Política

Guerra às drogas

Coordenador de programa de Doria afirma que não conhecia a Cracolândia

por Victória Damasceno publicado 28/06/2017 00h30, última modificação 27/06/2017 18h48
O psiquiatra Arthur Guerra está a frente do Rendenção há cerca de um mês e afirma que ainda não possui equipe de trabalho
Victória Damasceno
Mudança do fluxo

Um dos pilares do programa é a promoção da abstinência através da internação involuntária ou compulsória

Após começar a ser desenhado com uma ação da Polícia Militar, o programa de enfrentamento ao crack Redenção, do prefeito João Doria, têm como coordenador o psiquiatra Arthur Guerra, especialista no tratamento de pacientes com abusos de substância como o álcool e drogas.

Com pouco mais de um mês a frente do programa, o psiquiatra afirma que, sobre a Cracolândia e o programa Redenção, seu conhecimento é "muito pequeno”.

“Isso aqui é tudo muito novo pra mim, a minha visão é externa. A partir desse convite eu tive a oportunidade de conhecer um pouco mais nessas quatro semanas sobre o problema”, explica.

Em uma palestra no centro de São Paula na noite da última segunda-feira 26, o coordenador do programa aceitou o convite do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) para debater sobre os rumos do Redenção e tirar dúvidas de como seria feito o processo.

Na ocasião contou que antes de assumir o cargo sequer tinha ido à Cracolândia, além de afirmar que ainda não tinha uma equipe de trabalho além da assessoria de imprensa.

“Eu nunca tinha ido à Cracolândia, tive a oportunidade algumas vezes de estar lá. Inclusive na última quinta-feira, quando houve a mudança do fluxo, eu estava no meio e confesso que senti medo”, contou o psiquiatra, ao explicar que durante a movimentação encontrou “pessoas amigáveis” que o levaram até seu carro em segurança.

Guerra explica que sua falta de conhecimento do programa se dá porque ele não foi criador do projeto, mas que ao ser convidado pelo secretário da Saúde Wilson Pollara e pelo prefeito João Dória, recebeu um “esqueleto interessante”, mas que ainda precisaria ser “recheado para se tornar mais consistente”.

Com o objetivo de tratar dependentes químicos na região da Cracolândia, o programa Redenção será o substituto do programa De Braços Abertos, da gestão do ex-prefeito Fernando Haddad.

Uma das críticas ao programa de Haddad era os locais de uso controlado de drogas que existiam nas tendas e nos hotéis do programa. Em recente entrevista, Guerra afirmou que estudaria a possibilidade de existir também no programa Redenção áreas de uso similar, mas que, decepcionado com a baixa repercussão da declaração, crê ter “levantado a bola em um momento inoportuno”.

Sobre o De Braços Aberto, o coordenador assumiu que existem pontos que ele considera positivos no antigo programa, e que crê que se estes aspectos fossem mantidos ou reformulados dentro desta nova ótica o Redenção teria mais sucesso. “E também se pudermos pegar os pontos que não são positivos e pudermos reformulá-los, vamos estar contentes em relação a isso", afirma.

Arthur Guerra
Em 39 anos de carreira, o psiquiatra afirma ter internado apenas dois pacientes de forma involuntária (Cecília Bastos/Jornal da USP)
A principal mudança apontada entre os programas é a forma como se dá o tratamento com o usuário de drogas. Enquanto o programa petista é adepto ao modelo "Housing First" (moradia antes), que entende que dar um teto é a primeira estratégia fundamental para ressocialização de pessoas em situação de rua, o Redenção utiliza o conceito "Treatment First" (tratamento antes), que crê que somente quando o usuário estiver empenhado da desintoxicação estará apto a receber moradia.

Outro aspecto que exemplifica de forma clara a diferença entre os programas é a diferença nos meios utilizados para levar o beneficiário à abstinência. O De Braços Abertos utilizava redução de danos como a principal forma de tratamento, enquanto o Redenção trabalha com pilares que incluem a promoção de abstinência através da internação compulsória ou involuntária.

Questionado sobre a possibilidade da internação compulsória em massa, Guerra afirma que o programa não se propõe a trabalhar desta forma. “Se fala em internação compulsória porque é sobre o que se quer falar.

A internação não é uma prioridade, será feita apenas em raros casos”, explica o psiquiatra ao apresentar os dados das internações realizadas até agora, em que todas as 427 internações promovidas pelo programa foram feitas de forma voluntária.

Embora o coordenador tenha afirmado que o programa ainda está em um “estado de maturação não finalizado”, a prefeitura disponibilizou na tarde do mesmo dia as principais diretrizes do programa, que une ações de saúde, zeladoria, assistência social e cidadania, além da frente de segurança pública por meio da ação policial.

As diretrizes informam que o programa contará com o “Projeto Assistencial Singular”, que irá tratar os usuários de acordo com as suas particularidades e que dará a opção da política de redução de danos e da promoção da abstinência, que poderá ser feito por meio da internação voluntária, involuntária e compulsória, quando é determinada pelo juiz.

A inserção da redução de danos como uma das estratégias indica uma mudança de trajetória recente no Redenção. Assim que foi anunciado o fim do De Braços Abertos, o secretário da Saúde Wilson Pollara declarou que uma dos pré-requisitos deste novo programa seria submeter os usuários a testes antidoping frequentes para ter acesso a diversos benefícios que seriam oferecidos. 

Além disso, as diretrizes contam também diversas ações como abertura de vagas e leitos para desintoxicação, e promoção de empregos serão feitas em parceria com o governo do Estado, que hoje tem em atividade na Cracolândia o programa Recomeço, em que uma de suas principais políticas é a internação involuntária

O documento promete também o constante policiamento preventivo com a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana, além de afirmar que irá haver “combate contínuo do tráfico por meio da Polícia Civil”.