ser considerado “velho” demais. Vejamos o que é que Crivella fez nos últimos anos no Senado. Uma das principais lideranças da bancada evangélica, fez discursos de ódio contra os gays na tribuna da Casa, falando que a homossexualidade é pecado e que o homem que se deita com outro homem “comete abominação” (trecho descontextualizado do Levítico que toda liderança homofóbica adora). E, cada vez que uma lei em favor dos direitos da população LGBT esteve em discussão, ele foi contra.

Crivella tenta esconder quem é, convenientemente assessorado pelo marqueteiro, mas a verdade está em todos os discursos dele nos últimos anos, filmados e disponíveis na internet.

Ele disse que os gays somos produto de um “aborto mal feito” (como é possível alguém falar isso e ser candidato a prefeito da segunda maior metrópole do país?), que as mulheres devem “obedecer” aos homens, que a única família que deve ser reconhecida é a família “tradicional cristã” e outras barbaridades do tipo.

Ele confessou publicamente que entrou na política por decisão da Igreja Universal (aliás, ele disse que, quando a igreja ordena que ele faça algo, ele não discute) e que o objetivo deles é eleger um presidente evangélico que “trabalhe pelas igrejas” e “evangelize todo o mundo”. O plano político da Universal está escrito, aliás, num livro de Edir Macedo intitulado “Plano de poder”.

Plano de poder 

Crivella é senador e candidato pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB), braço político da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Além de uma poderosa rede de templos faraônicos (Crivella fala das suas “100 obras registradas” como engenheiro, e a verdade é que foram 84, das quais 75 são templos da Universal), também tem um canal de televisão, um jornal, uma gráfica, aviões, passaportes diplomáticos, uma espécie de exército de “Militantes da fé” (os “Gladiadores do Altar”), ministérios e representantes nos parlamentos federal, estaduais e municipais.

O PRB tem 17 deputados federais, 4 deputados estaduais no Rio de Janeiro e 3 vereadores eleitos na capital, e nada menos que 11 desses 24 parlamentares são bispos ou pastores da Igreja Universal.

Além destes, ao menos mais três tiveram sua campanha organizada diretamente pela Universal — e a justiça condenou bispos dessa congregação por pedir voto para eles nos cultos, violando a lei eleitoral — e mais uma era responsável por um projeto da Universal em seu estado.

Outros quatro parlamentares do PRB são pastores de outras igrejas neopentecostais, que têm em comum com a IURD sua agenda fundamentalista e contrária aos direitos da população LGBT e outras minorias.

E ainda tem mais: seis dos 24 parlamentares do PRB eram, antes de ser candidatos, apresentadores ou diretores da TV Record, também propriedade do bispo Edir Macedo, tio de Crivella.

Quer dizer: o que os números mostram é que, para ser candidato pelo partido de Crivella, é necessário ser funcionário da igreja ou do canal de televisão da holding.

O mesmo acontece no caso dos cargos executivos: o próprio Crivella, ex-ministro da Pesca do governo Dilma e candidato a prefeito do Rio de Janeiro, é bispo licenciado da Universal, da mesma forma que o atual ministro Marcos Pereira, que integra o governo Temer.

Vejamos, especialmente, dentre os 24 parlamentares do PRB, o que acontece no caso dos deputados estaduais do Rio de Janeiro e com os vereadores eleitos agora, em 2016, para a Câmara Municipal da capital, onde Crivella pretende governar.

Dois dos quatro deputados estaduais e dois dos três vereadores do PRB são bispos da IURD, um dos deputados estaduais já foi apresentador da TV Record, a quarta deputada estadual teve sua campanha organizada pela igreja e a terceira vereadora contratou como chefe de gabinete, no primeiro mandato, uma pessoa citada em investigações da Polícia Federal como suposto “laranja” no processo de compra da Record.

Um dos vereadores, além de bispo, já foi diretor da Gráfica Universal, onde foi impresso o livro de Crivella cheio de insultos contra os católicos, os gays e outros que são diferentes do modelo de ser humano defendido por sua igreja.

E o que acontece com as autoridades do partido? O presidente nacional da legenda era o próprio bispo Pereira, que pediu licença para integrar o governo. E quem o substituiu na presidência? Eduardo Lopes, ex-diretor da Folha Universal, o jornal da igreja. O tesoureiro do partido também é pastor da Universal.

Não é coincidência!

Por isso, eu quero fazer um chamado a todos os que não querem que o Brasil se transforme em uma teocracia, como o Irã ou a Arábia Saudita. Chamo, especialmente, as mulheres, o povo de santo e a população LGBT do Rio de Janeiro, que serão as primeiras vítimas dessa gente no poder: temos que reagir!

Não basta votar: precisamos falar com nossa família, nosso pai, nossa mãe, nossos irmãos, nossos amigos, vizinhos, colegas de trabalho, e explicar a eles que precisamos, também, que nos ajudem.

Que sejam solidários conosco na hora de votar e impeçam que um inimigo de nossa dignidade humana seja prefeito da cidade onde vivemos. Que nos ajudem a impedir essa tragédia.

Ainda tem mais uma semana para defender nosso direito à existência e garantir que o Rio de Janeiro não seja tomado por fundamentalistas religiosos.

Votar em Marcelo Freixo, além de ser uma excelente opção, porque ele é um cara honesto, corajoso e com boas ideias, é um ato de autodefesa para todos e todas nós.

Essa eleição não é entre a esquerda e a direita, mas entre civilização e barbárie.