Coronel ligado a Bolsonaro será investigado por denúncias de coação, humilhação e violência

Ministério Público do Trabalho determinou abertura de inquérito contra o ex-coronel da Rota Mello Araújo, que preside a Ceagesp

Bolsonaro e Mello Araújo no Ceagesp. Foto: Reprodução/Instagram

Bolsonaro e Mello Araújo no Ceagesp. Foto: Reprodução/Instagram

Política,Sociedade

A procuradora do Trabalho Ana Gabriela Oliveira de Paula determinou na segunda-feira 25 a abertura de um inquérito para investigar as denúncias feitas por ex-funcionários da Ceagesp contra o presidente da estatal, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo.

Antigos funcionários da empresa acusam o ex-coronel da Rota de praticar coação, humilhação e violência. Como noticiou CartaCapital, os fatos narrados teriam ocorrido no dia 6 de maio deste ano.

De acordo com a denúncia, Mello Araujo forçou o engenheiro Fábio Rogério Carbonieri e o técnico operacional Paulo Cesar Xavier a assinarem um pedido de demissão.

Segundo os relatos, Carbonieri e Xavier foram conduzidos por militares armados à sala do coronel que hoje chefia o órgão. No trajeto, proibidos de usar celulares, eles ouviram ofensas, xingamentos e ameaças.

À época, a reportagem conversou com os dois ex-funcionários que afirmam terem sido injustiçados. Ambos não tiveram acesso às supostas provas que Mello Araújo e a sua diretoria diziam ter contra eles.

“Cheguei para trabalhar e meu gerente e mais dois policiais falaram eu estaria furtando energia elétrica e que nove pessoas tinham me denunciando. Fui levado para a sala da Presidência para eu assinar, sob ameaças, a minha demissão. Por medo, eu assinei. Eles disseram que, se eu não assinasse, sairia preso da Ceagesp”, disse Carbonieri. “Eu pedi para ler as provas que eles diziam ter, mas me disseram que como era denuncia não precisava”, acrescentou o engenheiro que é dirigente sindical e trabalhava há 23 anos no local.

O roteiro relatado por Carbonieri foi repetido por Xavier, que tinha 16 anos de vida dedicados à empresa estatal. “Eu fui obrigado a assinar a demissão. A justificativa que eles deram é que fui reconhecido por um permissionário como responsável por uma ligação [elétrica] indevida”, contou.

“No dia 18 de abril, em um domingo, teve uma equipe que trabalhou próximo a esse permissionário e mudou a iluminação do pavilhão para o sistema automático. No dia seguinte, após o permissionário ficar sem energia, eu e um outro eletricista constatamos que havia sido feita uma instalação errônea e minha obrigação foi restabelecer a energia. Daí o gerente me disse que [a energia] não deveria ter sido religada. Ele também me disse que eu deveria resolver a situação ‘porque eu tinha família’ e ‘se eu não resolvesse por bem seria resolvido por mal, pois eu sairia de camburão’”, revelou.

Na decisão, a procuradora, da Procuradoria Regional do Trabalho da 2ª Região, em São Paulo, fala em “instaurar inquérito civil e ajuizar ação civil pública em defesa dos direitos sociais constitucionalmente garantidos no âmbito das relações de trabalho”. O caso se enquadra em conduta antissindical. Agora, o Sindicato dos Empregados em Centrais de Abastecimento de Alimentos de São Paulo tem 15 dias para dar mais detalhes aos procuradores sobre os episódios.

Outra acusação contra o presidente da Ceagesp foi registrada por câmeras de segurança no dia 9 de dezembro de 2020 no Sindicato dos Carregadores Autônomos em Centrais de Abastecimento no Estado de São Paulo (Sindicar).

De acordo com Mário Souza, que à época era o vice-presidente do sindicato, Mello Araújo foi armado e acompanhado ao sindicato e ameaçou carregadores e o seu pai, José Pinheiro, que presidia o Sindicar.

CartaCapital obteve a íntegra do vídeo que dura quase uma hora. É possível identificar Mello Araújo nas imagens. Ele aparece com uma camisa branca. Assista alguns trechos.

Mello Araújo foi indicado para o cargo pelo presidente Jair Bolsonaro. Funcionários também o acusam de militarizar o órgão.

Leia a decisão na íntegra:

Portaria nº 2414.2021_

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