Política

Protesto

Contra reformas de Temer, greve mira transportes e rodovias

por Redação — publicado 30/06/2017 11h16, última modificação 30/06/2017 11h17
As manifestações contra as reformas da Previdência e trabalhista foram registradas em todo o País
Divulgação / Facebook / CUT Brasil
Greve geral

Bloqueio na Rodovia do Xisto, em Araucárias (PR)

A segunda greve geral contra as reformas trabalhista e da Previdência, ambas propostas pelo governo de Michel Temer, convocada para esta sexta-feira 30, atingiu principalmente os setores de transporte em algumas capitais e inúmeras rodovias em todo o País.

Até o fim da manhã, a manifestação parecia ter menos impacto que a realizada em 28 de abril, quando um protesto em Brasília terminou com ataques a prédios de ministérios e o governo convocando o Exército, um pedido desastrado que acabou sendo retirado horas depois.

No Distrito Federal, a greve desta sexta-feira teve adesão de diversas categorias, como metroviários, rodoviários, professores da rede pública e vigilantes. No caso dos transportes, o juiz Renato Borelli, da 20ª Vara Federal Cível do DF, determinou na quinta-feira 29 que, no mínimo, 30% da frota dos dois meios de transporte sejam mantidos em circulação, mas a determinação não foi cumprida. O juiz fixou multa de 2 milhões de reais para cada sindicato que descumprir a ordem.

A Esplanada dos Ministérios foi alvo de uma intensa operação de segurança para evitar atos como o de 28 de abril, no qual edifícios governamentais foram atacados. A Esplanada ficou fechada para o trânsito desde a 0h desta sexta-feira, em uma interdição que começou na Rodoviária do Plano Piloto, sentido Palácio do Planalto. Os policiais militares montaram vários cordões de revista nos acessos de pedestres ao local ea té mesmo os funcionários dos ministérios foram abordados.

Além de 2,6 mil policiais militares na área central da cidade, 400 homens da Força Nacional estão, desde as 5 horas da manhã, fazendo a segurança patrimonial dos ministérios. 

Por todo o Brasil, houve trancamento de vias, ou tentativas. Alguns dos alvos foram a BR-101, no Recife e em Sergipe, neste na altura do município de Maruim; a BR-110, na altura do município de Paulo Afonso (BA); a Rodovia do Xisto, entre Curitiba e Araucária (PR); a BR-287, na altura de Santa Maria (RS). Em Santa Catarina, durante ato na BR-101, na altura do município de Navegantes, dois manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MST) foram presos, "de forma arbitrária", segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Assim como em Brasília, o setor de transportes se mobilizou em Fortaleza e Belo Horizonte.

Na capital cearense houve paralisação de motoristas e cobradores de ônibus e um ato do sindicato dos trabalhadores da construção civil, que teve início na Praça Portugal, bairro da Aldeota, e terminou na Praça da Bandeira, no centro.

Em Belo Horizonte, os metroviários aderiram à greve e houve muitos protestos na região metropolitana, a maioria organizados pela CUT e pelo Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). No interior de Minas Gerais também houve atos em rodovias federais, como a BR-267 (altura de Juiz de Fora), BR-381 (em Itatiaiuçu) e BR-135 (em Montes Claros).

Em São Paulo, transporte não parou

Em São Paulo, sem a adesão do setor de transportes, que liderou o protesto de 28 de abril, ao lado de professores das redes pública e privada, o movimento foi fraco pela manhã na capital. 

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou, às 9h30, 11 pontos com interdições. Na Avenida São João, a Polícia Militar usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes.

Outro efeito visível da greve na cidade foi a paralisação nos bancos. Diversos bancos não funcionaram nesta sexta-feira 30 porque as entidades filiadas às federações e à Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) decidiram paralisar sua atividades. A Comissão Executiva dos Empregados da Caixa Econômica Federal também aderiu ao movimento.

Na Grande São Paulo e no interior, houve manifestações em rodovias como a via Anchieta, em São Bernardo do Campo (SP); a Dutra, na altura de Pindamonhagaba; e a Régis Bittencourt, entre Taboão da Serra e Embu das Artes. 

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) bloqueou pela manhã a rodovia Helio Smidt, principal acesso ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, mas após negociação com a Polícia Militar decidiu não ocupar todas as faixas da via. O MTST também realizou um ato no saguão do aeroporto de Congonhas, que fica dentro da capital paulista.

Rio teve diversos atos simultâneos

No Rio de Janeiro, houve diversos bloqueios em rodovias. A BR-101 tinha dois bloqueios. Em um deles, no quilômetro 484, em Angra dos Reis, por volta das 5h30, cerca de 40 pessoas interditaram totalmente as pistas. No quilômetro 72, em Campos dos Goytacazes, a pista foi interditada às 8h. No quilômetro 320, em Niterói, por volta das 5h50, manifestantes também atearam fogo a objetos na rodovia, mas a Polícia Rodoviária Federal já liberou a via.

Na capital do Rio, um protesto na altura do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) provocou a paralisação da Ponte Rio-Niterói (BR-101). Na Avenida 20 de Janeiro, que dá acesso ao Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, uma faixa foi ocupada.

A reforma trabalhista

O texto da reforma trabalhista altera profundamente as relações de trabalho no Brasil, ao regulamentar o trabalho intermitente, acabar com a contribuição sindical, enfraquecer Justiça do Trabalho e fazer acordos coletivos prevalecem sobre a legislação, entre outros pontos.

Ainda que a maior parte da grande imprensa não aborde o impacto negativo das mudanças, como mostrou levantamento da ONG Repórter Brasil, inúmeros especialistas são contrários ao texto.

"Com a reforma trabalhista, o poder do empregado fica reduzido a pó", disse a CartaCapital Maria Aparecida da Cruz Bridi, professora de Sociologia da Universidade Federal do Paraná. Ricardo Antunes, da Unicamp, referência na sociologia do trabalho, fez duras críticas ao texto em entrevista a CartaCapital. "Na escravidão o trabalhador era vendido. Na terceirização, é alugado", afirmou ele.

Na terça-feira 27, o Conselho Pleno da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aprovou duas preliminares sobre a reforma nas quais repudia o regime de urgência com que a proposta tramita no Congresso Nacional e denuncia inconstitucionalidades encontradas no projeto de lei.

A reforma da Previdência

A reforma previdenciária também conta com intenso apoio da grande imprensa. Como mostrou outro levantamento da Repórter Brasil, os principais veículos jornalísticos brasileiros tendem a ignorar as críticas às mudanças na Previdência

Ainda assim, há muitas vozes críticas às propostas do governo. Em entrevista a CartaCapital, a economista Denise Gentil, da UFRJ, lembrou que "é o próprio governo que provoca o déficit da Previdência" ao não cobrar sonegadores e conceder renúncias fiscais.

A economista Joana Mostafa, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), destacou que a "reforma da Previdência é muito perversa com as mulheres". Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp e colunista de CartaCapital, destacou que em um cenário de baixo crescimento, a explosiva combinação das mudanças trabalhistas e previdenciárias derrubará as receitas do INSS.