Covas, o prefeito que lutou contra o câncer e o coronavírus

O prefeito não se afastou do cargo, mas instalou uma cama e mesa de cabeceira em seu gabinete no Palácio Matarazzo

Bruno Covas. Foto: Patricia Cruz

Bruno Covas. Foto: Patricia Cruz

Política

Bruno Covas enfrentou simultaneamente por mais de um ano os maiores desafios de sua vida política e pessoal: administrar São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil, durante a pandemia, e lutar contra o câncer. Neste domingo 16, o prefeito de 41 anos perdeu a última batalha.

Formado em Direito, o neto de Mário Covas (1930-2001), um dos políticos mais influentes do País que também morreu de câncer, iniciou sua carreira política aos 26 anos, vencendo sua primeira eleição em 2006, como deputado estadual pelo PSDB.

Depois de atuar como secretário do Meio Ambiente do governo de São Paulo (2011-2015) e como deputado federal em Brasília (2015-2017), Covas chegou ao Palácio Municipal em 2017 como vice-prefeito de João Doria.

 

 

 

Um ano depois, ele assumiu a prefeitura quando Doria se retirou para disputar o governo. À frente da capital econômica da América Latina, ele conseguiu construir uma imagem de administrador moderado.

Ao contrário de Doria, um ‘outsider’ do PSDB que surfou na onda antissistema dos últimos anos, Covas representou uma face mais tradicional do partido.

Posicionando-se no centro de um país polarizado, ele buscou emergir como o líder de uma nova geração política em um Brasil conturbado, governado pela extrema direita de Jair Bolsonaro.

Ele foi diagnosticado com câncer no sistema digestivo em 2019. Dois tumores, na cárdia e no fígado, desapareceram com a quimioterapia. Quando começava a tratar um terceiro tumor nos linfonodos em 26 de fevereiro de 2020, São Paulo registrou o primeiro caso de covid-19 no Brasil.

Dupla batalha

Covas não se afastou do cargo, mas instalou uma cama e mesa de cabeceira em seu gabinete no Palácio Matarazzo, imponente edifício no centro da cidade, coroado por um caramanchão.

Com a mudança, ele ficou à disposição 24 horas por dia para enfrentar o avanço do coronavírus que já deixou quase 29 mil mortos na cidade de 12,3 milhões de habitantes.

Durante os primeiros meses da pandemia, ele limitou suas saídas a visitas a alguns hospitais ou a reuniões com autoridades.

Divorciado, ele recebia apenas seu filho Tomás, de 15 anos, algumas vezes por semana. Apesar dos cuidados, Covas foi infectado pela covid-19 em agosto de 2020.

Mesmo assim, manteve-se no comando e, já recuperado, lançou-se a um novo desafio: as eleições municipais de novembro.

Com exames regulares e sessões de quimioterapia, os médicos afirmavam que sua doença estava controlada. Em novembro, abraçando o filho, agradeceu o apoio eleitoral, prometendo uma nova gestão marcada pelo consenso e pelo combate às desigualdades.

Mas em abril de 2021, sua equipe médica relatou que novos tumores apareceram e ele foi internado. Covas continuou trabalhando de seu quarto de hospital, apesar dos tratamentos que incluíam alimentação intravenosa.

Diante da piora de seu estado de saúde, ele pediu à Câmara Municipal de Vereadores licença de 30 dias para “se dedicar integralmente” à sua recuperação.

Agora será sucedido por seu vice-prefeito, Ricardo Nunes (MDB, centro), que foi alvo de polêmica durante a eleição por conta de denúncias de irregularidades administrativas e violência doméstica, que sempre negou.

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