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Como estava o Brasil há dez anos?

Política

Recentemente a internet embarcou em uma brincadeira (ou uma armadilha para testar softwares de reconhecimento facial, segundo alguns) comparando fotos das mesmas pessoas em 2009 e 2019. É o Desafio dos Dez Anos (#10YearsChallenge), que viralizou nas principais redes sociais. Nós resolvemos entrar no jogo e comparar o Brasil de uma década atrás com o atual.

Spoiler: Se hoje o presidente facilita a posse de armas para a população, há dez o mandatário recebia o maior prêmio mundial da Paz, depois do Nobel (na foto acima, quando Lula recebeu o prêmio da Unesco).

Economia

2009 2019
  • Mesmo começando o ano em recessão por causa da crise global, o país volta a crescer e passa de devedor para credor do FMI (Fundo Monetário Internacional), ao comprar 10 bilhões de dólares em bônus.
  • Houve a descoberta do pré-sal, reserva de petróleo que iria financiar a Saúde e a Educação do País.
  • Mesmo com o discurso liberal do novo governo, o Brasil deve ter crescimento moderado e lento. As previsões levam em conta a aprovação da Reforma da Previdência defendida por Paulo Guedes.
  • O governo eleito marcou um novo leilão do pré-sal para novembro de 2019. Foi divulgado também que o presidente Jair Bolsonaro pretende mudar o regime de exploração no pré-sal para concessão.

Aos olhos do mundo

2009 2019
  • Apesar da crise, o Brasil tornou-se queridinho no exterior. Os líderes mundiais se mobilizaram e o G20 anunciou o uso de US$ 5 tri para salvar a economia e os empregos brasileiros.
  • O então presidente norte-americano Barack Obama soltou a famosa frase: “Esse é o cara! Eu adoro esse cara! É o mais popular político do mundo!”, referindo-se a Lula, em uma conversa informal entre os líderes reunidos na Cúpula de Londres.
  • A revista britânica “The Economist” também soltou elogios ao desempenho brasileiro e dedicou sua capa de novembro para o Brasil. A revista chamou o país de “a maior história de sucesso na América Latina”. Na capa, uma montagem com o Cristo Redentor decolando, em alusão a um foguete.
  • A aceitação pela imprensa e líderes internacionais do novo presidente, Jair Bolsonaro, é baixa. Desde sua campanha, o presidente recebe duras críticas, que crescem a cada medida impopular.
  • O presidente chegou a ser chamado de “Trump dos Trópicos”, pela BBC britânica, além de ter sido descrito pela maioria dos jornais tanto conservadores quanto progressistas como um líder nacionalista de extrema direita.
  • Mais recentemente, o presidente venezuelano Nicolás Maduro referiu-se a Bolsonaro como “fascista”. Até a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, comentou que o presidente “diz coisas extremamente desagradáveis que são intransponíveis na França”.

Programas sociais

2009 2019
  • Foi dado início ao programa Minha Casa Minha Vida, que passou a garantir habitações populares para famílias brasileiras de baixa renda. Foi lançado o pacote habitacional com investimentos de R$ 34 bilhões para a construção de 1 milhão de moradias, em sua primeira fase. Já o programa Bolsa Família havia completado seis anos e até novembro de 2009, havia atendido a 12,4 milhões de famílias.
  • Haviam também programas na área da educação. Dentre eles, Brasil Alfabetizado, Escola Que Protege, Escola Aberta, Programa Nacional do Livro Didático, Mais Educação, Acompanhamento da Frequência Escolar e Escola Ativa.
  • O programa educacional ProUni completou quase 600 mil bolsas de estudo oferecidas em aproximadamente 1,5 mil instituições de ensino em todo o país para estudantes de escolas da rede pública.
  • Há o medo de que o governo Bolsonaro ataque programas sociais vigentes nos últimos governos. De acordo com o Orçamento da União de 2019, divulgado nesta semana, programas como Mais Médicos e Minha Casa, Minha Vida estão entre os beneficiados.
  • Antes de tomar posse, Bolsonaro anunciou que seu governo faria uma auditoria nos programas sociais, incluindo o Bolsa Família, o que não foi feito até o momento.
  • Em dez anos, começou a crescer o percentual de negros com nível superior. De 2005 a 2015, esse número quase dobrou, fruto da política de cotas do ProUni e Fies.

Segurança Pública

2009 2019
  • O anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública descreveu aquele ano como marcado pela ebulição da segurança pública no Brasil, “com cortes no orçamento federal da área, crescimento da violência, operações da Polícia Federal questionadas e greves nas polícias de vários estados”.
  • O número de presos subiu para 440 mil — um total de 40% — de 2005 a 2009. Aproximadamente 43% desses presos ainda não haviam sido devidamente julgados.
  • Os dados de violência já assustavam. O Brasil voltou a ter um número de homicídios maior que 2003, ano da publicação do Estatuto do Desarmamento. Foram 51.434 naquele ano.
  • Já 2019, começa com notícias preocupantes em relação à segurança pública. Um relatório lançado pela Human Rights Watch critica a facilitação da posse de armas orquestrada pelo decreto do presidente Jair Bolsonaro.
  • Até o final de 2016, o Brasil tinha 726.712 presos, se consolidando como o 3º maior país do mundo com detentos.
  • O Atlas da Violência de 2018 registrou a marca recorde de 62.517 homicídios em 2016. O indicador equivale a 30 vezes a taxa de assassinato europeia.

