Política
Como Michelle Bolsonaro pode implodir acordos do PL a sete meses da eleição
A atuação da ex-primeira-dama expõe divisões internas e aprofunda racha do bolsonarismo
A sete meses das eleições, o Partido Liberal atravessa um processo de desgaste interno que deixou de ser restrito aos bastidores e passou a influenciar diretamente a montagem das chapas. No centro desse enrosco está Michelle Bolsonaro, cuja atuação ganhou peso próprio na legenda e passou a tensionar decisões já consolidadas pela direção nacional.
Embora não ocupe cargo eletivo, Michelle comanda o PL Mulher e construiu uma base de influência relevante, sobretudo entre eleitores evangélicos e lideranças religiosas. Esse capital político faz com que seus gestos tenham impacto direto sobre o partido, especialmente quando entram em choque com acordos costurados pela cúpula.
O episódio mais visível ocorre em Santa Catarina. Ao declarar apoio público à deputada Carol de Toni como candidata ao Senado, Michelle contrariou uma definição já tomada pela Executiva Nacional do PL, que havia reservado uma das vagas para Carlos Bolsonaro e a outra para um nome indicado pela federação União Brasil e PP. A manifestação de apoio ocorreu quando De Toni já havia sido informada de que não teria espaço na chapa e ampliou o desconforto interno, ao sinalizar desalinhamento com a estratégia oficial do partido.
Dirigentes do PL avaliam que o gesto não apenas enfraqueceu a autoridade da direção nacional, como também incentivou a deputada a sustentar sua candidatura fora da legenda, aprofundando o racha em um estado considerado estratégico para o bolsonarismo. O mal-estar se agravou porque a decisão sobre Santa Catarina havia sido apresentada como parte de um acordo mais amplo, necessário para preservar alianças e evitar rompimentos com o governo de Jorginho Mello.
O padrão se repete no Distrito Federal, em um arranjo ainda mais sensível. Ali, a estratégia original do campo bolsonarista previa Michelle como candidata ao Senado, em composição com o então governador Ibaneis Rocha (MDB), enquanto a vice-governadora Celina Leão (PP) assumiria a cabeça de chapa ao governo. Esse desenho começou a ruir quando a deputada Bia Kicis passou a reivindicar a vaga ao Senado, defendendo uma chapa “puro-sangue” do PL e questionando a permanência de Ibaneis no acordo. Ao manifestar apoio público a Kicis, Michelle ampliou a instabilidade local, fragilizando o arranjo que favorecia Celina Leão e abrindo um impasse que ameaça empurrar Ibaneis para fora da disputa majoritária.
Esses movimentos reforçaram a percepção, dentro do PL, de que a legenda passou a conviver com uma dupla dinâmica de poder. De um lado, a direção partidária liderada por Valdemar Costa Neto, responsável por acordos formais e pela engenharia eleitoral. De outro, Michelle, que atua como liderança política com base própria, capaz de tensionar decisões e expor divergências internas. Para dirigentes e congressistas, o problema não é apenas o conteúdo dos apoios, mas o fato de eles ocorrerem à revelia de pactos já firmados.
Apesar das especulações, aliados próximos afirmam que Jair Bolsonaro tem sido consultado sobre os movimentos da esposa. Desde que passou a cumprir pena de 27 anos e três meses de prisão em Brasília, o ex-presidente recebe Michelle com regularidade, praticamente todas as terças e quintas-feiras. Nessas visitas, segundo relatos, cenários eleitorais e disputas regionais são discutidos, o que afasta a ideia de que as manifestações da ex-primeira-dama ocorram sem o conhecimento do marido.
Ainda assim, Bolsonaro não exerce um papel de contenção. A ausência de uma intervenção clara para alinhar o partido reforça a leitura de que Michelle dispõe de autonomia para atuar politicamente, mesmo quando suas posições colidem com interesses da cúpula do PL ou com projetos defendidos por integrantes da própria família.
A sete meses da eleição, o efeito acumulado desses episódios preocupa dirigentes da legenda. Segundo avaliações, cada gesto de Michelle amplia divisões internas e reduz o tempo para recompor alianças, dificultando a construção de chapas unificadas e aumentando o risco de fragmentação do voto da direita.
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