Como se apequenar? Principais jornais ignoram atos contra Bolsonaro

Só Folha de São Paulo, dentre os três jornais de maior circulação no País destacou, com devida manchete, os protestos com uma foto de uma Avenida Paulista preenchida de manifestantes em sua capa de hoje. Crédito: Reprodução

Só Folha de São Paulo, dentre os três jornais de maior circulação no País destacou, com devida manchete, os protestos com uma foto de uma Avenida Paulista preenchida de manifestantes em sua capa de hoje. Crédito: Reprodução

Política

Em 16 de março de 2016, às 19:30, um comentarista da GloboNews publicou a seguinte mensagem no Twitter: “Se vc estiver em SP e tiver vergonha do que ocorre em Brasília, há uma manifestação espontânea agora na Paulista contra Lula-Dilma”. O comentarista, que continua firme e forte no jornalismo da Globo, se referia, obviamente, aos protestos de rua que foram dilacerando gradualmente a popularidade da ex-presidente.

O que se tinha à época em Brasília, como dizemos na Bahia, era um imenso vatapá de loucuras que misturava denúncias de corrupção, desarticulação política, crise econômica, aumento do desemprego e uma conspiração tocada pelo PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha – em conluio com membros do PSDB que fez, ao mesmo tempo, Dilma Rousseff sangrar e a economia do país piorar – além da corrupção de teor político e persecutório da Lava Jato, cuja figura central, um ex-juiz e ex-ministro bolsonarista, era alçado pela emissora do mesmo comentarista ao status de herói nacional.

E o que temos hoje? Um presidente que nega a ciência na pior crise sanitária do País, que desdenha de seus mortos, que recusou uma quantidade de vacinas suficiente para imunizar metade da população brasileira com uma primeira dose, que estimula pessoas a brincarem de roleta-russa vendendo remédios com ineficácia cientificamente comprovada, que gera aglomerações sem uso de máscaras e que finda por ser o maior responsável pelas mais de 460 mil mortes em decorrência da Covid-19 no Brasil.

E o que tivemos ontem? Tivemos, enfim, uma manifestação de rua para pedir sua saída. Foram milhares nas ruas de cidades brasileiras, usando máscaras, ao ar livre, e muitos evitando se aproximar de outros depois de mais de um ano de uma política que adotou a morte como projeto de poder. E o que disse o comentarista da GloboNews do alto de seu espírito cívico manifestado naquele 16 de março de 2016?

Absolutamente nada. Na verdade nem se tratou de não ter convocado, mas de, simplesmente, se calar sobre a mobilização de milhares de brasileiro contra o morticínio patrocinado pelo governo. O comentarista certamente deve achar que a política da morte bolsonarista não é razão de vergonha patriótica como em 2016. Uma questão de perspectiva moral.

Fosse este um caso individual, estaríamos muito bem. O telejornalismo da Globo que cobriu os protestos contra Dilma ao vivo aos domingos, inclusive com repórteres afirmando que se tratavam de manifestações pacíficas e ordeiras, mesmo antes dos manifestantes sequer terem chegado às ruas para se manifestar, fez o que costuma fazer em momentos-chave da política nacional: ignorou e minimizou as manifestações até onde pôde. Sem cobertura ao vivo, sem repórteres passando estimativas do número de participantes, sem qualquer esforço para dar visibilidade aos protestos e informar seus espectadores acerca das razões pelas quais aquelas pessoas estavam ali.

Mas como desgraça pouco é bobagem em matéria de jornalismo de parte significativa da nossa chamada grande imprensa – que conseguiu se apequenar ainda mais ontem – só Folha de São Paulo, dentre os três jornais de maior circulação no País destacou, com devida manchete, os protestos com uma foto de uma Avenida Paulista preenchida de manifestantes em sua capa de hoje. O Estadão deu destaque à iniciativa de alguns municípios brasileiros de atrair turistas que podem trabalhar em home office para suas regiões. O Globo destacou o “reaquecimento” do PIB e uma linda foto em preto e branco do gênio Gilberto Gil. No critério de seleção e hierarquização de notícias desses dois jornais de grande circulação, manifestações de milhares contra o governo Bolsonaro são coisas irrelevantes. Não se trata, obviamente, nem de desonestidade intelectual. É indigência, mesmo.

Obviamente, como também está presente nas línguas do bolsonarismo, o argumento dessas empresas para a supressão da notícia política mais relevante dos últimos anos no Brasil é a de que o destaque devido poderia estimular aglomerações às vésperas de uma terceira onda de Covid-19 ou mesmo descredibilizar o jornalismo que fazem (e fazem mesmo) em consonância com as recomendações sanitárias de organismos internacionais. Esse argumento, porém, não para em pé.

Bolsonaro é constantemente abordado, com fotos, imagens, provocando aglomerações sem uso máscaras, segurando crianças e abraçando adultos. E lá está esse mesmo jornalismo registrando e informando o seu público do descalabro desse cidadão. E então? Nesses casos a notícia não estimula aglomerações? Não cola. Ademais, nada impediria que o devido destaque fosse dado às manifestações com críticas legítimas às aglomerações, mas nem isso foi feito. A invisibilidade deliberada tem todas as colorações de motivação política e ideológica. Algo como: “Quem lucraria ou lucra politicamente com a reverberação desses eventos?”. A gente sabe quem.

O jornalista Fernando de Barros e Silva sintetizou bem o problema e expôs as contradições para que não caiamos em falsos dilemas e falsas problematizações. Os jornalismos impressos e telejornalismos que decidiram não cobrir as manifestações de ontem à altura de seu significado e importância política como fizeram, com vigor militante, em 2016, cobriram, com repórteres nas ruas, os recentíssimos protestos do movimento Black Lives Matter nos EUA em decorrência do assassinato de George Floyd pelas forças policiais americanas. Estavam ali, de máscaras, no meio das aglomerações, informando seus leitores, suas audiências.

O que esse jornalismo da grande imprensa fez ontem entra para os anais de uma história já nada virtuosa do jornalismo brasileiro: o objetivo deixa de ser a notícia, a informação, quando o que está em jogo são os interesses particulares e políticos que defendem e representam. Em momentos políticos de grande relevância, a depender de qual grupo político se beneficie ou se prejudique, os pesos e medidas adotados variam. Ou vocês, caros leitores, caros leitoras, não acham nem um pouco estranho que, até essa altura do campeonato, nenhum grande jornal tenha feito sequer um editorial pedindo renúncia ou deposição do cidadão que nos mata e desgoverna como fizeram com Dilma sob a alegação de que a presidente tinha perdido a capacidade de governar?

Sugiro um pequeno exercício de imaginação: tivéssemos um presidente de esquerda promovendo o negacionismo como política e a morte como projeto, como ele estaria sendo tratado por esses mesmos setores da imprensa? Teria alguma chance de ainda estar sentado na cadeira presidencial? Pensem nisso antes de acharem que a grande imprensa brasileira trata esse governo com as mesmas réguas e compassos com que tratou certos governos há tão pouco tempo. Esse final de semana não nos deixa enganar.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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