Direitos das mulheres

2009 2019
  • Já estava em vigor a Lei Maria da Penha. Neste ano, foi alterada a tipificação penal de estupro, permitindo abranger outras práticas tidas como sexuais, para além da penetração vaginal.
  • O número de processos em tramitação por violência doméstica contra mulheres chegou a 150.532 entre julho de 2008 e o início de 2009. Dos processos abertos, 75.829 já haviam sido sentenciados.
  • Ocorriam, em média, 5.664 mortes de mulheres anualmente, o equivalente a 1 morte a cada uma hora e meia.
  • Na política, ainda estávamos muito atrás. Apenas 9% dos assentos no parlamento nacional eram ocupados por mulheres
  • Em 2018, a Lei Maria da Penha ganhou uma de suas mais importantes regras – o atendimento policial e pericial deve ser realizado preferencialmente por servidoras mulheres.
  • 10 anos depois, os processos por violência doméstica são muito maiores – em 2017, foram 452 mil ações ingressadas nos tribunais de justiça do país e 540 mil baixadas.
  • Hoje, mesmo com a criação em 2015 da Lei do Feminicídio, que condena a morte de mulheres mortas por serem mulheres, em 2017, foram 4.473 homicídios, o equivalente a 1 morte a cada duas horas.
  • A partir dos resultados das eleições de 2018, as mulheres representam 15% dos assentos parlamentares.
  • Desde 1997, a lei eleitoral brasileira exige que os partidos e as coligações respeitem a cota mínima de 30% de candidaturas femininas aos cargos legislativos, mas em 2018, o TSE decidiu que 30% dos recursos públicos de campanha deveriam ser destinados às campanhas femininas, como uma forma de alavancar essas candidaturas.

Diversidade

Leia também: Por que a petição para Lula ganhar o Nobel já tem 500 mil assinaturas?

2009 2019
  • Em 2009, o homicídio de pessoas negras era de 34,3 a cada 100 mil habitantes.
  • Em 2009, segundo a lei, pessoas do mesmo sexo ainda não podiam se casar.

 

  • Em 2016, a taxa de homicídios da população negra saltou 23,1% em comparativo ao ano de 2006. Para o mesmo período, a taxa de homicídios da população branca diminuiu 6,8%.
  • Enquanto que o homicídio de mulheres brancas diminuiu nessa década, tendo caído 8%, o de mulheres negras aumentou 15,4%. O Brasil mata 71% mais mulheres negras que brancas, segundo o Atlas da Violência de 2018.
  • A medida que legaliza os casamentos entre pessoas do mesmo sexo passou a valer em maio de 2013. Desde então, até o início de 2018, o número de casamentos homoafetivos cresceu 45%.
  • Em 2018, o STF autorizou que pessoas trans autodeclaradas tivessem a possibilidade de utilização de seu nome social.
  • Entretanto, ao final de 2017, o número de pessoas trans assassinadas foi o maior em 10 anos. Isto é, a cada 48 horas, uma pessoa trans era assassinada no Brasil. 94% desses assassinatos eram contra pessoas do gênero feminino.

Saúde

2009 2019
  • As famílias brasileiras gastavam dez vezes mais com medicamentos do que o governo do país. Em 2009, o país investiu 7,5% do PIB em Saúde enquanto outros países, como os Estados Unidos, investiram o dobro.
  • Já em 2019, o investimento caiu quase pela metade. Em 2015, os gastos públicos em saúde representavam 3,8% do PIB.
  • O brasileiro desembolsou, em média, R$1.538, 73 por ano com remédios e serviços privados, enquanto que o investimento do governo per capita era de R$1.131, 94, 39% a menos que cada cidadão.

Meio Ambiente

2009 2019
  • O Brasil havia tido, pela primeira vez, o menor índice de desmatamento da história do país. Houve uma redução de 45% se comparado ao período anterior. O Ministério da Agricultura saudava o marco a operações de repressão a madeireiras, grileiros de terra e ao avanço da pecuária ilegal. O recorde só foi quebrado novamente em julho de 2012.
  • O Ministro do Meio Ambiente era Carlos Minc, geógrafo e ambientalista que em 1989, havia sido reconhecido pela ONU com o prêmio Global 500 por suas lutas na defesa do meio ambiente.
  • O país, em 2018, registrou o maior índice de desmatamento em 1 década, 13,7% a mais do que o período anterior.
  • O presidente Jair Bolsonaro escolheu Ricardo Salles para Ministro do Meio Ambiente. O ministro afirma que durante sua gestão, combaterá o desmatamento independentemente das metas estabelecidas para 2030 no Acordo de Paris, de 2015.

 

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Estagiária de Jornalismo de CartaCapital.com.br

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